Todos os meses, quando chega a fatura da eletricidade, o mais provável é que que concentre a sua atenção no valor final e no consumo. No entanto, há outro número que aparece sempre: a potência contratada.
Este é um custo fixo, pago diariamente, que não depende do consumo real. Mesmo que esteja fora de casa, de férias ou que a casa não esteja habitada, continua a pagar este valor.
O problema é que muitas famílias têm mais potência contratada do que realmente precisam. E isso significa pagar mais todos os meses sem benefícios práticos.
A boa notícia é que, na maioria dos casos, é possível ajustar a potência contratada e reduzir a fatura da luz sem perder conforto. Para isso, é essencial perceber como funciona este conceito e quais os cuidados a ter antes de fazer qualquer alteração.
O que é a potência contratada?
A potência contratada corresponde à quantidade máxima de eletricidade que pode ser utilizada em simultâneo numa habitação.
Na prática, define quantos e quais equipamentos elétricos podem estar ligados ao mesmo tempo sem que a instalação “vá abaixo”. Quanto maior for a potência contratada, maior é essa capacidade, mas também maior será o custo fixo na fatura.
É importante não confundir dois conceitos distintos:
- Potência contratada (kVA): Indica a “capacidade” da instalação elétrica.
- Consumo de eletricidade (kWh): Corresponde à energia efetivamente utilizada ao longo do tempo.
Uma forma simples de entender esta diferença é pensar numa estrada:
- A potência contratada é a largura da estrada;
- O consumo é o número de carros que passam.
Pode ter uma estrada muito larga (potência elevada), mas poucos carros a circular (baixo consumo). Nesse caso, está a pagar por algo que não está a usar.
No dia a dia, a potência contratada é o que determina se consegue, por exemplo, ligar o forno, a placa elétrica e a máquina de lavar ao mesmo tempo – ou se o disjuntor dispara quando isso acontece.
Quais são os escalões de potência disponíveis em Portugal
A potência contratada está definida de acordo com escalões predefinidos, com base nos quais os consumidores escolhem a capacidade elétrica da sua casa.
Os clientes podem contratar 13 potências diferentes ao comercializadores de energia elétrica:
- 1,15 kVA
- 2,30 kVA
- 3,45 kVA
- 4,60 kVA
- 5,75 kVA
- 6,90 kVA
- 10,35 kVA
- 13,80 kVA
- 17,25 kVA
- 20,70 kVA
- 27,60 kVA
- 34,50 kVA
- 41,40 kVA
Para a maioria das habitações, os valores situam‑se entre os 3,45 kVA e os 6,9 kVA. Potências superiores tendem a ser usadas em moradias maiores ou em casas com equipamentos elétricos mais exigentes.
Como a potência contratada influencia a fatura da eletricidade
Sendo um custo fixo e independente do consumo, a potência contratada costuma surgir na fatura como um valor diário, multiplicado pelo número de dias do período faturado. Pode parecer pouco quando visto isoladamente, mas, ao longo de um ano, representa uma parte significativa do total pago pela eletricidade.
Este impacto é ainda mais evidente em situações como:
- Agregados familiares com consumo reduzido;
- Pessoas que passam pouco tempo em casa;
- Habitações de férias ou segundas casas;
- Períodos em que se faz um esforço para poupar energia.
Nestes casos, é comum acontecer o seguinte: o consumo baixa, mas a fatura não desce tanto quanto seria de esperar. Muitas vezes, a explicação está numa potência contratada superior às necessidades reais da casa.
Duas casas com consumos semelhantes podem pagar valores diferentes apenas porque têm escalões de potência distintos. Ajustar este parâmetro pode, por isso, ser uma forma simples de reduzir a fatura sem alterar hábitos.
Como saber qual é a potência contratada da sua casa
Antes de pensar em qualquer alteração, é fundamental perceber qual é a sua potência atualmente contratada.
Esta informação é fácil de encontrar. Na maioria das situações, aparece claramente identificada na fatura da eletricidade, normalmente numa zona dedicada aos dados do contrato ou da instalação.
Além da fatura, também é possível confirmar este dado:
- Na área de cliente do comercializador de eletricidade;
- Através do contador inteligente, quando disponível.
Depois de identificar o valor, o passo seguinte é perceber se esta potência faz sentido para a forma como a eletricidade é utilizada no dia a dia – ou se está, na prática, a pagar por uma margem de segurança que nunca chega a usar.
Como perceber se tem potência contratada a mais
Nem sempre é fácil saber, à primeira vista, se a potência contratada está ajustada às necessidades da casa. No entanto, há alguns sinais práticos que podem indicar que está a pagar mais do que precisa.
Um dos mais comuns é simples: o disjuntor nunca dispara, mesmo quando vários equipamentos estão ligados ao mesmo tempo. Se consegue usar o forno, a placa elétrica, a máquina de lavar e outros aparelhos em simultâneo sem qualquer problema, é possível que exista uma margem de potência que nunca chega a ser utilizada.
Outro indício frequente está nos hábitos reais de consumo. Muitas pessoas contratam uma potência elevada “por segurança”, mas, no dia a dia:
- Raramente ligam vários eletrodomésticos ao mesmo tempo;
- Passam grande parte do dia fora de casa;
- Vivem sozinhas ou em agregados pequenos.
Também é importante olhar para os equipamentos existentes. Aparelhos como fornos, placas elétricas, termoacumuladores ou máquinas de secar roupa são mais exigentes em termos de potência. Se não os utiliza em simultâneo, ou se alguns já foram substituídos por modelos mais eficientes, a potência contratada pode ter deixado de fazer sentido.
Em resumo, se a casa funciona sem limitações aparentes e nunca há cortes de energia por excesso de carga, vale a pena questionar: será que estou a pagar por uma capacidade que não uso?
Qual a potência contratada adequada para a minha casa?
A potência contratada recomendada para uma casa varia consoante o agregado familiar, os equipamentos elétricos utilizados e o consumo. De acordo com a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), uma potência de 3,45 kVA pode ser o ideal para duas pessoas e 6,9 kVA podem ser necessários para uma família de quatro elementos.
Tipologia de casa | Perfil de utilização |
Estúdio / T0 ou T1 | 1 a 2 pessoas, poucos eletrodomésticos. |
T1 ou T2 | 2-3 pessoas, sem aquecimento ou fogão elétrico. |
T3 ou T4 | 4 pessoas, uso frequente de eletrodomésticos. |
Vivenda com ar condicionado | Uso de ar condicionado ou piscina. Casa com carregador para carro elétrico |
A tabela seguinte ajuda a perceber um pouco melhor noção de quantos equipamentos pode ter ligados em simultâneo com cada potência contratada.
Pode utilizar o simulador da ERSE para calcular a potência recomendada no seu caso com base nos eletrodomésticos que utiliza.
Potência instalada | Equipamentos |
3,45 kVA | 1 frigorífico combinado 1 máquina de lavar roupa 5kg 1 microondas 1 televisão LCD pequena (até 30’’) 1 lâmpada fluorescente |
4,60 kVA | 1 frigorífico combinado 1 máquina de lavar roupa 5kg 1 microondas 1 televisão LCD pequena (até 30’’) 1 lâmpada fluorescente 1 aquecedor a óleo |
5,75 kVA | 1 frigorífico combinado 1 máquina de lavar roupa 5kg 1 microondas 1 televisão LCD pequena (até 30’’) 1 lâmpada fluorescente 1 aquecedor a óleo 1 forno elétrico |
6,90 kVA | 1 frigorífico combinado 1 máquina de lavar roupa 5kg 1 microondas 1 televisão LCD pequena (até 30’’) 1 lâmpada fluorescente 1 aquecedor a óleo 1 forno elétrico 1 máquina de lavar louça |
Quanto é possível poupar ao reduzir a potência
Reduzir a potência contratada não faz desaparecer dezenas de euros da fatura de um mês para o outro. Ainda assim, trata‑se de uma poupança fixa e garantida, que se acumula ao longo do tempo.
Como a potência é cobrada todos os dias, qualquer descida tem impacto imediato em todas as faturas seguintes. Segundo a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), nos contratos até 6,9 kVA, baixar um escalão de potência pode permitir poupar aproximadamente 36 euros por ano.
Um exemplo concreto
Imagine uma família com uma potência contratada de 6,9 kVA, que conclui que consegue funcionar sem problemas com 5,75 kVA. A família tem tarifa simples e não tem direito à tarifa social.
No mês de janeiro, consumiu 267 kWh de eletricidade. De acordo com os valores de mercado do seu fornecedor – a SU Eletricidade –, o preço da energia é de 0,1654 euros/kWh em 2026.
Neste fornecedor, a potência contratada de 6,9 kVA custa 0,3659 euros/dia, ao passo que a potência de 5,75 kVA custa 0,3079 euros/dia.
De acordo com a calculadora da ERSE, esta será a despesa do mês com cada uma destas potências:
6,9 kVA | 5,75 kVA | Diferença | |
Potência | 11,34 € | 9,54 € | -1,80 € |
Energia | 44,16 € | 44,16 € | 0,00 € |
IVA | 12,77 € | 12,35 € | -0,42 € |
Total | 68,27 € | 66,05 € | -2,22 € |
Neste caso, a mudança de potência contratada resultaria numa poupança de 2,22 num mês de 31 dias. Ou seja, a poupança anual rondaria os 26 euros.
É um valor modesto, mas importa ter em conta dois fatores:
- É uma poupança permanente, que se repete todos os anos;
- Não exige esforço, disciplina ou grandes mudanças no dia a dia.
Para muitas famílias, este ajuste representa uma forma simples de tornar a fatura da luz mais equilibrada, sobretudo quando já não existe grande margem para reduzir o consumo.
Leia ainda: Como poupar quase 700 euros por ano em energia e telecomunicações
Reduzir demasiado a potência: Riscos e consequências reais
Reduzir a potência contratada pode ser uma boa forma de poupar, mas há um limite a partir do qual a poupança deixa de compensar. Quando a potência contratada não é suficiente para os hábitos da casa, começam a surgir problemas práticos no dia a dia.
O mais comum é o disparo do disjuntor. Isto acontece quando estão ligados, ao mesmo tempo, mais equipamentos do que a potência contratada permite. Nessa situação, o sistema elétrico corta automaticamente a energia como forma de proteção.
O que acontece quando o disjuntor dispara?
Na prática, o disparo do disjuntor provoca:
- Um corte imediato de energia em toda a casa ou numa parte dela;
- A interrupção súbita de tarefas em curso, como cozinhar, lavar roupa ou trabalhar ao computador;
- A necessidade de ir ao quadro elétrico para repor manualmente a eletricidade.
Embora um disparo ocasional não seja grave, cortes frequentes podem tornar‑se um incómodo significativo. Em alguns casos, podem também causar:
- Perda de trabalho não guardado em computadores;
- Reposição de relógios e programações de eletrodomésticos;
- Maior desgaste de alguns equipamentos, se os cortes forem recorrentes.
Se um disjuntor dispara raramente, apenas numa situação excecional em que se ligam vários aparelhos ao mesmo tempo, basta ajustar os hábitos de utilização para evitar este incómodo.
Portanto, se não quer sacrificar o conforto essencial, vivendo com receio de ligar determinados equipamentos ou de provocar danos, convém não baixar a potência contratada para um valor inferior às suas necessidades.
Quando faz sentido não reduzir a potência contratada
Reduzir a potência contratada nem sempre é a melhor opção. Se o seu disjuntor já dispara com alguma frequência, manter ou até aumentar a potência pode evitar problemas no dia a dia.
Também é importante considerar mudanças recentes nos hábitos. Passar mais tempo em casa, trabalhar remotamente ou substituir equipamentos a gás por elétricos pode aumentar a necessidade de potência.
Dicas para tirar melhor partido da potência contratada
Gerir bem a utilização simultânea dos equipamentos é uma forma importante de evitar o disparo do disjuntor, permitindo otimizar a potência contratada.
Para isso:
- Conheça os equipamentos que mais pesam no consumo instantâneo – por exemplo, o forno, a máquina de lavar roupa e os aquecedores – para distribuir a sua utilização ao longo do dia;
- Dê preferência a eletrodomésticos mais eficientes, que cumprem a mesma função com menor exigência elétrica;
- Aproveite melhor os horários em que a casa está menos ativa para realizar tarefas como lavar roupa ou loiça.
Se tiver um contador inteligente, pode usar essa informação para perceber melhor os seus padrões de consumo e identificar momentos em que é necessária mais potência. Pode ter acesso ao seu histórico detalhado de leituras no Balcão Digital E-REDES.
Estas pequenas mudanças de hábitos ajudam não só a reduzir o risco de cortes de energia, como também a garantir que a potência contratada – seja ela qual for – está a ser usada da forma mais equilibrada possível.
Como mudar a potência contratada
Depois de perceber qual é a potência contratada atual e se faz sentido ajustá‑la, o passo seguinte é saber como fazer essa alteração. Na maioria dos casos, mudar a potência contratada é um processo simples.
O pedido deve ser feito junto do comercializador de eletricidade (a empresa com quem tem contrato), e não junto do operador da rede. Pode fazê‑lo através da área de cliente, por telefone ou por outros canais disponibilizados pela empresa.
O que é preciso para pedir a alteração
Regra geral, basta indicar:
- O nome e o número de contribuinte do titular do contrato;
- O número de cliente ou de contrato;
- O código de ponto de entrega (CPE), que pode encontrar numa fatura de eletricidade;
- O novo escalão de potência que pretende contratar.
Se a casa tiver um contador inteligente, a alteração costuma ser feita à distância, sem necessidade de qualquer deslocação técnica. Em instalações mais antigas, pode ser necessária uma intervenção, embora isso seja cada vez menos comum.
A alteração é imediata?
Depois de feito o pedido, a mudança não é necessariamente instantânea, mas costuma ser aplicada num curto intervalo de tempo. A partir desse momento, o novo valor da potência passa a refletir‑se na fatura seguinte.
É importante saber que a potência contratada pode ser alterada mais do que uma vez, o que permite, por exemplo, reduzir um escalão e avaliar se a nova potência é suficiente para o dia a dia.
Há custos associados?
Não, a mudança do escalão de potência contratada é gratuita. Com uma ressalva: se não tiver contador inteligente e for necessário deslocar-se um técnico a sua casa, terá de estar presente na data e intervalo de tempo definidos, caso contrário, terá de pagar uma compensação. As visitas são agendas por períodos que podem ir até 2h30m, embora a alteração dure cerca de 10 minutos.
Uma decisão que deve ser ponderada
Embora o processo seja simples, a decisão deve ser tomada com cuidado. Antes de pedir a alteração, é importante ter a certeza de que a nova potência será adequada aos hábitos da casa, evitando cortes frequentes de energia.
Sempre que exista dúvida, uma abordagem prudente passa por reduzir apenas um escalão de cada vez e avaliar o impacto comprovado no dia a dia.
Perguntas frequentes
É o valor máximo de eletricidade que pode ser utilizada ao mesmo tempo numa habitação.
Sim, a potência pode ser alterada, desde que seja adequada aos hábitos de consumo da casa.
Não há limite.
O disjuntor pode disparar, causando cortes de energia sempre que vários equipamentos são usados em simultâneo.
Um disparo ocasional não causa danos, mas cortes frequentes podem reduzir a vida útil de alguns equipamentos e causar perda de dados.
Depende do número de equipamentos, do uso simultâneo e dos hábitos diários. Não existe um valor universal. Pode utilizar o simulador da ERSE para calcular a potência recomendada no seu caso com base nos eletrodomésticos que utiliza.
Sim, pode. Mas como o desconto da tarifa social só se aplica a consumidores com potências contratadas até 6,9 kVA (para além dos restantes critérios de elegibilidade), se solicitar uma potência contratada superior perde o benefício da tarifa social.
Nem sempre. Compensa quando existe excesso, mas reduzir demasiado pode trazer mais incómodos do que poupança.
