Bitcoin: Investimento ou especulação?

Há uma característica essencial na definição de investimentos: os rendimentos pagos aos investidores. É algo que os criptoativos não fornecem.

A resposta à pergunta que titula este artigo depende da definição de “investimento”. É, naturalmente, subjetivo. Para mim, investir é aplicar dinheiro na expectativa de algum rendimento futuro. O bitcoin, como todos os criptoativos lançados desde 2009, não paga rendimentos.

Os investidores em ações podem receber dividendos; os que aplicam em obrigações recebem cupões; quem opta por Certificados de Aforro recebe juros; quem investe em imobiliário está à espera de rendas. Ações, obrigações, Certificados de Aforro e imobiliário são investimentos.

Note a diferença entre rendimento e mais-valia: ambos fazem parte da remuneração dos investidores. No entanto, em instrumentos como o bitcoin, apenas há potencialmente mais-valias.

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Porque é tão importante o rendimento na definição do investimento? Porque sem rendimentos ou a expectativa de rendimentos, não há suporte para aferir o valor justo de um investimento. Poderá considerar que o valor justo das ações da Apple é de 100 dólares norte-americanos, porque recuperará esse montante em 85 anos se a companhia aumentar os dividendos anuais em 5% por ano. Poderá acreditar que vale a pena investir em Certificados do Tesouro Poupança Crescimento, porque pagam juros mais elevados do que as Obrigações do Tesouro. (São apenas exemplos; não são avaliações completas nem recomendações.)

Alguns instrumentos financeiros não têm rendimentos, mas são suportados pelas distribuições recebidas dos ativos que os compõem. Por exemplo, um fundo de investimento pode não pagar dividendos, mas, se for composto por ações ou obrigações, deve ser classificado como um investimento.

O bitcoin não é um investimento. As pessoas que aplicam dinheiro na compra de bitcoins e de outros criptoativos especulam que haverá alguém, no futuro, que estará disposto a comprar as suas unidades por um valor superior.

Quando se compra ouro, prata, diamantes, vinho, pinturas, esculturas, selos, automóveis ou violinos a planear vender por mais dinheiro, especula-se.

Não há nada intrinsecamente negativo na especulação. Pode ser uma especulação bem informada. Também se especula (muito) sobre investimentos, como mostrou a recente saga em torno da GameStop e de outras ações do momento.

Pode investir-se ou especular-se em investimentos. Apenas se especula nos instrumentos especulativos.

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Duvido que a maioria dos especuladores que tem comprado criptoativos saiba o que faz, nomeadamente os riscos que corre. Saberão, por exemplo, quem efetivamente decide mudanças nas regras do bitcoin? Perceberão que o bitcoin não é uma moeda? Compreenderão que o desempenho recente não tem obrigatoriamente de ecoar no futuro? Conhecerão o modelo de remuneração dos mineiros e a sua função no sistema de pagamentos? Terão consciência do tempo de espera e da taxa de confirmação numa transação com bitcoins?

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Não prevejo que o bitcoin desvalorizará: não sei qual a direção que o seu preço tomará no futuro e não quero especular nem fazer apostas. Torço para que um sistema descentralizado de pagamentos funcione, mas tenho muitas dúvidas que será o do bitcoin ou de qualquer outro criptoativo atualmente em circulação.

Numa investigação recente para o CFA Research Institute, Matt Hougan e David Lawant, especialistas da Bitwise Asset Management, a criadora do primeiro índice de criptoativos, analisaram cinco maneiras diferentes de calcular o valor justo do bitcoin. Equipararam o bitcoin ao ouro; introduziram-no num sistema monetário; apreçaram o valor da rede do criptoativo; aproximaram-no ao custo de produção; e desenvolveram um modelo de escassez.

No final, Hougan e David Lawant concluíram que “a triste realidade é que nenhum dos modelos propostos de avaliação [do bitcoin] é tão sólido ou academicamente defensável como a tradicional análise dos fluxos de caixa descontados para as ações ou os modelos de juros e crédito para a dívida.” Disseram que, no espectro dos métodos de avaliação, os criptoativos estão entre as mercadorias e os bens colecionáveis.

Se quer investir e não especular, sugiro que retire as suas emoções — ganância ou apetite pelo jogo — da equação. Verá que o bitcoin não tem crédito suficiente para entrar na sua carteira de investimentos.

Editor do boletim tlim, uma publicação eletrónica de finanças pessoais. Ex-jornalista. Colaborou durante 20 anos com mais de uma dúzia de publicações, do Expresso à Seleções do Reader's Digest. Não gosta de Economia. Está a escrever o seu terceiro livro sobre investimentos. Eterno aprendiz.

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