jovens a gravar vídeo

Algumas vezes, trazemos para aqui documentários e minisséries que podem ser polémicos, especialmente no modo como são fabricados. Mas mesmo um filme tendencioso pode ter interesse, se visto com algum distanciamento. Será esse o caso desta minissérie, cujo título não poderia ser melhor para gerar cliques. «Má Influência: Quando as Crianças São Influencers» (2025) visa contar a história de Piper Rockelle, uma estrela do YouTube, e da sua mãe-agente, Tiffany Smith. Sem esquecer todos os outros colaboradores que, algures no tempo, fizeram parte da equipa que criou conteúdos capazes de gerarem milhões de visualizações.

Escola para quê, se posso ficar famoso na Internet?

Nuns poucos episódios, ficamos a conhecer por dentro um mundo que nos pode ter passado ao lado. Desde logo, como é que Piper conseguiu esse estatuto de estrela da Internet, sendo ainda uma jovem menor de idade? Que vídeos teve de fazer para ficar tão famosa? A história, no princípio, parece quase uma versão alternativa da Cinderela. Uma menina que cresce só com a mãe, que entra em concursos de beleza desde criança, que tem aulas de representação, canto e dança, que parece ter uma obsessão (instigada pela mãe) pelo sucesso e pela fama. E seria a transição para as redes sociais que acabaria por dar-lhe o tão desejado bilhete dourado. O documentário leva-nos então numa viagem pelas várias plataformas que marcaram os primórdios da Internet, até aterrarmos nos vídeos virais que criaram as primeiras estrelas infantis da era online.

O primeiro episódio centra-se, sobretudo, na ascensão de Piper. Ela era uma pré-adolescente com uma personalidade entusiasmante, que aparecia em vídeos a contracenar com outras crianças influenciadoras. Chamavam “Squad” ao grupo, que em português poderia ser a Equipa, o Elenco ou até, simplesmente, o Grupo. E era de facto um grupo de miúdas e miúdos que, de repente, por gravitar em redor da estrela maior, também passava a ter a atenção de milhões de pessoas. Uma atenção capaz, até, de mudar vidas. A escola, por exemplo, tornava-se algo secundário, até prescindível, perante o potencial dinheiro que se podia ganhar com vídeos no YouTube. A Internet podia equivaler a uma carreira. Ser influenciador, afinal, podia mesmo ser uma profissão muitíssimo lucrativa.

Bad influence

Leia ainda: Ser um aldrabão bem-sucedido (e sem remorsos)

Vídeos de adolescentes, vistos por adultos

Podia e pode. Mas, neste caso, a questão continua a ser o estarmos a falar de menores de idade. Já bem entrados no segundo episódio, assistimos à crescente fama do Squad. As crianças sentiam-se felizes com a atenção que recebiam. Sentiam-se bem com a fama. Sentiam-se bem por ir morar para Los Angeles, a cidade dos sonhos. E, ao mesmo tempo, iam crescendo. A fórmula de sucesso, essa, ia sendo afinada pela controladora mãe de Piper. Ei-los pré-adolescentes, a interpretarem conteúdos de paixonetas, um tipo de vídeos altamente popular. Pediam-lhes que fingissem estarem apaixonados por outro criador de conteúdos. Era quase garantido que um vídeo de “o primeiro beijo” se tornaria viral.

E, logo depois, já eram adolescentes. Ei-los forçados a agirem como se fossem mais velhos do que eram. Ei-los a desempenharem papéis cada vez mais sexualizados e a vestirem-se de forma mais provocante. Ei-los a verem-se em situações constrangedoras, porque o mundo ficcional que lhes era pedido para interpretar se tornava, de certa forma, a vida real deles. E, nessa vida real, ei-los a receberem atenções (e presentes) de fãs adultos.

As leis do trabalho não se aplicam online, certo?

Não é de estranhar que o restante da série relate a queda de um império. Nem que, perante o sucesso e o dinheiro, os adultos se tivessem desentendido. Claro que Tiffany, a mãe de Piper, é retratada como um monstro. E, perante algumas situações relatadas (e com provas em vídeo), não seremos nós a contrariar essa ideia. Segundo o que nos é mostrado, ela tratou de monetizar o sucesso da filha, fazendo acordos com marcas para exporem os seus produtos nos vídeos. Segundo parece, esse dinheiro não estaria a ser distribuído pelos outros membros da Squad. A contrapartida de aparecerem ao lado de Piper era obterem maior exposição; depois, eles que tentassem rentabilizar essa fama nos seus próprios canais. E isto mesmo que filmassem uma dúzia de vídeos por dia, com horários das dez da manhã até à meia-noite. Todos os dias. Tudo controlado por Tiffany; tudo filmado e editado por Hunter, uma espécie de seu namorado.

O trabalho dos jovens não contemplava horas para tarefas escolares nem pausas para alimentação. Aquilo era a Internet. Aquilo eram redes sociais, um mundo laboral que se achava sem regras, desprotegido, alheio às leis do trabalho. Para muitos membros do Squad, o que fora divertido passou a ser esgotante. Os vídeos, por sua vez, tornavam-se ainda mais brutos, mais desconfortáveis para os intervenientes. Gravava-se sob um ambiente stressante, entre insultos e intimidação. Tiffany era dada a ataques de raiva. As amizades entre os jovens desfaziam-se. Uns saíam e passavam a ser proscritos. Sofriam ataques nas redes sociais, após serem afastados do grupo de Piper.

Leia ainda: Uma jovem influenciadora bastante cerebral

Zangam-se as comadres que pouco pensaram nos filhos

Se existe esta minissérie, pois será porque onze dos ex-amigos de Piper, e os seus pais, naturalmente, decidiram apresentar queixa nos tribunais. A alegação é de que foram explorados. Que trabalhavam num ambiente tóxico. E até o FBI acaba por entrar em cena, após o processo judicial, para fazer a sua própria investigação e responder à pergunta no ar: estarão as crianças influenciadoras desprotegidas?

Apetece dizer que sim, mas desde logo pelos pais. O maior pecado desta minissérie, que toca um assunto importante dos nossos dias, será a forma como as mães ofendidas surgem no ecrã, principalmente para diabolizar Tiffany, sem assumirem, ou só assumindo ao de leve, culpas próprias. Essas mães parecem achar natural o facto de terem deixado os filhos dias e dias seguidos em casa de Piper, sem elas lá estarem, para gravarem vídeos para o YouTube. O deslumbre de uma criança e de um adulto com a fama (ou, no caso dos adultos, com o dinheiro) não deveria ser comparável.

Resta dizer que Piper Rockelle acabou por criar uma conta no site para adultos OnlyFans, pouco depois de o documentário ser emitido e de ela ter feito 18 anos. E, nesta história toda, talvez não seja ela a vilã.

Leia ainda: O reluzente mundo da geração Zoe

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

Cultura e LazerVida e família