Nisto de caminhos, há provérbios que nos obrigam logo a olhar em frente: «Adiante, que atrás vem gente.» Por outras palavras, é seguir, sem hesitações, pois se não nos pusermos ao caminho, outros o farão no nosso lugar. Mas, perante esta aparente pressão, saberemos qual o trajeto que estamos a tomar? «Indo por caminho reto, de longe se faz perto», avisa um ditado. «Não esperes dos outros o que podes fazer sozinho», sentencia outro. «Faz o que deves fazer, suceda que suceder», determina mais um. Não estaremos meio perdidos? Bem, «Para quem está perdido, todo o mato é caminho».
Será a pressa boa conselheira?
Seja no mato ou numa pista alcatroada, «o mais difícil é o primeiro passo». O autor do Dicionário de Provérbios, Locuções e Ditos Curiosos, das Seleções do Reader’s Digest, escreve que este ditado pode aplicar-se tanto ao ato de caminhar, como à prática de ações más ou criminosas. Como não pretendemos desencaminhar ninguém, fiquemos pela primeira ideia: «Começar é sempre a parte mais difícil, em todos os empreendimentos.»
Já sabemos o que queremos? Vamos a isso, então, levar a coisa «De fio a pavio», ou seja, do princípio ao fim. Nisto de «levar água ao seu moinho», até podemos escrever num papel alguns provérbios que nos incentivem. Há muitos que cabem bem num livro de autoajuda. «Querer é poder», afirma-se. «Quem procura sempre encontra», garante-se. Tudo um bocadinho taxativo? Demasiado idílico? Há ditados um pouco extremos, que até podem assustar ou desmotivar, como os «Ou sim ou sopas!», «Ou tudo ou nada», «Ou vai ou racha!». Calma, nem tudo se resolve de uma vez, num segundo. Nem tudo é «dito e feito», que Paulo Perestrello da Câmara, em 1848, na sua Coleção de Provérbios, Adágios, Rifãos, Anexins, Sentenças Morais e Idiotismos da Lingoa Portugueza, traduzia por “sem demora, sem dilação, num ápice”.
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O nosso nariz, a nossa vida
É verdade que alguns ditados querem que nos apressemos. «Fia-te na virgem e não corras, verás o trambolhão que apanhas» é um desses casos; «Resolve devagar, executa depressa», será outro. Mas talvez o mais importante não seja tanto a rapidez de execução, mas sim a determinação com que nos entregamos ao caminho. Porque, convenhamos, teremos sempre de enfrentar dificuldades. «Se queres colher flores, não temas os espinhos», avisa o povo. Portanto, «Se não há vento, rema».
Com esse espírito de luta, os horizontes expandem-se. «Serás o que quiseres, se ousares o que puderes», é um rifão bonito que parece conter, de facto, alguma verdade. Para percorrer um dado caminho, será preciso ter confiança nas nossas capacidades. Afinal, «Quem é senhor do seu nariz, pode metê-lo onde quiser».
Decisões que afastam perigos
Quem era muito senhor do seu nariz, e por isso o metia em quase todos os temas possíveis, era o nosso bem-conhecido conselheiro Rodrigues de Bastos. Por isso, nisto de resoluções e de determinação para as levar a bom porto, seria criminoso não folhearmos os volumes da sua Coleção de Pensamentos, Máximas e Provérbios, editados em 1847. Antes de mais, encontramos o incentivo para a ação. «Há poucas resoluções bem-intencionadas, que não valham mais que uma irresolução», diz-se. Além disso, «As resoluções afastam os perigos». Mas atenção ao momento da tomada de decisão: «As resoluções violentas causam violentos arrependimentos.»
O conselheiro tinha ideias bem assentes sobre o que ajudava à boa decisão. Mais uma vez, talvez estas expressões pudessem estar num livro para gestores?
«Nada há tão decisivo, como a ignorância.»
«A instrução produz duas grandes vantagens: decidir menos, e decidir melhor.»
«Poucos homens raciocinam, e todos querem decidir.»
«Pequenos interesses decidem, algumas vezes, dos maiores negócios.»
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Com determinação, chegamos lá
Depois de tomarmos a nossa resolução, será igualmente importante a forma como a tentaremos alcançar. E, mais uma vez, Rodrigues de Bastos tem algo a dizer sobre o assunto. Ouçamo-lo como num discurso.
Meus amigos, minhas amigas, «por mais apreciável que seja a virtude, ela perde muito do seu valor, quando não é perseverante». Posso até afirmar, pelo que vou vendo neste mundo, que «a maior parte dos homens são mais capazes de um grande esforço, que de uma longa perseverança; e daí vem o verem frequentemente seus projetos malogrados». Acreditem, pois, quando lhes digo que «o sucesso nasce, as mais das vezes, da perseverança». Perdoem-me mesmo a insistência nesta ideia: «Para se ser bem-sucedido em qualquer empresa, não é sempre a habilidade que falta, ainda menos o desejo; é a perseverança».
Eis-nos chegados ao final, que neste caso equivale a um início. Um recomeço. «Com a paciência e a perseverança, tudo se alcança». Ou, por outras palavras, mas ainda e sempre do conselheiro, «Uma discreta perseverança tudo alcança».
E assim, com determinação, vamos lá ao primeiro passo do nosso caminho.
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