Bancos Centrais: Correr atrás do prejuízo

Terão os Bancos Centrais esperado demasiado tempo para inverter as suas políticas de apoio à economia? Será tarde para emendarem a mão?

O ano de 2022 tem sido marcado por uma palavra: Inflação, que consiste na subida generalizada dos preços dos bens e serviços e que não atingia a dimensão que estamos a presenciar há muitos anos. A inflação, per si, pode até ser algo positivo desde que acompanhada pela subida do poder de compra da população.

A questão é que a situação que estamos a atravessar caracteriza-se por uma subida de inflação muito superior ao aumento salarial da população, o que de uma forma simples significa uma redução do poder de compra.

Leia ainda: Inflação e estagflação: causas e consequências

O papel dos Bancos Centrais

Cada país ou bloco de países tem uma entidade monetária (Banco Central) que tem várias missões fundamentais para a economia. A tarefa mais importante dos Bancos Centrais consiste em garantir a estabilidade dos preços, por outras palavras, o mandato das entidades monetárias tem como objetivo impedir que passemos por períodos exagerados, seja inflação (com a correspondente perda de poder de compra da população), ou deflação (que no limite significa que a oferta é superior à procura e, como consequência, poderá originar uma depressão ou recessão).

Paralelamente, alguns bancos centrais ainda têm outras “missões” também elas importantes e com relevância económica, como por exemplo garantir ou contribuir para o pleno emprego (taxa de desemprego reduzida).

Importância dos Bancos Centrais

No seculo XXI temos vindo a atravessar algumas crises que ficaram na história, como o subprime (2008), que se alastrou para todo o mundo provocando uma recessão económica, a crise de dívida periférica (mais focada no continente europeu) e recentemente, o covid seguido do conflito entre Rússia e Ucrânia.

Na crise de 2008, por exemplo, o papel dos Bancos Centrais foi determinante para garantir a estabilidade económica e a confiança dos agentes económicos. Com resposta pronta face às necessidades da economia, a FED ( Reserva Federal Americana) reduziu as taxas de juro e, em simultâneo garantiu a liquidez dos mercados financeiros, através dos Quantative easings, que se caracterizam pela compra de dívida por parte da Reserva Federal Americana a empresas e Estados, garantindo assim que estes tinham capacidade para poderem continuar a desenvolver as suas atividades.

Como nota importante, nos EUA as empresas, por norma, financiam-se nos mercados de capitais e não tanto junto de instituições financeiras.

Leia ainda: O (importante) papel dos Bancos Centrais nas nossas poupanças

Bancos Centrais: Influência económica/Pressão política

Com o passar dos anos os Bancos Centrais ganharam cada vez maior dimensão mediática, por diferentes motivos. O primeiro e talvez o mais importante, tem a ver com a credibilidade que lhes é reconhecida. Os Bancos Centrais são independentes, agem de acordo com os seus mandatos e têm como principal objetivo garantir que a economia não arrefece ou sobreaquece.

Paralelamente e como referi anteriormente, a economia global tem atravessado diversas crises e oscilações. Os muitos erros cometidos na gestão dos recursos dos diferentes países, fazem com que as populações demonstrem a sua insatisfação para com aqueles que os representam.

O surgimento de grupos populistas um pouco por todos os países civilizados é demonstrativo da forma como os cidadãos estão desgastados. Este facto, acabou por reforçar a posição dos Bancos Centrais, por terem sido fundamentais na manutenção da estabilidade e confiança em situações de maior stress (2008, dívida periférica e covid).

Influência Económica

Num mundo caracterizado por economias, empresas e particulares cada vez mais alavancados, em que cada vez se valoriza menos a disciplina e rigor na gestão dos recursos, os Bancos Centrais têm sido um forte auxílio em termos económicos. Ao longo deste século têm sido inúmeras as vezes que os Bancos Centrais atuam na economia, garantindo a estabilidade, mas não resolvendo os problemas.

Através dos seus mandatos, têm vindo (sobretudo) a reduzir taxas de juro e a comprar dívida de países e empresas, aliviando os custos de financiamento da economia, através de uma procura artificial de ativos financeiros e da redução dos encargos associados aos empréstimos obtidos.

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Pressão política e económica vs mandato

Sacos de serapilheira com símbolos de euro e dólar estampados e ao seu lado uma lupa

O covid veio trazer problemas adicionais aos Bancos Centrais. Numa primeira fase e de forma a garantir liquidez e estabilidade no mercado de capitais e consequentemente na economia real, os Bancos Centrais (mais uma vez) socorreram a economia através de uma intervenção rápida, ágil e robusta. Reduziram as taxas praticamente para zero e implementaram programas de compra de ativos de grande dimensão.

Estas medidas tiveram o efeito pretendido, que foi o de “criar uma ponte” que permitisse à economia sobreviver durante a fase de confinamentos, sem entrar em recessão. Como exemplo, o ano de 2020 foi aquele em que houve menos defaults (empresas em falência) nos últimos 20 anos!!

Em termos económicos, existiram fatores que contribuíram para que a economia se projetasse no pós-covid. As populações tiveram de ficar confinadas, a taxa de poupança aumentou, fazendo com que a reabertura da economia trouxesse uma procura superior de bens, numa altura em que a oferta ainda era reduzida devido à incerteza que estávamos a atravessar, sendo este um efeito exponenciado pelas muitas disrupções nas cadeias de abastecimento.

Outro ponto importante é que muita liquidez que foi disponibilizada acabou por se deslocar para algumas áreas específicas, como os mercados financeiros e imobiliário, criando movimentos bruscos de valorizações, sem uma justificação económica que os suporte.

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Bancos Centrais: Credibilidade em causa?

As reuniões mensais dos Bancos Centrais são cada vez mais acompanhadas com especial atenção e pormenor, porque têm uma influência cada vez maior no rumo económico das diferentes economias mundiais.

A credibilidade e independência que detêm são o reflexo da forma como sempre analisaram o contexto e não se deixaram influenciar pelo “ruído” e pressão à sua volta. O objetivo dos Bancos Centrais deverá ser sempre orientar a Main Street e não gerir Wall Street! As suas análises e projeções deverão ser cirúrgicas, percetíveis e lúcidas, de forma a garantir o estatuto que lhes é reconhecido.

Contudo, até os Bancos Centrais nos últimos meses se colocaram numa posição de fragilidade. As suas projeções foram artificiais. Ignoraram os sinais que surgiam com frequência e que indicavam que a inflação estava a escalar. Apesar de perceberem que começavam a existir excessos (mercados financeiros e imobiliário), preferiram ignorá-los.

Demoraram a normalizar a política monetária, numa altura em que fazia sentido uma inversão das medidas de emergência que tiveram de concretizar, de forma a inclusivamente ficarem novamente com “armas” para poder ajudar a economia caso fosse necessário. Pelo contrário, os Bancos Centrais sempre passaram uma mensagem de suporte, numa fase em que a economia já estava a sobreaquecer.

Em termos económicos, o reflexo desta má interpretação é que a inflação subiu de uma forma descontrolada, fazendo com que todos estejamos a perder poder de compra. As consequências são duas:

A primeira é que agora os Bancos Centrais têm de correr atrás do prejuízo, com uma subida de taxas muito mais agressiva para controlar a inflação e com as consequências que esta medida irá trazer para a economia real (aumento abrupto dos custos de financiamento de Estados e Empresas).

A segunda questão, tem a ver com a credibilidade destas instituições que começa a ser colocada em causa. E quando se começa a colocar em causa a independência, a confiança em torno do sistema reduz-se.

Normalmente é nestes cenários que acontecem as crises… Esperemos que as autoridades monetárias ainda vão a tempo de “emendar a mão” e de recuperar a confiança de todos os agentes económicos.

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Apaixonado pelo desporto e economia, foi jogador profissional de Futebol, tendo atuado em clubes como S.L. Benfica, Estoril, entre outros. Conciliou a carreira desportiva com a académica, terminando a licenciatura em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA SBE). Continua ligado às suas duas paixões profissionais, desempenhando a função de Financial Advisor e colaborando como analista desportivo na CNN Portugal. Foi comentador residente no programa Jogo Económico do JE e Presidente do Conselho Fiscal da Federação Portuguesa de Footgolf. (FPFG). Participa com regularidade em eventos sobre Literacia Financeira.

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