Escrito e realizado por Celine Song, o filme «Materialists» (2025) ganhou um título diferente em Portugal: «O Match Perfeito». No Brasil, tal como no Chile, Colômbia, Argentina, estreou sob o título «Amores Materialistas». Em Espanha, foi simplesmente «Materialistas». Mas esta discrepância até dá jeito para a introdução de uma película romântica que balança entre a comédia e o drama. Como o amor dos nossos dias? Ou sempre foi assim?
Os casamenteiros que não conseguem casar
A inspiração para a história veio da meia dúzia de meses em que Celine Song trabalhou numa agência de relacionamentos. Este tipo de agências, também conhecidas como agências matrimoniais, visam encontrar o par perfeito, seja para um casamento, seja para um relacionamento duradouro. Os emparelhamentos são feitos por uma consultora. Não exploremos a suposta eficácia deste serviço, e concentremo-nos antes numa questão essencial da trama: será que Lucy (Dakota Johnson), uma consultora matrimonial de sucesso, consegue ela própria singrar no campo amoroso? Na sua vida pessoal, Lucy mostra-se dividida entre o aparentemente perfeito Harry (Pedro Pascal) e o seu imperfeito ex-namorado John (Chris Evans). São ambos bonitos e charmosos, cada qual no seu estilo. Mas há uma grande diferença entre eles: o dinheiro. O tema é importante para Lucy. Fará isso dela uma mulher materialista? Alguém superficial?
O filme, na realidade, está longe de ser uma perfeição. Mas isso não implica que seja um tempo perdido. Há aqui material que faz pensar, nomeadamente sobre as expectativas que temos em torno do casamento. Ou sobre a dificuldade, nos tempos atuais, de encontrar parceiro para um relacionamento sério.

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Se é para viver sem um tostão no bolso…
O triângulo amoroso de «Materialists» tem como vértices dois tipos de homem. John, o ex-namorado, representa o amor idealizado. Ele ama verdadeiramente Lucy. Mas ele próprio consegue encontrar defeitos na sua, digamos, candidatura: «Como teu amigo… Eu dir-te-ia que é uma má ideia ficares com um empregado de mesa de 37 anos que ainda divide a casa com amigos. Eu dir-te-ia que, definitivamente, não deves casar com um homem que tem 2 mil dólares na conta bancária, que vive numa cidade acima das suas posses, na qual se mantém para continuar a tentar a carreira de ator de teatro, pois alguém lhe disse, algures no tempo, que ele tinha jeito.» John tem noção de que não pode dar à pessoa amada o conforto que ela merece. «Passaram-se anos e continuo sem ter condições financeiras para poder estar contigo.»
O dinheiro, pois é. Num par de flashbacks, percebemos que parte das razões que levaram ao rompimento do antigo namoro teve a ver com as finanças pessoais. Sim, é verdade que a idealização do amor pode levar a que se rotule Lucy como uma mulher vazia, materialista. Mas podemos criticá-la demasiado por se importar que o jantar comemorativo de cinco anos de namoro seja numa rulote de bifanas? «Não quero odiar-te por seres pobre, mas neste momento é o que sinto», confessa ela. «E isso faz com que me odeie a mim mesma.» O problema deles não era falta de amor. Era estarem falidos. Não terem dinheiro para nada. Casar com John equivalia a uma opção de vida. E Lucy via na sua cabeça o futuro: «Vou passar o resto da minha vida sentada à tua frente em restaurantes baratos e maus. Vou andar no teu carro merdoso, viver no teu quarto merdoso… e discutir contigo por causa de 25 dólares.» Tudo isso lhe exigia ponderação. «Estou a fazer contas. É assim que eu sou.»
A frieza e importância da conta bancária
O slogan encontrado para a promoção do filme parece indicar isso mesmo: “Algumas pessoas simplesmente querem mais”. Para Lucy, o casamento é um negócio. «Sempre foi, desde a primeira vez que duas pessoas se casaram». A sua maneira de pensar implica que ela própria se ache uma má pessoa, preconceituosa, materialista, fria. Porém, o reaparecimento de John acaba por lhe baralhar as ideias. Os seus valores.
– Então, qual é o tipo de pessoa com quem uma consultora de relacionamentos quer casar? – pergunta Harry, o eventual pretendente endinheirado e o outro vértice deste triângulo amoroso.
– Bem, o meu requisito não-negociável é o de que ele seja rico – responde ela. – E o meu requisito seria-agradável-se-fosse-assim é o de que ele seja absurdamente, incrivelmente, dolorosamente rico.
Harry parece encaixar no perfil. Tem meios suficientes para “investir” na conquista de Lucy. Ela própria o reconhece. «É o preço de uma refeição que torna romântico um encontro?», pergunta Lucy. «Não é?», responde Harry.
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Amor: Uma questão de crença?
É caso para ficar Lucy ficar confusa. Que interessa mais: o amor ou o dinheiro? Ou talvez a equação nem seja assim tão simples. Se só houver possibilidade de se ter uma coisa, fica-se com o amor ou com o desafogo financeiro? E podemos pensar noutras dúvidas. Consegue o amor sobreviver às dificuldades financeiras? Consegue o dinheiro fomentar o amor? «Não sei se gosto de ti ou se apenas gosto dos sítios a que me levas», confessa Lucy ao seu pretendente rico. Mas Harry é um homem que parece saber bem o que quer. A questão do dinheiro, no caso dele, não se coloca; por isso, ele vê um enorme valor em Lucy.
«Não estou à procura da rapariga rica mais bonita e simpática que possa gostar de mim. Estou à procura de alguém que entenda o jogo, que saiba como o mundo funciona. Estou à procura de alguém que eu respeite. Em quem confie. Alguém que saiba mais do que eu. Não quero andar contigo pelos teus bens materiais… embora ache que os estás a subvalorizar por uma grande margem. Os bens materiais são rascas, não duram. Quero estar contigo pelos teus bens intangíveis. Esses são bons investimentos. Não se degradam. Só ganham maior nitidez.»
Com quem fica Lucy? Quem será, afinal, o match perfeito a que se refere o título português? É ver o filme. Ou escolher o nosso próprio final, de acordo com a nossa tendência de ver o amor como um romance, como um negócio ou… como ambos.
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