Belle Gibson tinha uma história íntima e trágica para contar às pessoas: fora-lhe diagnosticado um cancro no cérebro. A situação era terminal. Na melhor das hipóteses, restavam-lhe uns quatro meses de vida. Perante a crueldade do prognóstico, a jovem australiana de 21 anos acabaria por tomar a decisão de largar os tratamentos hospitalares convencionais para adotar uma alimentação e estilo de vida alternativos. E, nesse passo de autoterapia, os quatro meses de vida… estenderam-se. Um milagre? Sim e não, pois Belle, a sobrevivente, tratou logo de criar uma aplicação para vender os produtos que a tinham curado; ia-se ao Instagram dela e via-se comida incrível, exposta em imagens coloridas e atrativas. Não tardou a que milhares de seguidores a vissem como uma heroína. Alguém que vencera a doença através dos seus próprios métodos.
O irresistível magnetismo dos contos de fadas
A minissérie «The Search for Instagram’s Worst Con Artist» (2023) nem no título esconde ao que vem. Os três episódios não querem fazer suspense sobre a veracidade da história ou as intenções da protagonista; mais do que um conto de fadas, este é um conto moral que procura mostrar como se constrói, até com certa facilidade, uma fraude nas redes sociais. O castelo de cartas de Belle começou a ruir quando um jornalista, cuja mulher tinha cancro, desconfiou daquela cura milagrosa. Pôs-se em campo e fez o que os jornalistas fazem: investigou.
Belle Gibson, na verdade, não podia ser mais inspiradora. Tinha moldado em seu redor uma imagem de filantropa, com parte das suas receitas a serem aplicadas em projetos beneméritos, como construir escolas na Serra Leoa. De repente, a doente que se estava a curar com métodos naturais era também uma empreendedora com grande exposição nos media tradicionais; à app famosa e com milhares de utilizadores, seguiu-se um contrato milionário para um livro e uma parceria vantajosa com uma empresa de eletrónica de consumo.

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Uma rapariga brilhante e… patológica
O fenómeno de popularidade estendeu-se aos Estados Unidos e ao Reino Unido, mas ainda assim quase nada se sabia sobre a vida privada da nova autora bestseller. Quem era Belle Gibson, antes de se tornar uma extraordinária sobrevivente de um cancro no cérebro? Segundo o documentário, a influenciadora era apenas mais uma pessoa que ascendeu à fama através das redes sociais e soube monetizar a sua audiência. E toda essa ascensão meteórica e milionária estava assente no propagar de uma informação infundada: as pessoas com cancro poderiam deixar os seus tratamentos médicos, adotar uma dieta saudável e, desse modo, curar-se.
Uma das partes mais interessantes desta série documental é a tentativa de traçar o perfil de Belle Gibson. Que leva alguém a fazer algo assim? Através da sucessão de testemunhos e exemplos práticos, deparamos com uma pessoa inteligente, altamente capaz, que poderia ter dado uma excelente CEO. Porém, Belle acabou por escolher um caminho cujo vocabulário não incluía palavras como “ética” ou “verdade”. De facto, foi-lhe possível construir uma vida e uma carreira com base numa mentira patológica. E ela estava tão imersa nessa realidade paralela, onde factos reais e mentiras se misturavam, que parecia realmente acreditar em tudo o que afirmava.
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Se há dinheiro a ganhar, que importa a verdade?
Diz-se que a verdade é como o azeite e vem sempre ao de cima. E assim foi, também neste caso. Nesse momento, o foco da série passa para as companhias que, sugere-se, foram corresponsáveis pela extraordinária ascensão de Belle. Porque não fizeram perguntas mais incisivas? Porque não pediram provas concretas do cancro curado? Provavelmente porque a história de alguém que sobrevivia a uma doença terminal só à custa de batidos e comida saudável era demasiado apetitosa. Havia muito dinheiro a ganhar. Depois, quando já todos pediam o sangue de Belle Gibson, essas empresas limparam as mãos e, simplesmente, puseram-se do lado dos que tinham sido enganados.
Era chegado o tempo dos advogados, dos processos legais, das multas dos organismos de defesa do consumidor, da divulgação das promessas de caridade que a jovem não cumprira. A história simples e inspiradora ganhava cambiantes mais complexos. Tal como acontece com as próprias redes sociais.
A primeira barreira de defesa somos nós
Num ápice, Belle Gibson passou de influenciadora adorada a jovem mulher odiada. Ainda assim, esta estrela das redes sociais continuou a trilhar o caminho que traçara para si. Isso, diremos, talvez seja uma questão dela com ela; uma questão de consciência pessoal. Para nós, todos os restantes, que navegamos na Internet, que vivemos parte da nossa vida pelas redes sociais, o mais importante poderá ser o novo alerta deixado pela série. Que há histórias falsas por aí. Que as pessoas podem ser muito diferentes da imagem altruísta que projetam nos seus perfis. Que, enquanto os países discutem e decidem o futuro do mundo online, talvez tenhamos de sermos nós os primeiros defensores de nós mesmos.
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