Patti Smith – Free Money [1975]
Neste tema já com meio século, num ritmo progressivamente frenético, Patti Smith conta a história de uma mãe que se imagina a ganhar a lotaria. Para quê? Para poder dar tudo o que deseja à filha. Pela letra, não parece que sejam pedidos concretos de uma criança que tudo quer ou de uma adolescente mimada; serão mais projeções de uma mulher adulta sobre o que seria bom ter na vida. As pérolas que são apanhadas do fundo mar. Um avião a jato que as levasse à estratosfera para visitarem os planetas; e que depois as trouxesse de volta para mergulharem nos desertos das arábias e nas montanhas cheias de neve.
Sonhar com a riqueza, afinal, não custa nada. Pelo menos para quem sonha. A protagonista da canção até sabe que esse dinheiro fácil, se lhe viesse parar às mãos, pertencia antes a outras pessoas. Nos jogos de azar, quando alguém tem sorte, é porque muitos perderam. Por isso, esta mãe tem plena consciência de que as notas de dólar que espalharia pela cama seriam, de certo modo, “roubadas”. “Mas não me sinto mal”, confessa. “Pego nesse dinheiro e compro-te coisas que nunca tiveste”. O sonho do dinheiro fácil aquece-lhe o coração. “Oh, querida, significaria tanto para mim / comprar todas as coisas de que tu precisas”. E é nesse entorpecimento que ela vive. Todas as noites, antes de se deitar, lá está ela a pensar no tal bilhete premiado. O bilhete que, num passe de mágica, sem esforço, resolveria todos os seus problemas financeiros.
Ora, se atualizarmos a referência à lotaria para o euromilhões, para as raspadinhas, para as apostas online, não podia este tema ter acabado de ser escrito agora mesmo?
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The Steve Miller Band – Take The Money and Run [1976]
Já conhecem Billy Joe e Bobbie Sue? São jovens, são um casal apaixonado, são rebeldes, e são os protagonistas deste tema. Na cena inicial, ei-los por casa, sem nada melhor para fazer do que apanhar uma moca e ver televisão. Pedrados, decidem ir até El Paso e será na velha cidade que se metem num grande sarilho. Ao assaltarem uma casa, Billy acaba por alvejar o dono, matando-o. Nesse momento, fica explicado o título da canção: “Pega no dinheiro e foge”, diz ele para ela. E ambos acabam por escapar, cada um para seu lado.
No segundo verso, surge a figura de um detetive do Texas com um elevado sentido de dever. Para Billy Mack não restam dúvidas sobre os autores daquele crime. Ciente de que o seu salário é pago com os impostos dos contribuintes, o detetive está apostado em não deixar que o casalinho escape à justiça.
Se fosse um filme, não contaríamos o final. Mas como é uma música, que até é capaz de ser escutada repetidamente, podemos avançar que, desta vez, o crime compensou. Billy e Bobbie reencontraram-se no dia seguinte, diz-nos o vocalista. “Sabem, eles têm o dinheiro e conseguiram escapar. Rumaram para sul e continuam foragidos até hoje.” Perante este desfecho, a canção sobre dinheiro fácil (e criminoso) transforma-se também numa canção de amor. Se por um segundo esquecermos os nossos princípios, a decência, a justiça e tudo o mais que move o detetive, até podemos ficar a torcer pelo casal, juntando a nossa voz ao refrão: “Vá lá, por amor de Deus, peguem no dinheiro e fujam”!
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Hall and Oates – Rich Girl [1977]
Um ano depois da canção que soava como um road movie, a dupla composta por Daryl Hall e John Oates apostou numa fórmula menos perigosa ou sonhadora de ganhar dinheiro: escrever um estrondoso sucesso musical. O tema Rich Girl fala-nos de uma rapariga mimada que vive sob a cúpula dos pais endinheirados. Faça o que fizer, o dinheiro do papá vai sempre safá-la. E como ela o sabe… não se importa lá muito de ultrapassar quaisquer limites. Sem explicitar em quê, a letra refere até que ela já foi longe demais. Mas, como é rica…
Para o narrador, porém, a fortuna não é algo com que ela possa contar a vida inteira. Se continuar assim, tão protegida de tudo, sem ter de responder pelos seus erros, nunca virá a tornar-se numa pessoa forte. Está demasiado habituada a viver no quentinho, abrigada da chuva, sem preocupações de qualquer espécie. E isso também faz dela alguém sem empatia. “É tão fácil magoar os outros quando não se sente dor.” Por isso, sim, ela vai continuar a ir longe demais, desprezando o efeito que as suas ações provocam nos outros. À custa disso, a rapariga rica talvez até não venha a conhecer o amor, por preferir viver numa busca contínua de emoções fortes e adrenalina.
Agora que tirámos o retrato a esta menina do papá, eis que importa referir que a canção foi escrita a pensar… num homem. Ao que parece, uma ex-namorada de Daryl tinha um namorado que era filho de um magnata ligado a uma cadeia de fast food. Hum. Seria de pensar numa nova versão desta canção, desta vez com um “rapaz riquinho” como protagonista?
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