Crédito

Juros vão baixar em 2024. Falta saber quando e quanto

A Fed e o BCE deixaram evidente que os juros não voltam a subir e os investidores já estão à espera de cortes agressivos em 2024.

Depois de uma subida frenética das taxas de juro para combater a subida da inflação, os bancos centrais entraram em modo de pausa e é agora quase certo que o próximo ano será marcado por uma inversão da política monetária, faltando ainda perceber quando vai acontecer e qual será a dimensão do alívio dos juros.

Esta ideia ficou bastante clara depois das reuniões da semana passada da Reserva Federal (Fed) e do Banco Central Europeu (BCE). No caso da autoridade monetária dos Estados Unidos, ficou bem explícita a mudança de discurso e o fim de ciclo de subida das taxas de juro. No BCE ainda impera a cautela, embora os sinais também sejam evidentes de que a próxima mexida nas taxas de juro será no sentido descendente.

Porta aberta a descida de juros

Desde março de 2022, a Fed elevou os juros por 11 vezes, num total de 525 pontos base (5,25 pontos percentuais), o que colocou a taxa de referência (Fed Funds) em 5,25%-5,50%, o nível mais elevado desde 2001. Desde julho deste ano que não foram efetuadas alterações e na reunião de 13 de dezembro a Fed e o seu presidente, Jerome Powell, abriram claramente a porta a descidas de juros.

A mudança de discurso, que acabou por surpreender investidores e economistas, foi vista como a inflexão na mensagem do banco central dos EUA. Fica assim para trás a narrativa de que as taxas de juro iriam ficar estáveis por um período prolongado, o que nos mercados recebeu a designação de higher for longer.

Na reunião do BCE de 14 de dezembro, a mensagem foi bem mais branda, com Christine Lagarde a vincar que o corte de juros não foi um tema abordado pelo Conselho do BCE e que “não chegou ainda a altura de baixar a guarda” na luta contra a inflação. O BCE subiu as taxas de referência por 10 vezes, entre julho de 2022 e setembro de 2023, num total de 450 pontos base (4,5 pontos percentuais). Os juros ficaram estáveis em dezembro pela segunda reunião seguida.

Apesar da retórica da presidente do BCE, o banco central deixou vários sinais de que também na Zona Euro a porta está aberta à inversão da política monetária. O banco central alterou a linguagem do comunicado para deixar cair a probabilidade de voltar a subir os juros; reviu em baixa as estimativas para o crescimento do PIB e da inflação; anunciou desde já a solução para o fim dos reinvestimentos das obrigações adquiridas na pandemia, para não entrar em contradição quando começar a aliviar a política monetária.

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Mercados esperam cortes já em março

Como já é habitual, os investidores interpretaram as declarações da Fed e do BCE de uma forma muito agressiva, descontando uma trajetória para as taxas de juro que vai além do que foram as indicações deixadas pelos líderes dos dois bancos centrais.

Jerome Powell sinalizou três cortes de 25 pontos base em 2024, mas o mercado de futuros de taxas de juros já está a descontar pelo menos cinco reduções, com a primeira a surgir em março. Christine Lagarde afastou um alívio da política monetária nos próximos meses, mas os investidores estão a atribuir uma elevada probabilidade de o primeiro corte também surgir no terceiro mês de 2024. As expectativas apontam para a taxa dos depósitos do BCE fechar 2024 em 2,5%, o que compara com os 4% atuais.

Apesar das estimativas serem semelhantes para os dois bancos centrais, a situação nos Estados Unidos é bem diferente da que se regista na Zona Euro. O PIB da maior economia do mundo cresceu acima de 5% no terceiro trimestre enquanto, no mesmo período, a economia da Zona Euro registou uma contração de 0,1%.

No que diz respeito à inflação, a tendência é mais semelhante, com os indicadores a aproximarem-se das metas dos 2%. A inflação na Zona Euro recuou em novembro para 2,4% e baixou para 3,1% nos Estados Unidos. Apesar da atual conjuntura parecer mais favorável à descida de juros do BCE, a autoridade monetária tem como objetivo primordial a estabilidade dos preços, enquanto o banco central norte-americano também tem como meta atingir o pleno emprego.

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BCE só deve agir no verão

Os responsáveis do BCE têm repetido a mensagem de que é prematuro começar a discutir a descida de juros enquanto a inflação permanecer acima dos 2% e as expectativas de alívio na alta dos preços não forem mais firmes. Os economistas estimam que os preços tenham subido em dezembro (devido a uma base de comparação mais baixa no último mês de 2022) na Zona Euro, ilustrando como esta última fase de alívio da inflação poderá ser mais lenta do que o registado nos últimos meses.

É neste contexto que será difícil o BCE começar a reduzir os juros já em março. É mais provável que, nessa reunião, em que o banco central vai atualizar as suas projeções macroeconómicas, exista uma mudança de discurso com a indicação de cortes de juros nas reuniões seguintes. O cenário central entre os economistas aponta, assim, para a primeira descida de juros no verão, que iniciará uma série de cortes ao longo do resto do ano.

Contudo, como tem sido evidente nos últimos meses, as expectativas para a evolução dos juros podem sofrer alterações bruscas num curto espaço de tempo, variando em função dos dados económicos. Se a provável recessão na Zona Euro for apenas moderada, não deverá demover o BCE de manter a política monetária em níveis restritivos.

Mas se a contração da economia for mais profunda, potenciando uma descida mais célere da inflação, o banco central fica com o caminho aberto para descer os juros de forma mais rápida. Pelo contrário, se a inflação persistir em níveis elevados nos próximos meses, o BCE pode ficar de “mãos atadas” para descer os juros no verão.

Taxas Euribor já refletem expectativas de cortes de juros

Especulações e incertezas à parte, o que pode ser dado por quase garantido é que as taxas de juro da Zona Euro não voltam a subir no atual ciclo e serão reduzidas em 2024.

Esta perspetiva é bem evidente na evolução das taxas Euribor, que servem de indexante para a esmagadora maioria do crédito à habitação concedido em Portugal, pelo que as famílias vão começar a sentir em breve um alívio das prestações, mesmo que a taxa do BCE permaneça em máximos históricos por mais meses.

A taxa Euribor a 12 meses está atualmente em 3,6%, em linha com o registado em abril e longe do pico acima de 4,2% fixado em outubro. A tendência descendente deverá ganhar ritmo nas próximas semanas, caso se mantenham as expectativas de que o BCE vai aliviar a política monetária em 2024.

A Euribor a 6 meses também já cedeu da fasquia dos 4%, estando agora no mesmo nível de setembro. No caso do indexante a três meses, a tendência de correção é bem mais ténue, pois não é expectável mudanças nos juros do BCE neste espaço de tempo.

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Esta tendência descendente das taxas Euribor representa boas notícias para as famílias com crédito à habitação, pois 2024 será um ano em que será revertido o forte agravamento das prestações que marcaram 2022 e 2023. Contudo, ainda poderá ser necessário esperar algum tempo para os portugueses sentirem o alívio no seu orçamento.

Quem tem crédito à habitação com revisão em janeiro indexado à Euribor a 12 meses, ainda irá sentir um agravamento da prestação, pois a nova taxa vai comparar com a registada em dezembro de 2022 (ainda abaixo de 3%). A boa notícia é que escapou ao cálculo da prestação quando as taxas estavam acima de 4% (entre julho e novembro).

No caso dos créditos indexados à Euribor a 6 meses também é provável um último agravamento da prestação, embora muito ténue. Já nos empréstimos revistos de três em três meses, a prestação já pode ser ligeiramente mais reduzida na próxima alteração.

Já nos contratos que sejam revistos em meados do próximo ano, independentemente da periodicidade da revisão, a probabilidade de a prestação do crédito à habitação ser substancialmente mais baixa é bastante elevada.

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Nasceu em 1977, sendo jornalista desde 1999. Iniciou a carreira no Jornal de Negócios, onde esteve mais de 20 anos, ocupando várias funções, sempre com foco no online. Atualmente é jornalista independente, assina a newsletter diária de mercados Morning Call e colabora de forma regular com o ECO. Formado em Gestão no ISEG, tem especial interesse por tudo o que está relacionado com os mercados financeiros.

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