Como a inflação atirou os mercados para um dos piores semestres de sempre

As bolsas mundiais marcaram perdas em torno de 20% e as obrigações sofreram quedas inéditas no passado recente. A culpa é da inflação.

Se fosse necessário justificar o desempenho dos mercados financeiros no primeiro semestre com apenas uma palavra, esta só poderia ser inflação. A intensa escalada dos preços ao longo da primeira metade de 2022 produziu uma série de efeitos que afastou os investidores das ações e das obrigações, num movimento de aversão ao risco como há muito não se assistia nos mercados financeiros.

A tendência de subida rápida dos preços surgiu logo em meados de 2021, mas foi desvalorizada em geral pelos agentes de mercado, sobretudo pelos bancos centrais, que repetiram intensamente que o efeito seria temporário e resultado de um choque do lado da oferta, conduzido essencialmente pela alta dos preços da energia e, por isso, sem necessidade de uma resposta à altura da política monetária.

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2021 o fim do dinheiro barato

O ano passado foi o terceiro seguido de valorizações nas ações mundiais e no final de 2021 a generalidade dos analistas mantinha uma visão positiva para este ano. As economias estavam a reabrir depois das restrições para conter a covid-19, os consumidores tinham caminho aberto para gastar as poupanças acumuladas na pandemia e os resultados das empresas mostravam uma resiliência assinalável.

Logo no arranque do ano se percebeu que seria a inflação a ditar o rumo dos mercados. A Reserva Federal (a Fed, que é o banco central dos Estados Unidos) já tinha deixado de classificar a alta dos preços como temporária e deu claros sinais de que iria apertar a política monetária. A inflação na maior economia do mundo tinha atingido 7% em dezembro e o banco central dos EUA abandonou a postura de complacência.

O mercado de ações respondeu com quedas muito acentuadas, sendo que a escalada da inflação também continuou a penalizar as obrigações, que já vinham de dois anos de retornos negativos. Os investidores preparavam-se para o fim dos estímulos monetários que durante vários anos injetaram muitos milhões de dólares no sistema financeiro. O movimento que reforçou a atratividade dos ativos de maior risco, como as ações, em detrimento dos títulos de baixo risco e com rendibilidades muito magras, estava a chegar ao fim.

Se em 2021 ganhar dinheiro nos mercados foi semelhante a um “passeio no parque”, rapidamente se percebeu que alcançar retornos positivos em 2022 iria ser um desafio. A era do dinheiro barato tinha o fim à vista, sobretudo nos Estados Unidos, e a Fed acenava com alguns aumentos de juros para controlar a inflação.

No início do ano, a inflação na Zona Euro já se situava bem acima da meta do Banco Central Europeu (2%), mas o banco central liderado por Christine Lagarde permanecia sereno na sua política monetária ultra expansionista, para suportar a evolução da economia que ainda recuperava da quebra sentida na pandemia.

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Invasão da Ucrânia acentua subida de preços

No final de fevereiro surge o evento que contribuiu para agravar as quedas dos mercados e acentuar as preocupações com a subida da inflação. A invasão da Ucrânia provocou uma forte subida dos preços da energia, mas também de uma série de matérias-primas, como os alimentos agrícolas. Além disso, penalizou os já preocupantes problemas nas cadeias de abastecimento globais, o que contribuiu para agravar ainda mais as pressões inflacionistas.

Os constrangimentos no normal funcionamento do comércio mundial também foram agravados pelo regresso da pandemia à China, que provocou o fecho de fábricas e portos para conter a covid-19 através de uma política muito rigorosa que só agora está a ser aliviada.

Mês após mês, os indicadores mensais da inflação foram atingindo novos recordes. Em março já se situava acima dos 8% nos Estados Unidos e chegou em maio a esta marca na Zona Euro. A alta dos preços foi acentuada e abrangente, motivando um aperto sincronizado da política monetária à escala global como há muito não se via. Mais de 60 bancos centrais em todo o mundo já subiram os juros este ano.

As ações foram agravando as perdas à medida que se tornava evidente que inflação alta iria ser persistente, o que exigiria uma resposta agressiva por parte dos bancos centrais. Mesmo com uma guerra em solo europeu, o BCE deitou a toalha ao chão e focou atenções no combate à inflação.

O programa de emergência de compra de ativos implementado durante a pandemia já acabou e Christine Lagarde pré-anunciou a primeira subida de juros para o final deste mês (25 pontos base), ao que se seguirá mais agravamentos em setembro e nas reuniões dos meses seguintes.

As atuais expectativas do mercado apontam para que a taxa dos depósitos da Zona Euro esteja pelo menos em 0,5% no final do ano, o que representa um agravamento de 25 pontos base em todas as reuniões deste ano e compara com o atual mínimo histórico de -0,5%.

Na Fed, a subida de juros será bem mais acentuada. O banco central já subiu os juros por duas vezes, sendo que a última foi de 75 pontos base (maior aumento desde 1994). Até ao final do ano a taxa de juro deverá situar-se bem acima de 3%.

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Quedas sincronizadas nas ações e obrigações

O agravamento da inflação foi assim o fator preponderante para motivar a aversão ao risco que provocou quedas acentuadas nos mercados acionistas. A tendência negativa foi abrangente, apanhando quase todas as geografias e setores, mas atingiu de forma mais intensa as tecnológicas. Tinham registado as valorizações mais acentuadas desde o início da pandemia e, por outro lado, são as empresas mais penalizadas pelo agravamento dos custos de financiamento.

O Nasdaq foi assim o primeiro dos principais índices mundiais a entrar em bear market. O índice tecnológico dos EUA atingiu uma queda de 20% face a máximo logo no início de março, poucos dias depois da Rússia invadir a Ucrânia. Fechou o semestre ainda mais abaixo, acumulando uma queda de 30% em seis meses, o que representa o pior desempenho desde 2002.

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O S&P500 só entrou em bear market em junho, mas o desempenho negativo foi mais excecional. O índice que reúne as 500 maiores cotadas norte-americanas cedeu 21% no semestre, o que já não acontecia desde 1972. Na Europa as quedas foram um pouco menos intensas, refletindo o facto de as tecnológicas terem um peso mais modesto nos índices e as companhias do setor energético terem uma relevância mais acentuada.

O Stoxx600 cedeu 17% no semestre, o que representa o pior desempenho desde a crise financeira de 2008. O MSCI ACWI, que mede o desempenho das bolsas mundiais, sofreu uma queda de 20%, a maior num primeiro semestre desde que o índice foi criado em 1986.

A bolsa portuguesa foi um verdadeiro oásis nas praças mundiais. O PSI avançou 8,5% nos primeiros seis meses do ano, beneficiando sobretudo do facto de ser um índice constituído por muitas empresas do setor energético, destacando-se a Galp Energia que tirou partido da forte subida dos preços do petróleo.

Se as quedas nos mercados de ações já foram históricas, o desempenho negativo das obrigações agravou as perspetivas dos investidores com carteiras diversificadas, que tiverem no primeiro semestre umas das piores performances de sempre.

Historicamente, as ações e obrigações registam um comportamento divergente, com os títulos de dívida a valorizarem em alturas de crescimento fraco da economia e a perderem valor quando os investidores reforçam a aposta nas ações devido à expansão da economia. O primeiro semestre deste ano contrariou esta tendência, com a inflação elevada a castigar também o valor das obrigações. E com quedas históricas. O índice da Bloomberg para medir o desempenho dos títulos de dívida em todo o mundo cedeu mais de 14,3%, o que representa o pior desempenho em mais de dois séculos.

Os índices que apostam na estratégia de equilíbrio entre ações e obrigações (60/40) sofreram perdas em torno de 15% no semestre, mostrando como está a ser difícil ganhar dinheiro nos mercados em 2022 e que o primeiro semestre foi um dos piores de sempre para os investidores tradicionais. Entre as principais classes de ativos, “salvaram-se” as matérias-primas, que dispararam mais de 30%. As commodities de energia subiram mais de 50% e muitas matérias-primas também dispararam, o que contribuiu de forma decisiva para agravar as pressões inflacionistas.

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Medo de recessão condiciona segundo semestre

Se a inflação centrou atenções no primeiro semestre, é bem provável que a segunda metade do ano seja dominada pela recessão. O aumento do custo de vida e a perspetiva de agravamento célere das taxas de juro agravaram as perspetivas de travagem brusca da economia global.

Se o medo da estagflação (crescimento económico fraco e inflação elevada) marcou os mercados no início do ano, agora são os receios de recessão que estão no centro das preocupações dos investidores. Os indicadores económicos ainda não apontam nesse sentido, mas já denotam um abrandamento da atividade económica, levando um número crescente de economistas e bancos de investimento a estimar uma recessão nas principais economias mundiais, como os EUA e a Zona Euro, no final deste ano ou em 2023.

É por isso que, apesar das quedas pronunciadas desde o início do ano, cautela continua a ser a palavra de ordem nas perspetivas para os mercados, sendo poucos os analistas que arriscam uma inversão de tendência sustentada na evolução das ações na segunda metade do ano. A incerteza é uma das maiores inimigas dos mercados e persiste uma escassa visibilidade sobre uma série de fatores, o que mantém muitos investidores afastados das ações.

A inflação vai continuar a desempenhar um importante papel no rumo dos ativos. Os economistas estimam que o pico da inflação estará perto de ser atingido, mas só quando a alta dos preços der sinais evidentes de alívio poderão estar reunidas as condições para uma melhoria no sentimento dos mercados.

Mesmo que se concretizem os receios de uma recessão na economia global, se a inflação persistir em redor de máximos, dificilmente os bancos centrais vão travar os planos de aperto da política monetária, o que poderá acentuar a aversão ao risco dos investidores.

Estando já os mercados a descontar o cenário de recessão na economia global, será a dimensão e duração da potencial contração da economia que ditará se a tendência nos mercados se agrava, ou se há margem para uma recuperação. Além da inflação e recessão, os resultados das empresas (até aqui imunes à deterioração das condições económicas), também serão determinantes para a evolução das bolsas.

Nasceu em 1977, sendo jornalista desde 1999. Iniciou a carreira no Jornal de Negócios, onde esteve mais de 20 anos, ocupando várias funções, sempre com foco no online. Atualmente é jornalista independente, assina a newsletter diária de mercados Morning Call e colabora de forma regular com o ECO. Formado em Gestão no ISEG, tem especial interesse por tudo o que está relacionado com os mercados financeiros.

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