Probabilidade de perder dinheiro na bolsa? Não é assim tão elevada

Se investir diversificadamente no mercado acionista a pensar no longo prazo, consegue converter a elevada volatilidade em desempenhos mais confiáveis e generosos.

É preciso estômago para investir na bolsa. Em muitos casos, o movimento vertiginoso do preço das ações assemelha-se a uma montanha-russa. A diversificação, como a obtida através da aplicação em fundos de investimento, pode suavizar os altos e baixos. A arma mais poderosa para diluir a volatilidade é, no entanto, o tempo.

Se deseja ser um investidor ou uma investidora de longo prazo, pense em décadas e não em anos. Investir no mercado acionista durante apenas um ano é quase como jogar no casino. O PSI-20, o principal índice de ações na praça lisboeta, registou anos extraordinários (subiu mais de 70% em 1997, por exemplo), mas também enfrentou calamidades anuais (desceu mais de 50% em 2008).

As autoridades de supervisão dos mercados obrigam os intermediários financeiros a avisar os seus clientes que as rentabilidades passadas não são garantia de desempenhos futuros. Todavia, para os investidores, a análise extensa do passado é um dos melhores indicadores para formar expectativas de longo prazo.

Quanto teria perdido um investidor que tenha começado a investir na pior altura? Depende da duração do seu investimento acionista. Se o seu prazo fosse de 1 ano, então teria perdido, no máximo, 39,46%, assumindo a evolução mensal do índice de ações mundiais MSCI World em euros (e escudos antes do euro) desde 1969. Teria acontecido entre março de 2001 e março de 2002, quando a bolha tecnológica implodiu.

Saber que, se for aplicar em ações durante 1 ano, poderá perder mais de um terço da poupança não é reconfortante. Pior é descobrir que é frequente o registo de menos-valias em períodos de 12 meses: em 22% desses intervalos, o MSCI World registou perdas. Para reduzir a frequência de prejuízo, é preciso alargar o horizonte temporal.

Período do investimentoFrequência das perdas
1 Ano22%
5 Anos16%
10 Anos7%
15 Anos0%
20 Anos0%

Os números anteriores indicam que, desde 1969, nunca houve um intervalo de 15 anos em que o índice de ações mundiais tenha registado um prejuízo. Isto não quer dizer que é impossível perder dinheiro se investir na bolsa durante 15 anos. Significa apenas que é improvável numa carteira bem diversificada de ações mundiais.

Mais realismo

Há duas coisas que as simulações anteriores não incluem: a inflação e os encargos. A inflação é uma medida de perda de poder de compra: indica quanto tem de aumentar o pé-de-meia para conseguir adquirir um mesmo cabaz após um determinado período, após a subida dos preços dos bens e dos serviços. Os encargos incluem, por exemplo, as comissões do fundo de investimento.

Uma maneira de fazer uma simulação mais realista é transformar o índice MSCI World num fundo sintético. Se se deduzir um encargo de subscrição de 2,08% e uma taxa de encargos correntes de 0,12% por ano, fica-se com um fundo sintético.

Período do investimentoFrequência de retorno inferior à inflação
1 Ano38%
5 Anos39%
10 Anos19%
15 Anos5%
20 Anos2%

Quando se tem em conta os encargos, 38% dos investimentos em ações mundiais por períodos de 12 meses registaram retornos inferiores à inflação. Mais uma vez, é preciso esticar a duração da aplicação: apenas 5% dos investimentos a 15 anos renderam menos do que a inflação portuguesa; o pior registo foi uma perda real (após inflação) de 0,8% por ano.

Mais tempo

Pode suspeitar que 51 anos de bolsa não é suficiente para tirar conclusões credíveis. Eu pensei e, por isso, refiz os cálculos anteriores com o índice acionista mais longo de que tenho conhecimento: o S&P Composite, compilado retroativamente desde 1871 por Robert Shiller. É um índice de ações dos Estados Unidos da América. (Shiller foi laureado com o Nobel da Economia em 2013 pela análise empírica dos preços dos ativos.)

Período do investimentoFrequência de retorno inferior à inflação
1 Ano34%
5 Anos20%
10 Anos12%
15 Anos5%
20 Anos0%

Pense bem nisto: apesar de, no último século e meio, ter havido duas guerras mundiais, uma Grande Depressão e várias pandemias, nunca houve um intervalo de 20 anos em que a bolsa dos EUA tenha rendido menos do que o que a inflação tirou aos patrimónios.

A base de dados de Robert Shiller mostra que as ações norte-americanas tiveram um desempenho anual acima da inflação de 7,01% por ano nos 150 anos que terminaram em janeiro passado.

Outros estudiosos apontam para retornos mundiais um pouco mais baixos. Elroy Dimson, Paul Marsh e Mike Staunton, um trio de académicos londrinos, calculam que o retorno anual de 23 bolsas nacionais, incluindo a portuguesa, foi de 5,2% por ano desde 1900, segundo a versão de 2020 do Credit Suisse Global Investment Returns Yearbook

Como investir em ações

A melhor maneira de investir em ações é através da subscrição ou da aquisição de um fundo de investimento barato a planear mantê-lo durante 15 anos ou mais.

O que é um fundo barato? Embora tenha uma comissão de subscrição, o Fidelity MSCI World Index EUR P é um exemplo: a sua taxa anual de encargos correntes — a proporção do património do fundo que é dirigida para pagar as principais despesas, como a comissão de gestão — é de 0,12%; é muito inferior à taxa média dos fundos de ações mundiais comercializados em Portugal, que é de 2,15%.

O Fidelity MSCI World Index EUR P é também um exemplo de boa diversificação: a sua carteira tem ações de mais de 1.500 empresas dos mercados considerados desenvolvidos. Nenhum título absorve mais de 5% do património do fundo.

Depois de escolher o fundo, invista uma ou várias vezes, mas sempre a programar a manutenção durante 15 ou mais anos. Nem pense em investir num fundo de ações se, à partida, sabe que se assusta facilmente com os solavancos bolsistas. A pior coisa que pode fazer é abandonar um fundo de ações num momento de pânico. Invista para manter, independentemente dos altos e, especialmente, dos baixos.

Esperar 15 anos parece-lhe muito tempo? Não se preocupe: em caso de emergência, consegue liquidar rapidamente esse investimento. Aumenta é a probabilidade de resgatar com menos-valias, algo que ninguém quer para a sua fortuna.

Editor do boletim tlim, uma publicação eletrónica de finanças pessoais. Ex-jornalista. Colaborou durante 20 anos com mais de uma dúzia de publicações, do Expresso à Seleções do Reader's Digest. Não gosta de Economia. Está a escrever o seu terceiro livro sobre investimentos. Eterno aprendiz.

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