Nuno Carregueiro
Nuno Carregueiro
Nasceu em 1977, sendo jornalista desde 1999. Iniciou a carreira no Jornal de Negócios, onde esteve mais de 20 anos, ocupando várias funções, sempre com foco no online. Atualmente é jornalista independente, assina a newsletter diária de mercados Morning Call e colabora de forma regular com o ECO. Formado em Gestão no ISEG, tem especial interesse por tudo o que está relacionado com os mercados financeiros.
Investimentos

Como a inflação está a sacudir o mercado cambial e a derrubar gigantes

Nuno Carregueiro
Nuno Carregueiro
Nasceu em 1977, sendo jornalista desde 1999. Iniciou a carreira no Jornal de Negócios, onde esteve mais de 20 anos, ocupando várias funções, sempre com foco no online. Atualmente é jornalista independente, assina a newsletter diária de mercados Morning Call e colabora de forma regular com o ECO. Formado em Gestão no ISEG, tem especial interesse por tudo o que está relacionado com os mercados financeiros.

Euro, libra e iene sofrem fortes quedas e negoceiam em mínimos de mais de 14 anos. A “culpa” é da inflação, que está a dar força ao dólar.

O habitualmente monótono mercado cambial está atualmente ao rubro, com variações muito pronunciadas no valor de várias das divisas mais importantes do mundo. Movimentações que têm implicações significativas numa série de ativos cotados e vários indicadores chave para a economia, como a inflação, comércio, taxas de juro e política orçamental.

O DXY, um dos principais índices para medir a evolução do dólar contra as principais moedas mundiais, acumula uma valorização de 19% em 2022, negociando em máximos de 1985, ano em que os líderes das principais economias mundiais atuaram para travar a escalada da moeda norte-americana através do Acordo Plaza.

A força do dólar também é visível na debilidade das restantes moedas mundiais, com euro, iene e libra a negociarem em mínimos de pelo menos 14 anos após quedas anuais que, em alguns casos, superam os 20%.

A turbulência no mercado cambial ganhou intensidade nos últimos dias depois de o novo governo liderado por Liz Truss ter apresentado um plano agressivo de corte de impostos que gerou um forte ceticismo entre investidores, economistas e institutos internacionais. A libra sofreu um “mini-crash” que atirou a cotação da moeda para mínimos históricos e provocou um disparo nas taxas de juro das obrigações britânicas.

Mas a libra não está sozinha neste movimento de perda acentuada de valor face ao dólar. A desvalorização da moeda britânica, euro, iene, yuan e outras divisas têm fatores específicos, mas também um denominador comum.

O que está a motivar a subida do dólar?

É o disparo da inflação a nível global que justifica a força do dólar. Apesar de tardia, a resposta dos bancos centrais à alta dos preços está a ser marcada por um agravamento da política monetária como não se via há décadas. A Fed tem liderado este movimento, estando um passo à frente de bancos centrais como o Banco de Inglaterra e o Banco Central Europeu, o que é um fator decisivo para a valorização da moeda norte-americana.

Quanto mais alta for a taxa de juro de uma economia, maior a atratividade da sua moeda, uma vez que os capitais são remunerados com taxas mais elevadas. O nível de taxas de juro não é o único fator que interfere na taxa de câmbio. Mas não é por acaso que o real brasileiro é das poucas moedas que, em 2022, está a levar o melhor no braço de ferro contra o dólar. Valoriza 4% pois o banco central do Brasil começou a subir os juros no início de 2021 e já terminou o atual ciclo nos 13,75%.

Além da questão das taxas de juro, a escalada da inflação está a provocar uma queda acentuada numa série de ativos cotados, com destaque para as ações e obrigações, que sofrem perdas em redor de 20% a nível global em 2022. Em momentos de aversão ao risco e forte turbulência, os investidores procuram sempre abrigo nos ativos considerados mais seguros, como é o caso do dólar.

A inflação também é determinante para explicar a forte travagem da economia global, sendo que o dólar também é um dos principais beneficiados em alturas de recessão. Os receios de uma contração económica mais aguda também afetam os Estados Unidos, mas são mais intensos na Zona Euro e Reino Unido, o que representa mais um ponto a favor do dólar.

O dólar é considerado o principal veículo de reserva de valor e, ao contrário do que muitos esperavam, conseguiu reforçar esse estatuto depois da guerra na Ucrânia. Sobretudo devido à fragilidade dos seus rivais. O iene japonês perdeu completamente essa posição e o ouro negoceia em mínimos de dois anos, precisamente por ser uma das vítimas da força do dólar.

Leia ainda: Como a inflação atirou os mercados para um dos piores semestres de sempre

Quem ganha e perde com a força do dólar

Sendo as matérias-primas cotadas em dólares, a valorização da moeda norte-americana tem um impacto negativo na sua cotação. Os índices que agrupam diversas matérias-primas estão em mínimos do ano, mais do que anulando os ganhos conquistados após a guerra na Ucrânia.

Além da queda do ouro para mínimos de 2020, metais industriais (como o cobre e alumínio) e até matérias-primas agrícolas têm sofrido quedas pronunciadas à medida que o dólar coleciona máximos nos mercados. Apesar dos fortes constrangimentos do lado da oferta, o petróleo está em mínimos de janeiro (Brent negociou abaixo dos 85 dólares), já mais de 30% abaixo dos máximos do ano.

Sendo o dólar a moeda primordial no comércio mundial, a sua valorização tem um forte impacto na economia global. Pensando apenas nas matérias-primas, é evidente o efeito de variações cambais abruptas. Quando o Brent atingiu máximos de 2022, a 8 de março, para os britânicos, o barril de petróleo custava cerca de 94 libras. Hoje, custa 79 libras, o que representa uma queda de “apenas” 16%, cerca de metade da descida de que beneficiam os norte-americanos.

É por isso que a debilidade de uma moeda é um fator de pressão inflacionista. Todos os produtos denominados em dólares que são importados pelos países da Zona Euro, Reino Unido e Japão ficaram mais caros nos últimos meses devido ao efeito cambial.

O reverso da medalha também é verdade. As exportações das empresas com moedas fracas ficam bem mais atrativas, pois os preços baixam para as empresas de países com moedas fortes. Apesar de este ser um fator importante numa altura em que a recessão é vista como inevitável na Zona Euro e Reino Unido, o foco atual está no combate à inflação, daí que a queda do euro esteja a fazer soar as campainhas nas capitais europeias e também em Frankfurt (sede do BCE).

Já os Estados Unidos não têm demonstrado preocupação com a força do dólar, vendo a tendência como mais uma ferramenta para combater a inflação, que está em máximos de 40 anos. Além do efeito negativo nas exportadoras, a alta do dólar representa uma dor de cabeça para as centenas de multinacionais norte-americanas que obtêm a maior parte das receitas no exterior. Emagrecem depois de convertidas para dólares, penalizando fortemente os resultados líquidos.

Nada que atormente Washington, até porque a cotação de uma moeda também é vista como um espelho da força da economia, e a queda do euro e da libra para mínimos representa uma machadada na credibilidade dos governos e bancos centrais destes países.

De seguida analisamos mais em detalhe os motivos para a queda de quatro das principais divisas mundiais.

Palanque com a bandeira dos Estados Unidos e da Reserva Federal

Imprudência orçamental provoca colapso da libra

17 dias depois de ter substituído Boris Johnson na liderança do governo, Liz Truss surpreendeu com o anúncio de um mega corte de impostos para ajudar os britânicos a enfrentarem o aumento do custo de vida. Foi na sexta-feira, dia 23 de setembro, que o ministro das Finanças, Kwasi Kwarteng, apresentou o plano que foi classificado de imprudente, desproporcionado e preocupante para as contas públicas do país.

O corte de impostos de 39,3 mil milhões de libras é o maior desde 1972 e o governo não detalhou como o pretende financiar, nem os objetivos para a disciplina orçamental no futuro. A libra caiu perto de 4% nessa sessão, uma das maiores quedas diárias de sempre. Dois dias depois, Kwarteng reiterou que o plano era para avançar, colocando mesmo em cima da mesa um corte de impostos adicional.

Quando os mercados asiáticos abriram na segunda-feira (26 de setembro), a libra entrou em queda livre e atingiu um mínimo histórico (1,035 dólares) no espaço de minutos. Recuperou ao longo do dia, mas esta movimentação abriu caminho para uma sessão de quedas fortes em quase todos os ativos e uma valorização adicional do dólar. As yields das obrigações britânicas entraram numa espiral altista, contagiando o mercado a nível global.

Os investidores receberam esta medida com elevada desconfiança, criticando um corte de impostos desta magnitude num país com um problema de défices gémeos elevados (orçamental e da balança de pagamentos). Além de induzir mais pressões inflacionistas, contrariando os efeitos da política monetária do Banco de Inglaterra.

A queda acentuada da libra e das obrigações britânicas gerou especulações de que o Banco de Inglaterra iria anunciar um aumento de juros após uma reunião de emergência. A autoridade monetária efetuou primeiro uma intervenção verbal, prometendo um aumento agressivo da taxa de juro, mas apenas na reunião ordinária já agendada para o início de novembro.

Na quarta-feira, 28 de setembro, acabou por anunciar um programa de 65 mil milhões de libras para comprar obrigações ao longo de 13 dias, num movimento contraditório com o aperto da política monetária, mas inevitável para estancar a sangria nos mercados e prevenir uma crise de maiores proporções.

O alívio foi imediato, mas já se tinha desvanecido no dia seguinte. Com uma inflação de dois dígitos e tendência de agravamento, uma recessão acentuada a caminho e um problema de credibilidade nas autoridades do país, a libra tem caminho aberto para agravar a tendência negativa. Já perde 21% este ano face ao dólar e muitos analistas acreditam que será uma questão de tempo até atingir a paridade.

Crise energética agrava perspetivas para o euro

No euro, a tendência de queda tem sido menos abrupta, mas igualmente pronunciada, com a moeda a acumular perdas de 16% em 2022 para mínimos de 20 anos, com o marco de ter perdido a paridade face ao dólar.

A inflação também está no centro da debilidade da moeda europeia, pois o BCE começou a responder à alta dos preços de uma forma bem mais lenta do que a Reserva Federal. O banco central dos EUA efetuou a primeira subida de juros em março- Desde então, os juros já aumentaram 3 pontos percentuais e os economistas estimam que a taxa possa atingir 5% no próximo ano, naquele que é o aperto de política monetária mais acentuado desde os anos 80.

O BCE arrancou o ciclo de normalização da política monetária em julho, tendo agravado os juros num total de 1,25 pontos percentuais em duas reuniões. A taxa atual de 0,75% é cerca de três vezes inferior à praticada nos Estados Unidos e os economistas estimam que o BCE deve parar quando chegar aos 3% em 2023, um nível bem inferior ao pico estimado para a Fed.

Este diferencial de taxas de juro é um fator de pressão sobre o euro, sendo que as perspetivas económicas também são mais sombrias para a Zona Euro. A crise energética tem um impacto bem mais pronunciado na Europa, com destaque para a maior economia da região, uma vez que a Alemanha tem uma forte dependência do gás russo.

A recessão na Zona Euro já não é uma questão de se vai acontecer, mas qual será a sua magnitude, sendo que vários economistas estimam uma contração considerável no PIB da Zona Euro em 2023, com o cenário de elevados preços do gás natural e eletricidade, racionamento de energia e “blackouts” a agravarem as perspetivas para a atividade económica na região.

Nos Estados Unidas, o cenário de recessão também é visto como provável, mas a maior economia do mundo continua a dar sinais de resiliência, sobretudo no mercado de trabalho. A confirmar-se esta tendência de resistência da economia norte-americana e intensificação da crise na Europa, as perspetivas para o euro vão agravar-se.

Bandeira da Zona Euro na fachada de um edifício em Itália

Leia ainda: Juros com maior aumento de sempre. O que significa para o meu crédito?

Japão isolado nas taxas de juro negativas

A era das taxas de juro em terreno negativo chegou ao fim em 2022. Depois de largos anos com uma política monetária ultra expansionista para estimular os preços e a atividade económica, os bancos centrais entraram numa corrida desenfreada de subida de taxas de juro.

O movimento está a ser global, mas nem todos os bancos centrais estão a aplicar a mesma receita. O Banco do Japão mantém a taxa de juro em -0,1% desde 2016, continuando a adotar uma política monetária ultra expansionista depois de a economia do país ter sido fustigada pela deflação (queda persistente dos preços) e crescimento anémico durante décadas.

A inflação atingiu um máximo de oito anos em agosto (2,8%) acima da meta do banco central (2%), mas bem distante do registado noutras geografias. Na reunião de setembro, o Banco do Japão manteve os juros, sinalizando que vão continuar em terreno negativo, e que a autoridade monetária continuará a comprar obrigações para limitar o avanço das yields dos títulos de dívida a 10 anos acima de 0,25%.

A moeda do país está a ser a grande “vítima” desta política monetária divergente com o resto do mundo, tendo perdido completamente o estatuto de ativo de refúgio em períodos de turbulência nos mercados. O iene já acumula uma queda de 21% em 2022, o que atirou a cotação para mínimo de 14 anos acima de 145 ienes por dólar.

A descida vertiginosa levou o governo nipónico a efetuar a primeira intervenção no mercado cambial desde 1998 para impulsionar o iene. A moeda recuperou algum fulgor, mas permanece encostada a mínimos de 14 anos e sem perspetivas de recuperação sustentada enquanto se mantiver a política de fortes estímulos monetários e orçamentais, aliada a um crescimento económico que permanece fraco. 

Moeda chinesa não resiste a várias crises

A inflação está longe de ser a maior dor de cabeça na China (2,5% em agosto), mas a moeda do país também sofre quedas pronunciadas em 2022, o que deixa o banco central chinês de mãos atadas para estimular uma economia que está a ser assolada por uma série de crises.

Depois de ter sido o motor da economia mundial durante largos anos, a China arrisca registar em 2022 o pior desempenho em 40 anos. O crescimento do PIB ficará longe da meta que o Governo anunciou em março (5,5%), com muitos economistas a alertarem que pode mesmo ficar abaixo do registado no primeiro ano da pandemia (2,2% em 2020).

O esgotamento do modelo assente na indústria e na construção, que gerou taxas de crescimento de dois dígitos, destapou as debilidades do “milagre económico” chinês. Xi Jinping anunciou, em 2021, o novo desígnio da “prosperidade comum”, mas a economia continua a sofrer os efeitos dos excessos do ciclo anterior, evidentes sobretudo na crise que se vive no setor imobiliário.  

Em contraciclo com o resto do mundo, a economia chinesa já tinha sido debilitada em 2021 pelo mau momento do setor imobiliário. O cenário agravou-se este ano, com a política de covid zero a fechar várias cidades durante longos períodos, o que restringiu o consumo e a atividade económica. Com o resto do mundo agora também a abrandar, o que já se sente nas exportações chinesas, as perspetivas continuam sombrias para a segunda maior economia do mundo.

O governo tem avançado com medidas de estímulo orçamental, mas, ao nível de política monetária, as expectativas de medidas fortes têm vindo a diminuir devido ao enfraquecimento da moeda. O Banco Popular da China teme que uma descida das taxas de juro acentue a desvalorização do yuan e a fuga de capitais do país.

A moeda chinesa está a negociar em mínimos desde a crise financeira de 2008, após uma desvalorização de 12% face ao dólar em 2022. As autoridades chinesas têm revelado um crescente desconforto com a evolução da divisa, gerando a especulação de que podem intervir no mercado cambial doméstico, que já é altamente controlado por Pequim.

Nuno Carregueiro
Nuno Carregueiro
Nasceu em 1977, sendo jornalista desde 1999. Iniciou a carreira no Jornal de Negócios, onde esteve mais de 20 anos, ocupando várias funções, sempre com foco no online. Atualmente é jornalista independente, assina a newsletter diária de mercados Morning Call e colabora de forma regular com o ECO. Formado em Gestão no ISEG, tem especial interesse por tudo o que está relacionado com os mercados financeiros.

Nasceu em 1977, sendo jornalista desde 1999. Iniciou a carreira no Jornal de Negócios, onde esteve mais de 20 anos, ocupando várias funções, sempre com foco no online. Atualmente é jornalista independente, assina a newsletter diária de mercados Morning Call e colabora de forma regular com o ECO. Formado em Gestão no ISEG, tem especial interesse por tudo o que está relacionado com os mercados financeiros.

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