Para selecionar as ações que integram uma carteira de investimentos, é necessário efetuar uma análise prévia, que pode ser mais ou menos exaustiva. Tal como noutras classes de ativos, é essencial que, nas ações, o investidor compreenda o que faz a empresa cotada, qual o ramo de atividade em que se insere, a geografia em que atua, os mercados onde está presente, a moeda com que opera, a evolução histórica dos resultados e das cotações e uma série de outros fatores, como as oportunidades e ameaças que enfrenta.
Esta análise permitirá avaliar o risco associado e perceber que tipo de ação está em causa, alinhando as expetativas com o potencial que a ação oferece. É neste âmbito que as empresas cotadas podem ser divididas em diversas estratégias de investimento, que aqui podem ser consultadas em maior detalhe e estão resumidas em baixo:
- Crescimento: Cotadas que estão numa tendência de forte crescimento dos resultados e integradas em setores de elevado potencial, em relação às quais os investidores estão disponíveis para pagar preços mais elevados.
- Valor: Empresas com crescimento mais moderado, atuando em setores de atividade estáveis e maduros, negociando por isso com avaliações mais contidas.
- Cíclicas: Cotadas cuja atividade está fortemente relacionada com a evolução da economia (global ou local), pelo que as cotações oscilam em função da fase do ciclo económico.
- Dividendos: Empresas sólidas que geram montantes elevados de cash flow e necessidades baixas de investimento, pelo que têm como estratégia remunerar os acionistas com dividendos atrativos que compensam o potencial mais limitado das cotações.
- Reestruturação: Cotadas que estão em fase de recuperação após um período complicado que deprimiu o preço das ações, implementando planos de reestruturação que visam uma inversão na tendência de quebra da atividade.
- Defensivas: Empresas com uma evolução da atividade muito fácil de prever e antecipar, atuando em setores fortemente regulados e cuja evolução está desligada da fase do ciclo económico.
Numa abordagem mais simplista e bastante comum nos mercados, é possível dividir as ações em apenas duas categorias, avaliando se são empresas de crescimento ou de valor. Uma carteira de ações diversificada deverá conter empresas dos dois tipos, sendo que a abordagem deverá passar por atribuir um peso às ações de crescimento e valor em função do apetite do investidor ao risco e às perspetivas para cada uma das estratégias.
Valor está a ganhar terreno ao crescimento
As empresas de crescimento (risco implícito mais elevado) têm superado largamente o desempenho das cotadas de valor (risco implícito mais moderado) desde que se iniciou o rally das bolsas globais no final de 2022, beneficiando com a valorização das tecnológicas à boleia da euforia com a Inteligência Artificial.
A tendência foi suficiente para impulsionar os índices acionistas até máximos históricos na generalidade das geografias, deixando para trás as empresas de setores mais tradicionais. A elevada concentração dos ganhos nas tecnológicas e outras cotadas de crescimento é um risco para os mercados acionistas, que ficaram cada vez mais dependentes e reféns do desempenho destas ações.
Contudo, está a ganhar força a tão reclamada e desejada rotação de investimento das tecnológicas para outros setores que ficaram esquecidos no rally dos últimos anos nos mercados acionistas. O movimento ganhou lastro no final de outubro, período em que as tecnológicas tocaram em máximos, estando com mais força em 2026.
Este é um desenvolvimento bastante saudável para as bolsas, pois está a permitir que os índices acionistas continuem com uma prestação positiva e a renovarem máximos, apesar da fase de menor fulgor das tecnológicas e até quebra forte em alguns segmentos do setor. Ou seja, o dinheiro que está a sair das cotadas de crescimento migra para as cotadas de valor, em vez de fugir apenas para outros ativos, como obrigações e matérias-primas.
Os números e gráficos que mostramos de seguida não deixam margem para dúvidas sobre a tendência firme de que as empresas de valor estão finalmente a regressar ao radar dos investidores.
Europa tem mais valor
O MSCI World Index, que mede o desempenho das bolsas mundiais, acumula uma valorização de 20% no último ano, com as ações de valor (+23,4%) já a superarem a prestação das empresas de crescimento (+16,4%) por uma margem considerável.
É nos prazos mais curtos que se nota de forma evidente a divergência das duas estratégias. Desde 29 de outubro (data do máximo das tecnológicas), o MSCI World Value Index valoriza 10%, enquanto o MSCI World Growth Index recua 2,6%. O índice das cotadas mundiais de valor avança 7% em 2026, compensando a queda de 0,7% das empresas de crescimento e permitindo que o MSCI World marque um desempenho positivo no acumulado do ano (+3,2%).
O impacto da rotação para as empresas de valor é ainda mais notório nas bolsas europeias, uma vez que os índices da região estão repletos de empresas com estas características. O MSCI Europe Value Index valoriza 46% no último ano, mais do dobro do ganho do MSCI Europe Growth Index (+21%). As ações europeias de valor sobem 14% desde o final de outubro, também mais do dobro do índice das cotadas de crescimento, o que permitiu ao índice que junta as duas estratégias (MSCI Europe Index) apresentar uma valorização de dois dígitos no mesmo período.
Nas bolsas norte-americanas, onde dominam as empresas tecnológicas, salta à vista a correção das empresas de crescimento. Embora no prazo a um ano o S&P500 Growth ainda apresente um saldo mais favorável (+15,3% vs +13,4%), desde o final de outubro os dois tipos de ações seguiram caminhos opostos. O S&P500 Value valoriza 6% neste período, enquanto as empresas de crescimento do S&P500 acumulam uma queda de 3,5%.
A correção das empresas de crescimento, sobretudo nos Estados Unidos, está a ser exacerbada por uma violenta correção que está a castigar o setor das empresas de software, vistas atualmente como vítimas do potencial da Inteligência Artificial. O S&P Software & Services Select Industry Index afunda 20% desde os máximos de outubro, acumulando uma queda de 15% em 2026.
PSI brilha ainda mais em 2026
Se a bolsa norte-americana é das mais penalizadas com a rotação dos investidores das empresas de crescimento para valor, a praça portuguesa é claramente uma das que mais têm a ganhar com a tendência. O PSI praticamente não tem empresas de crescimento e está recheado de companhias de valor, o que se reflete no desempenho do índice português nos últimos tempos.
Depois de ter valorizado uns impressionantes 29,5% em 2025, o PSI já acumula um ganho de 9% este ano, superando largamente a maioria dos índices europeus. O índice superou a fasquia dos 9 mil pontos pela primeira vez desde 2008, beneficiando com os ganhos de dois dígitos de diversas cotadas de valor.
É o caso da Nos e da Sonae, presentes em dois setores de atividade sólidos e maduros que estão agora mais atrativos aos olhos dos investidores. A Galp Energia, que é uma empresa cíclica, bem como a REN, uma cotada claramente defensiva e de dividendos, também marcam ganhos expressivos.
Empresas de valor mais atrativas
Falta agora explicar os fatores que justificam esta dinâmica de rotação de investimento entre as duas estratégias. Há argumentos que validam a aposta mais reduzida nas empresas de crescimento e outros que fundamentam a crescente atratividade das cotadas de valor.
- A forte valorização das empresas de crescimento, sobretudo das tecnológicas, deixou os múltiplos de avaliação destas cotadas em níveis historicamente elevados, pressionando os investidores a reduzirem a exposição a esta estratégia.
- Em contrapartida, as empresas de valor registaram valorizações bem mais contidas nos últimos anos e, apesar do desempenho mais favorável nos últimos meses, continuam com múltiplos de avaliação bem mais reduzidos.
- O MSCI World Value negoceia a 16,2 vezes os lucros estimados para os próximos 12 meses, bem abaixo do múltiplo de 26,8 vezes do índice que agrega as cotadas de crescimento mundiais. Nas bolsas europeias o desconto das empresas de valor é ainda mais acentuado: 12,2x vs 21,1x.
- O mercado tem demonstrado uma preocupação crescente com os elevados montantes de investimento que as grandes tecnológicas estão a efetuar para desenvolverem a Inteligência Artificial, temendo que ameacem a evolução futura dos lucros numa altura em que ainda existem dúvidas sobre a monetização da tecnologia. Os números revelados nos resultados do quarto trimestre contribuíram para agravar as preocupações dos investidores, pois Meta, Microsoft, Alphabet e Amazon.com projetam investir 650 mil milhões de dólares em 2026, três vezes mais do que em 2024.
- Se durante bastante tempo a euforia com a Inteligência Artificial contagiava o setor tecnológico em particular e o mercado como um todo, os investidores estão agora bem mais seletivos, escrutinando quem vai sair a perder e ganhar. A queda de cerca de 15% que as ações de software registam em 2026 evidencia como os investidores castigam as empresas de setores de atividade que podem ser ameaçados pelos progressos da Inteligência Artificial. Empresas de serviços financeiros, imobiliário, brokers de seguros e logística também estão a ser penalizadas.
- A conjuntura macro e de política monetária também é favorável às empresas de valor, que têm a sua atividade mais condicionada pela evolução da atividade económica e pelo nível das taxas de juro. As perspetivas apontam para uma recuperação da economia europeia em 2026 e a persistência da resiliência da economia norte-americana. O BCE deverá manter os juros em território neutro e é expetável que a Fed efetue diversos cortes de juros.
- A política orçamental é outro fator que joga a favor das empresas de valor. Os poderosos estímulos orçamentais que a Alemanha está a implementar privilegiam infraestruturas e outras áreas que beneficiam estas empresas, sendo que o corte de impostos de Trump também é favorável a este tipo de ações.
Os mercados são muito dinâmicos e os ventos que sopram a favor das empresas de valor podem mudar rapidamente de direção. Uma carteira diversificada com as duas estratégias pode ser a melhor opção para tirar partido da tendência de alta que continua a marcar os mercados acionistas globais em 2026.