Cultura e Lazer

Vivemos num mundo materialista, cantam elas

Diz-se que o dinheiro muda tudo, mas estas canções defendem que os diamantes podem não ser os melhores companheiros. Ou serão?

Diz-se que o dinheiro muda tudo, mas estas canções defendem que os diamantes podem não ser os melhores companheiros. Ou serão?

Lana Del Rey – “Million Dollar Man”

A artista norte-americana tem uma voz que consegue misturar poder, decadência, nostalgia e mais umas quantas coisas que sintamos na pele. As canções e vídeos de Lana Del Rey mostram um mundo de melancolia e glamour, visto sob o brilho do sol californiano, em histórias que tememos, desde a primeira nota ou palavra, que possam correr mal à protagonista. Neste tema de 2011, uma mulher cede aos encantos de um homem de belo aspeto (ele tem uma “aparência de milhão de dólares”), que encontra nela uma flor exótica. Mas, no fundo, toda aquela aparente perfeição não passava de uma fachada. Um embuste dourado. Ele até pode ter o mundo nas mãos, ser bem-sucedido, mas isso vem com um preço a pagar. É um homem perigoso, cheio de falhas e defeitos, e ainda assim, com o poder de arrastar consigo para o abismo a mulher que o ama. E ela? Vai segui-lo. «Se estiveres a enlouquecer, agarra-me e leva-me junto, sigo contigo até ao fundo, até ao fundo, até ao fundo.»

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Cyndi Lauper – “Money Changes Everything”

Tornou-se uma das canções de culto de Cyndi Lauper, este tema que reapareceu em 1983 pela voz da cantora, em que se vira do avesso a tradicional – e romantizada? – ideia de que “o dinheiro não compra o amor”. Aqui, o dinheiro muda tudo nas relações entre as pessoas, sejam elas amorosas, de amizade ou familiares. Olhem à vossa volta e vejam lá se isto será assim tão distante da realidade… Neste caso específico, a história refere uma mulher que jurou amar para sempre o companheiro, mas que acaba por deixá-lo quando encontra um tipo mais rico. E ela não podia ser mais pragmática na sua justificação… «Pois, está bem, mas quando fizemos essa jura, houve uma coisa que não estávamos propriamente a ter em conta: o dinheiro».

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Gwen Stefani ft. Eve – “Rich Girl”

O vídeo passado num barco de piratas começa com um grupo de meninas a brincarem com bonecas. É a ligação aos sonhos de infância de Gwen Stefani. O que poderia ela fazer se fosse uma rapariga famosa e rica, com acesso a um cash-flow interminável? Seria caso para não se impressionar com a fortuna de qualquer homem, pois já conseguiria comprar tudo o que quisesse: roupas de estilista, várias casas (uma em Londres e, se possível, uma mansão em Hollywood), bilhetes de avião em primeira classe. O tema, cantado em dueto com Eve, ajudou certamente a engrossar a conta bancária de Gwen, ao ter alcançado o top10 em várias tabelas, no ano de 2005. Na letra da canção, a riqueza ambicionada seria meio caminho andado para encontrar um tesouro mais precioso: o amor. «Todas as riquezas, querida, não te darão aquilo que o amor te pode dar.» E se o amor não aparecer? Talvez se vá às compras, ora. If I was rich girl (na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na)…

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Jessie J – “Price Tag”

O início do vídeo, centrado num ursinho de peluche com um olho remendado, remete-nos novamente para os sonhos da infância. Mas rapidamente vemos Jessie J crescer de menina até mulher-cantora e, nesse avançar dos tempos, muda também a forma de encarar o mundo: «Não tem a ver com dinheiro, esquece lá a etiqueta do preço.» A letra inteira é um alerta contra o consumismo, o materialismo, o facto de só se pensar em trabalho. Escrita em 2011, Price Tag evoca uma época na qual «parece que toda a gente tem um preço», e a artista pergunta-se como é que as pessoas conseguem dormir à noite, quando põem as vendas acima de tudo, relegando a verdade para segundo lugar. Jessie J vê gente demasiado séria, a esconder qualquer coisa, cheia de olheiras e com o nariz tão empinado que nem se consegue divertir. «Porque é que anda toda a gente tão obcecada, se o dinheiro não compra a felicidade?» Jessie quer voltar aos tempos em que a música unia as pessoas. Na sua canção, vai ser tudo pago em amor. Toca a esquecer o bling, bling, que é tempo de abrandar e apreciar o aqui e agora. «Garanto que nos vamos sentir bem», diz ela, e nós acreditamos, ao deixarmos o corpo mexer-se ao ritmo contagiante do refrão.

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Meja – “All 'Bout the Money”

O primeiro álbum a solo de Meja, em 1999, integrou uma música que quase poderíamos dizer de protesto sobre os tempos em “tudo tinha a ver com dinheiro”. A letra, mesmo que cantada sobre uma melodia ligeira, consegue ser acutilante: «Quando percebo as coisas doidas que fazemos, fico envergonhada por estar viva, dá-me vontade de fugir e esconder-me, pois tudo tem a ver com dinheiro.» Já o teledisco não podia ser mais simples. Grande plano da cara da artista sueca, dos grandes e inocentes olhos azuis, alternando entre o preto e branco e a cor, com algumas imagens de fundo - num tristonho tom azulado - de gente a correr à chuva. A correr para onde? A fugir de quê? «Encontramos formas estranhas de mostrar às pessoas o quanto nos importamos com elas, quando, na verdade, parece que não nos importamos nada.» Para Meja, antes do virar do século, o nosso belo mundo já estava a ficar desgovernado. «Por isso, digam-me como é que não conseguimos compreender, que é tudo por causa do dinheiro?»

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Shania Twain – “Ka-Ching!”

Os sons de moedas a cair e de caixas registadoras a operar servem de entrada para uma letra que, desde o primeiro verso, é uma denúncia ao «nosso mundo ganancioso, onde se ensinam os meninos e as meninas a ganharem o máximo que puderem, para depois irem gastar tudo». Ka-ching! O vídeo realça os contrastes da sociedade, ao contrapor imagens daqueles que vivem como reis – rodeados de dinheiro, anéis de diamantes e outros luxos – às de um cão vadio, sem nada para comer no prato. Ka-ching! «Tudo o que queremos é mais, muito mais do que já tínhamos, por isso leva-me à loja mais próxima», canta Shania. Ka-ching! E a canção tem ainda espaço para se assumir como um pequeno manual de literacia financeira, ao abordar o cenário caótico dos gastos em cartões de crédito, a religião de ir aos domingos ao centro comercial dar cabo do orçamento mensal, os reforços das hipotecas, as consolidações da dívida, os novos empréstimos quando se está falido, tudo para «irmos gastar mais algum quando estivermos aborrecidos». Ka-ching!

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Madonna – “Material World”

Seria um crime esquecermo-nos da canção de Madonna que, de certa forma, deu o mote a este artigo. Neste clássico da pop, datado de 1984, a artista brinca com o conceito do que será mais importante: o dinheiro ou o amor? O videoclip recria a estética e o cenário de uma cena do filme Os Homens Preferem as Louras (1953), protagonizado por outra loura famosa – Marylin Monroe –, onde se cantava que os diamantes eram os melhores amigos de uma rapariga. Trinta anos depois, Madonna, assim à superfície, parece estar de acordo. «Vivemos num mundo materialista, e eu sou uma rapariga materialista.» E, entre os inúmeros pretendentes, o Sr. Certo será aquele que tiver dinheiro a sério. Aquele rapaz que poupou os seus tostões para agora lhe poder dar bons presentes. Dito isto, talvez haja outros significados nas entrelinhas. Numa cena do vídeo, vemos Madonna a falar ao telefone presumivelmente com uma amiga. Numa história dentro da história, ela relata o cerco que o realizador do clip lhe está a fazer: «Sim, ele continua atrás de mim. Acabou de me dar um colar. Não sei... acho que são diamantes verdadeiros. Pois, ele pensa que consegue comprar-me com presentes caros. Mas o colar até é giro… Queres ficar com ele?» Mas nem esse volte-face abala a ideia de que andamos todos a viver num mundo materialista.

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Paulo M. Morais cresceu a jogar futebol de rua e a ouvir provérbios ditos pelas avós. Licenciou-se em Comunicação Social e especializou-se nas áreas do cinema, dos videojogos e da gastronomia. É autor de romances e livros de não ficção. Coleciona jogos de tabuleiro e continua a ver muitos filmes. Gosta de cozinhar, olhar o mar, ler.

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