A história do mundo sempre conheceu períodos turbulentos, entre outros de maior pacificação, mas não deve existir nenhum indivíduo que, nalgum momento da sua vida, não tenha passado por uma sensação de desespero. Afinal, somos todos humanos. Claro que, convenhamos, nem todas as dificuldades são comparáveis. Segundo a sabedoria popular, «cada qual sabe onde lhe aperta o sapato». E vale a pena citar a explicação deste ditado, incluída no Dicionário de Provérbios, Locuções e Ditos Curiosos, publicado pelo Reader’s Digest:
“Pessoas que nos parecem despreocupadas e felizes também têm, como nós, seus problemas e desventuras, que não percebemos, assim como não sabemos se uma pessoa que encontramos na rua sofre resignadamente o incómodo que lhe causa um sapato apertado. Só ela mesmo pode dizê-lo.”
O calvário das dificuldades
Já que estamos na rua, saiba-se que «caminho plano não leva ao céu». Mas, enfim, há ladeiras que preferíamos não ter de subir. São aqueles momentos que o povo resume com um «aqui torce a porca o rabo», que Paulo Perestrello da Câmara, na sua coleção de anexins datada de 1848, traduz como “objeto de interpretação dificultosa. cousa difícil de superar”. Nas situações mais complicados, é comum «comer o pão que o Diabo amassou», que o mesmo autor define como “passar trabalhos, dificuldades”. As pessoas ficam «entre a espada e a parede», sem conseguir discernir uma escapatória. Até porque, muitas vezes, «uma desgraça nunca vem sozinha», que R. Magalhães Júnior, no dicionário das Seleções do Reader’s Digest, define de forma premonitória: “Este provérbio diz que quando um infortúnio nos atinge, devemos contar com outros acontecimentos desagradáveis, a começar pela falta de solidariedade de pessoas que, em outras ocasiões, pareciam amigas e solícitas”.
Mas será que nos milhentos anexins não se conseguem encontrar ditos esperançosos? Claro que sim, e muitos ainda usados de forma generalizada. Toda a gente sabe, por exemplo, que «depois da tempestade, vem a bonança», rifão que o mesmo R. Magalhães Júnior assim explica: “Mostra o provérbio que mesmo as dificuldades mais terríveis são passageiras, voltando os períodos de desafogo e tranquilidade depois dessas crises ocasionais”.
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Bolsa de provérbios otimistas
Às vezes, porém, quando se está no fundo do poço, é difícil acreditar nesses melhores tempos. Eis, então, mais uns quantos anexins que talvez sejam capazes de nos devolver a esperança. Ou, pelo menos, mitigar um pouco o mau momento.
«As desventuras são a escola da sabedoria.»
«Do espinho que pica nasce a rosa com que seremos coroados.»
«O que mais custa, melhor sabe.»
«Quem sem dificuldades vence, sem prazer triunfa.»
«Todas as coisas são difíceis, antes de se tornarem fáceis.»
Agora, um pouquinho mais aliviados e otimistas, talvez possamos voltar à questão inicial dos sapatos para conhecer aquelas pessoas que costumam exagerar os seus apertos. Ou que até, mesmo que inconscientemente, os procuram… Aqueles que até parecem gostar de «arranjar sarna para se coçar», os que não perdem uma oportunidade de «meter-se em assados» ou, noutra versão, «meter-se numa alhada». Esses que parecem propícios a que tudo lhes aconteça, mas não propriamente por puro azar, até podiam encontrar ajuda nos ditados populares. «Quem quiser andar pouco e mal, meta-se no areal», avisa-se, e lá vão eles na mesma escolher o caminho que vai dar errado. E lá acabam os amigos e os familiares a comentar: «Meteu-se em camisa de onze varas», que, como explica Perestrello da Câmara, equivale a meter-se “no que não sabe, pelo que não pode responder, em objeto que lhe excede as forças”.
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Esperar pelo bom tempo
Há, de facto, alturas em que tudo fica «pesado como chumbo». Até porque «para baixo todos os santos ajudam; para cima, nenhum empurra». Que se regresse, então, aos adágios capazes de gerar um rasgo de esperança. E, enfim, que nalgumas situações menos graves se tente não fazer de tudo um «bicho-de-sete-cabeças». Já agora, este bicho, de acordo com a definição de R. Magalhães Lemos, é uma alusão ao monstro que Hércules derrotou; mas, se este herói da mitologia grega não virou a cara aos desafios que teve de enfrentar, o rifão quer significar exatamente o contrário, referindo-se àqueles que exageram uma dificuldade, “por falta de disposição para realizar uma tarefa ou enfrentar uma responsabilidade”.
Enfim, feitas as contas às dificuldades reais e às exageradas, aos períodos turbulentos e às ansiadas acalmias, fiquemos com um último ditado em forma de desejo: «Vão-se os anéis, mas fiquem os dedos». E deixemos as palavras finais para a explicação do ditado, providenciada pelo mesmo Magalhães Júnior, no mesmo dicionário do Reader’s Digest: “A Locução significa que as perdas materiais não nos devem levar ao desespero, quando se consegue ainda salvar alguma coisa de um desastre que poderia ter sido muito pior”.
Assim seja, se possível, para todos.
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