Vencedor do prémio para melhor documentário na categoria de Economia & Negócios, na edição de 2025 dos Emmy, este “Buy Now! The Shopping Conspiracy” (que na Netflix portuguesa recebeu o título Conspiração Consumista), assenta principalmente em dar a voz a ex-trabalhadores de grandes empresas. E são estes antigos diretores, CEO, gestores, que procuram alertar os espectadores para uma estratégia comum à maior parte das companhias: o esforço orientado para vender cada vez mais. Ou, por outras palavras, o “compre agora!” do título original.
Identifiquemos já o elefante na sala: o facto de estarmos perante ex-funcionários acarreta o inerente perigo de podermos assistir a um mero ajuste de contas. Caberia por isso aos argumentistas e ao realizador fazer a devida triagem, quer dos entrevistados, quer dos temas abordados nas entrevistas. E nem sempre isso acontece, pois, ocasionalmente, o que deveria ser um desvendar dos bastidores das companhias – e das suas estratégias de venda –, resvala para episódios menos interessantes de conflitos entre pessoas e empresas. Não que isso seja irrelevante; não faz é tanto sentido num documentário que pretende chamar a atenção para uma realidade que tem uma dimensão mais global.
Associar uma narrativa aos produtos
Ainda assim, há bastante neste “Buy Now!” para nos levar a pensar na nossa atitude enquanto consumidores. Se a informação é uma ferramenta útil, então será importante ficarmos a saber que as grandes companhias estão bastante orientadas para a criação de oportunidades de venda. O calendário anual, aliás, está cheio de datas e efemérides que potenciam o consumo. Mas querem um exemplo mais concreto na indústria da roupa? A quantidade de camisolas diferentes que os clubes de futebol lançam por época. É uma para os jogos em casa, outra para os jogos fora, um equipamento para as competições europeias, outro para o Dia da Mulher, outro que assinala uma data especial do clube, e ainda mais um que comemora… qualquer coisa.

As histórias que se associam a cada camisola ajudam a criar um objeto ainda mais desejável. Mas esta orientação centrada no “vender mais” está a ser usada por quase todas as marcas de moda rápida. Longe vão os tempos das duas coleções por ano; agora, a renovação dos modelos é constante. E uma vez criada a apetência pelo produto, passa-se à fase seguinte: garantir que as pessoas tenham um acesso fácil à compra. Antes, comprar um produto exigia uma deslocação física a uma loja. Agora, como todos bem sabemos, basta um clique. Mas saberemos como tudo numa página web está otimizado para gerar a compra? Pois está: desde as cores usadas às frases chamativas, passando pelo sítio e forma dos botões para se efetivar a compra…
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Obsolescência e substituição do “velho” pelo novo
O mais interessante deste documentário são mesmo as pequenas revelações que podem ajudar a ficarmos mais conscientes dos nossos atos de consumo. Precisamos mesmo daquilo ou estamos apenas a cair num engodo? Igualmente relevante é o entreabrir de portas para o que acontece depois do consumo. Vivemos num mundo em que se desperdiça cada vez mais. Os produtos são criados para terem uma vida mais curta. A obsolescência planeada é, aliás, um pilar de grande parte das empresas. O mercado da eletrónica de consumo, por exemplo, assenta na substituição dos modelos atuais. Mesmo que se tenha um equipamento de topo, aparece sempre um novo modelo que se publicita como mais isto ou mais aquilo. Há sempre um incentivo qualquer para que o consumidor descarte o antigo, mesmo que seja um produto tecnologicamente avançado que continue funcional. E, claro está, em muitos casos nem se pensa em reparar o que está avariado. A troca, a substituição pelo novo, tornou-se a regra.
Talvez a parte mais importante do documentário esteja precisamente na tentativa de mostrar o que está a acontecer aos produtos que são descartados. As toneladas de desperdício. Os produtos destruídos pelas próprias empresas, por não terem sido vendidos em datas específicas ou simplesmente porque faz parte da estratégia de negócio. Será que a propagada reciclagem vai conseguir, por exemplo, resolver a produção maciça de plástico? A responsabilidade das empresas está essencialmente ligada ao método de fabrico, pelo que vão surgindo instalações mais amigas do ambiente. Mas, uma vez feito o produto, aponta-se uma desresponsabilização das marcas. Afirma-se que apenas se recicla 10 por cento do plástico produzido. A maior parte acaba enterrado ou queimado. Mas o consumidor, ao pensar que o que está a comprar provém de materiais reciclados, ou que a embalagem vai ser reciclada quando a deitar fora, sente-se tranquilo. As etiquetas e os símbolos de reciclagem acabam por funcionar como aliviadores de consciência.
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Qual é afinal o destino do nosso desperdício?
Na senda do jornalismo de investigação, “Buy Now!” mostra-nos ainda algumas realidades menos conhecidas, como o paradeiro daquilo que vamos deitando fora. Quando um produto vai parar ao lixo qual é mesmo o seu destino? Pois bem, vejamos os milhares de monitores, televisores e todo o tipo de resíduos eletrónicos que são exportados para países asiáticos de economias menos desenvolvidas. Vejamos as roupas descartadas que acabam por inundar areais da costa africana. Vejamos as condições de trabalho das pessoas que tratam do nosso desperdício. Vejamos os efeitos ambientais à escala mundial desta corrida ao consumo, onde não se pensa no ciclo completo.
Muitas empresas acreditam realmente que já estão a fazer o suficiente. Outras sabem perfeitamente que deviam fazer muito mais. Espera-se que, cada vez mais, surja uma visão que vá para além do lucro presente e pense, também, num futuro sustentável. Mas, enquanto esperamos por esse mundo novo, que pode fazer um mero consumidor?
Entre os conselhos finais deste documentário premiado, há um que sobressai: compre menos. Nesta coisa a que chamamos vida, não ganha quem tiver mais coisas na hora da morte.
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