Imagem de uma jovem mulher num carro de luxo num cenário de férias

Ao início era tudo brilhante, como se tivéssemos encontrado, por um golpe de tremenda sorte, uma lâmpada mágica. Bastava esfregar e… estabilidade financeira quase instantânea. E se esfregássemos muito? Talvez até a riqueza que nunca imagináramos possível. Sonho? Não, uma realidade idealizada e construída por Leonardo Cositorto. Bastava ver, nas redes sociais, como os membros da Generación Zoe, de repente, tinham acesso a carros luxuosos, a viagens paradisíacas, a um estilo de vida distante das antigas preocupações quotidianas com contas para pagar ao fim do mês.

A base desta súbita abundância assentava numa plataforma de pacotes educativos para a formação de líderes em coaching ontológico. Uma ferramenta para o futuro, sem dúvida, mas com hipótese de rentabilização imediata: quem aderisse ao curso e se tornasse membro da organização, passaria a receber uma comissão por cada nova pessoa que trouxesse para o universo Generación Zoe. Paralelamente, também estava assegurado que um investimento de 1600 dólares daria direito a, no mínimo, duas viagens turísticas durante o espaço de dois anos. E, finalmente, adjudicar as poupanças num plano de investimento gerido pela Zoe, fosse lá em que moeda fosse, traria um rendimento mínimo de 7,5 por cento. Com estes pilares a sustentar o negócio, acham que esta Geração Zoe foi um sucesso ou um fracasso?

Uma oportunidade chamada covid

A resposta está no documentário “O Vendedor de Ilusões: o Caso Geração Zoe” (2024). A partir da pequena Villa Maria, na província argentina de Córdoba, nasceria e prosperaria uma das plataformas financeiras mais excêntricas e bizarras da América Latina. No discurso do líder Leonardo Cositorto sobressaía a promessa de que a adesão à sua organização representava a saída do paradigma da escravatura para a entrada no paradigma da abundância. Mas, além desta promessa que apelava às pessoas necessitadas de dinheiro, havia também um lado aspiracional capaz de cativar todos os que sentissem estar a faltar-lhes algo na vida, mesmo que tivessem família, filhos, emprego.Nas sessões de apresentação, Cositorto surgia suficientemente sensato e empático para ir captando a atenção dos participantes. Mas seria a pandemia a criar a oportunidade de espalhar a mensagem da Geração Zoe. Não faltavam então pessoas aborrecidas, ou pessoas que queriam trabalhar, ou pessoas que queriam uma alternativa ao que faziam antes. De repente, as sessões online da organização tinham centenas de participantes.

O Vendedor de Ilusões

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O evangelismo de comprar baixo e vender caro

E eis como uma pequena onda se viria a transformar num tsunami. Terminados os confinamentos, a Zoe multiplicava-se em palestras em vários países sul-americanos. Na plateia, ouvia-se Leonardo e outros líderes falarem, numa mistura de evangelismo e linguagem de negócios, de como os sonhos se tinham tornado realizáveis. Para o confirmar, subia ao palco gente que contava como a sua vida tinha mudado desde a entrada na Zoe. Gente que de um ordenado mínimo tinha passado a ganhar milhares de dólares por mês.

A aplicação disponível para os membros da Zoe servia para corroborar esse suposto enriquecimento. Os números iam mostrando como o dinheiro investido estava a crescer. Se assim era, como não ir à procura de mais gente conhecida que quisesse participar naquela vaga enorme e apaixonante? E, claro está, muitas pessoas lá foram depositar todas as suas economias nas mãos da Zoe. Tinham-lhes dito que ali renderiam mais. Tinham-lhes assegurado que havia uma equipa de topo a cuidar dos investimentos. Profissionais especializados no mercado financeiro; autênticos peritos na arte de comprar baixo e vender caro, a curto prazo, para a obtenção de lucros chorudos.

Uma sociedade de gente Zoe

De repente, a Zoe era um império. 64 escritórios espalhados pelo mundo, 58 mil membros, lucros na ordem dos milhões. Havia lojas Zoe Burger, Zoe Car, Zoe Pet. Centros de estética, infantários, ginásios. A Zoe até tinha a sua própria cripto moeda. E as suas próprias minas de ouro, que seriam garantia de um Zoe Bank. Havia também um Zoe Paradise em planta, onde se construiriam lotes de moradias… Era todo um ecossistema de “pessoas Zoe”. E tudo isto sob o abono de um ex-juiz, que dava a cara para assegurar a plena regularidade de todos os produtos da Zoe. Como não acreditar naquele conto de fadas criado por Leonardo Cositorto?

Finalmente, seria a criação de uma equipa de futebol a chamar a atenção de um jornalista local. A investigação levaria à conclusão de que a Geração Zoe (que também chegou a deter clubes de futebol profissional em Espanha e na Tailândia) era uma empresa que não produzia nada. A sua única função era acumular dinheiro, devolver algum e ficar com o resto. Por outras palavras: era mais um esquema de pirâmide.

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Somos todos um alvo potencial

A segunda parte do documentário revela como tudo foi desmascarado. O paraíso material prometido era, de facto, uma ilusão. Os números na aplicação eram apenas números. A empresa nem sequer estava registada na Comissão Nacional de Valores Nacionais da Argentina.

Os testemunhos dos lesados acabam, por isso, por forjar um conto moral. Uma advertência para os perigos de acreditarmos nas promessas fáceis de outrem. Muitos dos que caíram confessam que foram atrás da ideia de ganharem muito dinheiro de forma rápida. Como poderiam passar ao lado de um investimento que se dizia garantido e capaz de gerar mais de 100 por centro de lucro em apenas 4 meses?

Dentro de todos nós, por mais conscientes que sejamos, reside a hipótese de sermos enganados. E “O Vendedor de Ilusões” mostra-nos de forma quase cruel como há organizações e líderes carismáticos apostados em explorar as nossas fraquezas.

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