Inflação e estagflação: causas e consequências

Sabe o que é a estagflação e o que a origina? Perceba quais as causas e consequências da estagflação e da inflação.

Nos últimos tempos, os termos inflação e estagflação têm estado presentes com muita regularidade na comunicação social. É importante percebermos o que são e quais as causas.

Em que consiste a inflação?

Inflação consiste no aumento generalizado dos preços dos bens e serviços. Apesar de muitos de nós não termos noções económicas, percebemos perfeitamente este conceito no dia a dia quando vamos ao supermercado e verificamos que a fatura das nossas compras aumentou, mesmo não tendo comprado nada fora do normal. De uma forma simples, este é o conceito de inflação.

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Contexto atual: Causas da inflação

1. Covid

São várias as causas que podem gerar inflação numa determinada economia. No caso atual, o surgimento da Covid-19 teve um papel importante no aumento generalizado dos preços dos bens e serviços.

Como sabemos, o mundo hoje é global, o que significa que estamos todos interligados, apesar de vivermos em países ou regiões diferentes. O facto de termos tido vários confinamentos em diferentes zonas geográficas acabou por fazer com que existissem disrupções nas diferentes cadeias de abastecimento de matérias-primas e bens.

Por outro lado, com os confinamentos, as pessoas consumiram menos e pouparam mais, o que significa que em alguns casos até aumentaram o poder de compra. Do lado das empresas, a incerteza que a pandemia trouxe, fez com que muitas decisões de investimento tivessem sido adiadas em função do receio do desconhecido.

Em economia, a relação entre a oferta e a procura faz com que os preços oscilem. Como as empresas se protegeram em função da incerteza que estavam a atravessar, e com a abertura progressiva da economia, com consumidores com mais poder de compra, a procura superou a oferta, fazendo com que os preços (de uma forma generalizada) subissem. Estes dois fenómenos, disrupções mais aumento da procura, criaram “pressão” nos preços dos bens e serviços.

2. Bancos Centrais e Governos

Não foram só as empresas que reagiram à incerteza relativamente ao futuro. Os Bancos Centrais e os governos, percebendo que a economia podia atravessar uma grave recessão com a onda generalizada de confinamentos que se verificou, tomaram medidas com o objetivo de dinamizar a economia.

Assim, assistimos à redução das taxas de juro para zero nos principais blocos mundiais (EUA, Europa, Reino Unido) e, em simultâneo, ao aumento de gastos por parte dos diferentes Estados, de forma a permitir que as empresas continuassem ativas e consequentemente evitar o aumento dos despedimentos/desemprego.

Em simultâneo e de forma a gerar estabilidade em muitos países, os Bancos Centrais também compraram muita dívida de Estados e empresas, de forma a garantirem que estes se conseguiriam financiar, independentemente das dificuldades que estivessem a atravessar. A realidade é que a economia foi “inundada” de liquidez, que acabou por ser direcionada para o mercado imobiliário e mercados financeiros.

O objetivo de fazer uma ponte entre o Covid e o pós-pandemia foi alcançado, com as economias a conseguirem efetuar a transição de uma forma pacífica. Contudo, temos de destacar 3 efeitos importantes:

  1. Em primeiro lugar, os Estados tiveram de se endividar para poder “apoiar” as diferentes economias numa fase complicada.
  2. Como segundo ponto, muitos desses recursos foram gastos de uma forma imediata e sem terem gerado riqueza, ou seja, não foram recursos aplicados de forma a terem sequência. De uma forma mais simples, não foram sementes que foram lançadas para poderem permitir o crescimento de flores ou árvores, pelo contrário, foram pensos rápidos que permitiram tapar as feridas.
  3. O terceiro efeito tem a ver com a dificuldade das entidades oficiais, em especial os Bancos Centrais, em avaliarem a evolução da economia no pós-pandemia. O adiamento constante da normalização da política monetária (subida de taxas de juro) está a ter um reflexo importante no crescimento da inflação.

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3. Invasão da Rússia à Ucrânia

Para tornar este puzzle ainda mais complexo, a invasão da Rússia à Ucrânia veio piorar o cenário de inflação que já estávamos a atravessar. A guerra veio gerar ainda mais condicionamento a nível global. As matérias-primas aumentaram e em especial o gás e petróleo, por estarem em causa dois países que têm uma grande relevância nestes sectores em termos globais.

Consequências da inflação

A inflação não tem de ser vista como um problema. Se o aumento de preços resultasse do aumento dos salários da população, estaríamos na presença de uma inflação positiva, uma vez que tal significaria que todos passaríamos a ganhar mais e consequentemente que todos iríamos gastar mais. Neste contexto, a procura subia e criava pressão nos preços dos bens e serviços.

Naturalmente que todo este processo seria acompanhado por crescimento económico, o que seria um sinal de vitalidade!

Se, por outro lado, a inflação for elevada e não for acompanhada por um aumento generalizado dos salários da população, a consequência será perda de poder de compra. De uma forma simples, com o mesmo compra-se menos, consequentemente, produz-se menos o que origina menos emprego, gerando um ciclo económico negativo.

Como se combate a inflação?

As entidades monetárias são responsáveis pela análise e acompanhamento da inflação. As políticas monetárias têm por base este fator. Assim, quando a inflação está baixa ou existe risco de deflação (contrário de inflação), por norma estimula-se a economia, com taxas de juro baixas, passando uma mensagem de investimento económico.

Pelo contrário, quando a inflação começa a ficar descontrolada, os Bancos Centrais tentam “arrefecer” a economia, através do aumento das taxas de juro, que faz com que os custos de financiamento aumentem, passando uma mensagem à economia de maior poupança e menor investimento/consumo.

Leia ainda: Que impacto tem o aumento da inflação no nosso dia a dia?

Estagflação ou a tempestade perfeita

Estagflação é um termo utilizado e que se caracteriza pela junção de três fatores: Inflação alta, crescimento baixo ou reduzido e desemprego alto.

Com os recentes acontecimentos já explorados neste artigo, começou-se a abordar a possibilidade de entrarmos num período de estagflação. Para podermos tirar conclusões devemos analisar cada uma das variáveis em separado:

  1. A inflação está a ter um comportamento que não assistíamos há muitas décadas. Como exemplo, nos EUA atingiu 7,87% e na Europa apresenta uma média de 7,5%.
  2. O crescimento económico tem vindo a apresentar uma tendência positiva, uma vez que com o retorno da normalidade, assistimos a um maior dinamismo caracterizado pelo aumento do consumo. A questão que se começa a colocar é qual será o desempenho económico futuro e quais as revisões do crescimento tendo em conta a recente invasão da Rússia à Ucrânia. Outro facto a realçar é o perigo da inflação se tornar consistente, o que poderá “obrigar” os Bancos Centrais a subir as taxas de juro, que por norma tem consequências negativas no crescimento económico.

O último fator que em conjunto com os anteriores caracteriza a estagflação é o aumento do desemprego. No contexto atual, verificamos um mercado de trabalho robusto, sendo o indicador que mais se afasta do cenário de estagflação. Contudo, devemos constatar que o comportamento do mercado de trabalho acaba por ser o reflexo da fase económica que estamos a atravessar. Isto significa que caso o crescimento económico abrande significativamente e a inflação continue elevada, o mercado de trabalho também deverá ser impactado e o cenário de estagflação poderá começar a ser mais real…

Apaixonado pelo desporto e economia, foi jogador profissional de Futebol, tendo atuado em clubes como S.L. Benfica, Estoril, entre outros. Conciliou a carreira desportiva com a académica, terminando a licenciatura em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA SBE). Continua ligado às suas duas paixões profissionais, desempenhando a função de Financial Advisor e colaborando como analista desportivo na CNN Portugal. Foi comentador residente no programa Jogo Económico do JE e Presidente do Conselho Fiscal da Federação Portuguesa de Footgolf. (FPFG). Participa com regularidade em eventos sobre Literacia Financeira.

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