Se vamos à consulta para tratar a nossa saúde, porque não para cuidar da saúde financeira? Por ocasião do Dia Mundial da Poupança, a 31 de Outubro, fomos ao doutor aprender a poupar. 

Pode parecer estranho, mas tal como a nossa saúde também nas nossas finanças devemos apostar na prevenção. “A experiência mostra-nos que a procura de ajuda na gestão das finanças pessoais ocorre quando há problemas e, muitas vezes, apenas pedem apoio quando se sentem realmente sufocadas pela pressão dos credores”, explica João Raposo, um dos autores do livro Doutor Finanças. 

Assim como na saúde física uma pessoa deve estar atenta às boas práticas para prevenir as patologias, também na saúde financeira  quanto mais se investir na prevenção, melhor.

Pedimos a este especialista para nos simular um caso típico de alguém que recorre a ajuda financeira.

O casal Ramos (nome fictício) tem um crédito habitação, um crédito automóvel, três cartões de crédito e uma conta ordenado. Seria possível negociar qualquer um dos produtos de crédito, mas se nos focássemos apenas na Conta Ordenado e nos cartões de crédito, provavelmente estávamos a falar de uma média de taxas de juro a rondar os 17% ou 18%. Se recorrer a um financiamento pelo exato valor dos montantes em divida dos cartões e da conta ordenado é fácil ter um empréstimo com uma taxa de 11% ou 12%.

Crédito Consolidado

“A este tipo de operação chamamos de crédito consolidado”, refere. “Com esta opção, não estamos a aumentar a dívida e estaremos a pagar menos pelo mesmo montante. Podemos estar a falar de uma redução no total de prestações de casal Ramos na ordem dos 150€/mês (1800€/ano). Se além desta consolidação ainda negociassem um alargamento do crédito automóvel e/ou uma carência de capital do Crédito Habitação, então podemos dobrar ou triplicar o valor da poupança”.

Claro que ao alargar prazos poderemos tornar o custo total do empréstimo maior, mas se utilizarmos esta redução de prestações para poupar, conseguiremos amortizar antecipadamente o crédito consolidado.

Balança Positiva

Para prevenir situações como a do casal Ramos, o melhor conselho é poupar. E para o fazer não há nada como preparar o orçamento familiar. “A regra de ouro é garantir que a situação liquida é sempre positiva”, adianta o conselheiro financeiro, explicando que “a situação liquida é o resultado da conta: ‘total de receitas’ – ‘total de despesas’. Se este número é negativo, ou próximo do zero, significa que ao mínimo imprevisto não vamos ter receitas que cubram todas as responsabilidades financeiras”. É por isso que temos mesmo de ter uma boa balança com o prato das despesas mais leve que o das receitas.

Acabar com a dívidas

O que é preciso fazer para viver sem dívidas? Estabeleça um prazo e defina objetivos pequenos, mas atingíveis, que lhe permita liquidar as suas dividas. “A taxa de juro é a manifestação do custo do empréstimo, ou seja, em cada prestação que pagamos estamos a amortizar capital em dívida e a pagar o juro. Ora, se esse juro é na ordem dos 20%, significa que, mesmo que o total em divida não seja elevado, nós vamos demorar muito a acabar de a pagar, pois em cada prestação quase só pagamos juros”.

Do poupar ao ganhar

Para ganhar dinheiro, que tipo de investimentos se recomenda? O mais importante é que cada um conheça o seu perfil de investidor: conservador, moderado ou agressivo.

“Se não estou disposto a correr riscos de perda do capital, então não devo afastar-me de produtos do tipo Depósitos a Prazo ou Certificados de Aforro, mas é muito difícil ganhar dinheiro com este tipo de produtos. Se estamos a falar de um investidor com um perfil mais agressivo, os produtos de investimentos com mais risco têm uma expectativa de retorno maior”.

Há duas regras que devemos ter sempre presentes, quando estamos a falar de investimentos, segundo João Raposo. “Em primeiro lugar, não investir em alguma coisa só porque está na ‘moda’ e em segundo diversificar o tipo de investimentos”. Afinal, não se pode olhar para os produtos de investimento como se estivesse a apostar dinheiro no casino.

Manual da Poupança

 

Escrito por João Raposo e João Morais Barbosa, o livro Doutor Finanças – 3 passos para uma carteira saudável, lançado recentemente pela editora Matéria Prima, reúne um conjunto de estratégias para prevenir e corrigir doenças financeiras através o método dos três passos: Check Up, Tratamento e Manutenção. 

Entre outros assuntos, o livro aborda as principais causas do endividamento, casos reais de famílias portuguesas e estratégias de tratamento de “doenças financeiras”, com questionários para avaliar a sua situação.

Orçamento Familiar?

Conselhos a seguir: 

  • Trate a poupança como o pagamento a si próprio. Não poupe só se sobrar. Considere-a como a primeira despesa que tem no mês.
  • Depende mais de mim deixar de gastar 1€ do que ganhar 1€. Por isso, verifique com atenção as suas despesas para corrigir qualquer desequilíbrio do orçamento.
  • Envolva a família na gestão do orçamento familiar. Conforme a idade, cada um terá o seu contributo, mas a gestão da casa deve envolver todos, nomeadamente no controlo do desperdício.
  • A base de construção de um orçamento são as receitas. De nada serve enumerar as despesas se não souber, ao cêntimo, quais as receitas.
  • O dinheiro não tem propriedades mágicas que o façam desaparecer, nós é que podemos perder-lhe o rasto. Se tiver um orçamento familiar saberá sempre um pára o seu dinheiro
*Reportagem da publicação Dica da Semana, no dia 30 de Outubro de 2017.