Cultura e Lazer

A ganância é boa, segundo Gordon Gekko

"Wall Street" deu ao cinema uma das suas personagens mais míticas: Gordon Gekko. O vilão que foi, para muitos, uma fonte de inspiração.

Neste passeio por Wall Street, entramos numa sala de cinema para uma sessão dupla dedicada ao mercado bolsista e uma conversa sobre a personagem que ficou famosa pelas razões contrárias ao esperado.

Situada em Manhattan, a estreita Wall Street estende-se por oito quarteirões, mas ganhou um significado que extravasa fronteiras físicas para representar todo o mercado financeiro norte-americano e respetivos serviços associados. Mais do que isso, o bairro de Wall Street é considerado o maior centro financeiro do mundo; muitos encaram-no até como o coração pulsante do sistema capitalista.

Naqueles edifícios altos, entre condomínios e restaurantes de luxo, encontram-se reunidos bancos comerciais, agências de corretagem, empresas seguradoras, o Banco da Reserva Federal, a sede da Bolsa de Valores de Nova Iorque, o Edifício Trump. É também um local cheio de história, ou não fosse o sítio em que George Washington fez o juramento que o tornou o primeiro presidente dos Estados Unidos, em abril de 1789. E “Wall Street” é também nome de um filme que deu ao cinema uma das suas personagens mais míticas: Gordon Gekko.

O piso da bolsa como um tanque de tubarões

Realizada por Oliver Stone, a película de 1987 surge em várias listas de filmes para ver antes de morrer. A história resume-se em poucas linhas: Bud Fox (Charlie Sheen) é um jovem corretor de bolsa que não olha a meios para tentar chegar ao topo – se for preciso, infringindo até as leis que regulam o mercado –, associando-se para tal a Gordon Gekko, um investidor ganancioso.

“Wall Street” pretendia evidenciar o lado implacável do mercado acionista e, para o conseguir, as cenas na bolsa de valores estão filmadas em movimentos frenéticos, próprios de uma zona de guerra. As conversas entre corretores mais parecem um confronto físico e Stone queria que o espectador se sentisse dentro de um tanque cheio de tubarões. Todo este frenesim contrasta com a imagem estática das cenas com Carl Fox, pai do jovem Bud, por este representar valores e princípios mais sólidos. (Curiosamente, Martin e Charlie Sheen, pai e filho na vida real, foram pai e filho no ecrã). Porém, apesar das intenções, a fama recairia numa frase lapidar de Gordon Gekko: “A ganância é boa”.

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Objetivo de carreira: Ser um Gordon Gekko

Nesta espécie de conto moral, Gekko tinha tudo para ser um supervilão, um símbolo do mal. Contudo, para alguns jovens, a figura do empresário transformar-se-ia numa fonte de inspiração, não apenas no modo peculiar de vestir – camisa engomada, suspensórios, gravata –, mas também na ideologia e num objetivo de carreira.

Em vez de um homem manipulador e sem escrúpulos, havia quem descobrisse naquela personagem alguém capaz de dizer as verdades, fosse através de uma citação da “Arte da Guerra”, de Sun-Tzu, fosse por um objetivo de carreira, medido por uma ambição sem limites. “A ganância está correta. A ganância funciona”, assegurava Gekko. A ganância capturava a essência do espírito evolucionista; seria a salvação de empresas mal geridas e até dos próprios Estados Unidos.

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Um Óscar maldito?

Michael Douglas receberia um Óscar pelo seu desempenho. Mais tarde, confessaria ficar triste sempre que um corretor lhe dizia que fora o filme, ou mais especificamente a sua personagem, a incitá-lo a fazer carreira em Wall Street. O realizador também se mostraria desagradado com o facto de algumas pessoas não compreenderem a mensagem pretendida. Afinal, era suposto que se ficasse do lado de Carl Fox, em vez de idolatrar Gekko!

Em 2010, Michael Douglas e Oliver Stone juntaram-se para um novo filme. Em “Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme”, o recém-saído da prisão Gordon Gekko procura aliar-se ao seu futuro genro, um corretor da bolsa cheio de ideais, na tentativa de reconstruir o seu império económico. Na preparação para o seu papel, o jovem ator Shia LaBeouf trabalhou ao lado de corretores e especialistas do mundo financeiro e, segundo o site imdb.com, chegou a investir 20 mil dólares que converteu em ganhos superiores a 400 mil dólares. Mas ainda mais interessante é o facto de 90% das pessoas que LaBeouf conheceu durante essa fase de estudo da personagem terem afirmado que a escolha da área da economia e das ações fora determinada por causa de… Gordon Gekko.

Mesmo sem sucesso, o dinheiro nunca dorme

Oliver Stone seria convidado a tocar a sineta matinal que dá início às transações na bolsa Nasdaq, como forma de assinalar a estreia nova-iorquina do novo filme. O sucesso anterior, no entanto, não viria a repetir-se. E, de entre as novas falas de Michael Douglas que poderiam ter ficado na história, como aquela em que refere que “a única coisa que aprendi na cadeia é que o principal bem na vida não é dinheiro; é o tempo”, a que ecoaria mais vezes parecia exaltar, novamente, o lado vilanesco do personagem. “O dinheiro é uma cabra que nunca dorme”, disse Gordon Gekko. E a frase eternizou-se num credo simplificado: “o dinheiro nunca dorme”.

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Paulo M. Morais cresceu a jogar futebol de rua e a ouvir provérbios ditos pelas avós. Licenciou-se em Comunicação Social e especializou-se nas áreas do cinema, dos videojogos e da gastronomia. É autor de romances e livros de não ficção. Coleciona jogos de tabuleiro e continua a ver muitos filmes. Gosta de cozinhar, olhar o mar, ler.

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