Sheena Easton’s – Morning Train (Nine To Five) [1980]
Estávamos no início da década de 1980 quando pediram a Sheena Easton, então com 20 anos, que interpretasse uma canção sobre uma mulher que passa os dias à espera do marido. A jovem, que até já tinha estado casada e se divorciara após oito meses dessa união, lá se predispôs a fazer o teledisco em que pedala alegremente até à estação de caminhos de ferro, desejosa de encontrar o seu homem, maquinista de comboios a vapor. Enquanto ele conduz, a protagonista encosta-se a ele, passeia pelas carruagens, pega num pano e puxa o brilho à velha locomotiva a carvão, mexe aleatoriamente numas alavancas que mudam a direção dos carris… Enfim, entretém-se com deambulações superficiais ou tarefas expectáveis numa mulher dona de casa. E não é que o tema se tornaria um tremendo êxito?
A canção, na verdade, ainda fica no ouvido. Mas a letra e o teledisco surgem francamente datados. Não é só o facto de o maquinista aproveitar os seus intervalos de descanso para ler um livro (!); é toda a encenação de uma mulher que busca qualquer coisa para se entreter, já que o seu dia, sem o marido ao lado, passa como um longo bocejo. Nessas horas paradas, ela até sente pena dele. Esforça-se tanto, coitado, das 9 da manhã às 5 da tarde, naquele comboio matinal…
Trabalha o dia inteiro para ganhar o salário
Para que nos possamos divertir a noite inteira
Por isso, quando ele chegar a casa depois de largar o trabalho, ela estará à espera dele, como uma boa esposa. Como canta a protagonista, a vida dela só ganha sentido quando estão juntos. Ele leva-a ao cinema, a comer fora, a dançar agarradinhos… À noitinha, no tempo que é só deles, fazem amor e levantam voo. E assim era a vida de um casal feliz, num teledisco dos anos 1980.
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Eurythmics, featuring Aretha Franklin – Sisters Are Doin’ For Themselves [1985]
Mais do que uma resposta a canções como Morning Train, o tema interpretado por Aretha Franklin e Annie Lennox soou como um grito de revolta perante o papel que a sociedade teimava em atribuir às mulheres. O videoclip mostra duas mulheres impactantes, em cima de um palco, a atuarem para uma plateia feminina. A iluminação realça o vestido vermelho de Aretha e o fato preto e branco de Annie; ambas têm cabelo curto, como se também isso servisse para reforçar o peso das imagens documentais a passarem no ecrã. São cenas de mulheres operárias, de mulheres em marchas pelo direito de voto, de mulheres inspiradoras que se intrometeram em atividades que costumavam ser exclusivas dos homens.
Nesta “canção para celebrar a libertação consciente do estado feminino”, um hino de emancipação para ser cantado por mães, filhas e netas, os versos também assinalavam os tempos de mudança. Não se tratava de um plano maquiavélico contra os homens; as mulheres continuavam a poder amá-los, tal como antes. Mas era preciso pôr fim à ideia do “sexo inferior” e desmistificar a expressão “por detrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher”. Elas estavam a sair da cozinha para assumirem, de igual modo, o papel de protagonistas. E, como vincava o refrão, eram elas que implementavam a mudança, juntas, umas pelas outras. Enfim de pé, bem erguidas, as mulheres reivindicavam o seu próprio espaço.
Também temos médicas, advogadas, políticas
Olhem todos em redor
Conseguem ver? Conseguem ver? Conseguem ver?
Há uma mulher mesmo ao vosso lado.
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Yung Baby Tate, com Flo Milli – I Am [2020]
Que acontece se saltarmos para a nossa década? Na música (como noutras áreas), não faltam mulheres fortes, poderosas, bem-sucedidas, ícones de um caminho que foi sendo trilhado, com muito custo, e que ainda terá mais etapas pela frente. Enfim, peguemos num exemplo, quase ao calhas, como o tema “Eu sou”, que junta Yung Baby Tate e Flo Milli. Afinal, elas são o quê? Os milhões de visualizações do vídeo já dão uma pista: são ricas. São mulheres independentes que não precisam de ninguém. Ganham o seu próprio dinheiro e têm-no aos montes; por isso, podem gastá-lo onde quiserem. Tanto pode ser num carro descapotável como a cuidar da mãe da família. E sim, tal como dizem no refrão, vão mesmo comprar aquela tal mala. Acima de tudo, não estão para aturar as merdas do seu homem. Não precisam de um “paizinho” que lhes imponha as suas regras; elas só querem um homem.
As mulheres desta canção, deste vídeo, deste milénio, são donas de si mesmo.
Faço o que quero fazer
E sou quem eu quero ser
Porque eu sou eu
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