Já apresentamos neste espaço a vida e obra de Charles Ponzi, o homem que, na Boston de 1919, elaborou um fabuloso esquema de enriquecimento ilícito. Viviam-se então os tempos difíceis de recessão económica do pós-I Guerra Mundial, e o método de Ponzi, que prometia aos investidores lucros tão incríveis quanto rápidos, acabaria por tornar-se um clássico entre os vigaristas, ressurgindo uma e outra vez, com diferentes roupagens, planos de investimento cada vez mais prometedores e instrumentos financeiros “excessivamente complexos”. O princípio, porém, é sempre igual: um esquema de pirâmide, no fundo, não passa de uma mão cheia de nada. Menos para quem o idealizou.
Sentir na pele o arrepio das fraudes financeiras
Todos sabemos que uma coisa é a teoria, outra é a prática. Pois bem, em «Ponzi Scheme» (2015), podemos ser nós os agentes das fraudes financeiras. O nosso papel, neste tabuleiro, passa por angariar fundos junto dos bancos para o nosso esquema de pirâmide, sustentado na alegação de andarmos a investir em várias indústrias. Será preciso especificar que esses investimentos são falsos? São, mas o grande intuito do jogo é passarmos despercebidos durante o máximo de tempo possível. Ou seja, aqui é tudo ilegal, imoral e… perfeitamente dentro das regras e objetivos do jogo!
O início revela logo como estamos num mundo ao contrário. A definição de quem é o primeiro a jogar passa por um conceito simples: será aquele que for o melhor a cumprir as suas promessas. Mas, tanto esse jogador certinho, como os outros mais malandros, começarão a partida sem qualquer dinheiro na mão. As notas (que têm a efígie de Charles Ponzi), bem como as participações fictícias nas indústrias, terão de ser ganhas ao longo da partida.

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Que acha do meu portefólio de investimentos fictícios?
É na fase de angariação que se obtêm cartas de fundos e de participações numa das quatro indústrias existentes: Transportes, Cereais, Comunicação Social e Imobiliário. As cartas de fundos providenciam dinheiro fresco e determinam a data e o valor dos juros a serem pagos aos investidores. E, se há informações que ficam à vista de todos os que estão à volta da mesa, o dinheiro que se vai recebendo fica escondido atrás dos biombos de cada vigarista.
Na fase das transações clandestinas, fazem-se ofertas aos outros jogadores com vista à obtenção de informações privilegiadas. Suponhamos que eu tenho dois títulos de Cereais e quero fazer uma proposta a alguém que tem um título de Cereais. Nada mais fácil. Meto uma determinada quantia dentro de um envelope e passo-o ao vigarista com quem quero transacionar. Ele inspeciona as notinhas e, das duas uma: ou vende, retirando o dinheiro e pondo o título da indústria que eu quero no envelope; ou faz uma contraproposta, dobrando o dinheiro que estava no envelope, antes de o devolver. O resultado da contraproposta é que fico eu sem o título fajuto de Cereais… mas com mais dinheirinho para pagar dividendos. Em qualquer dos casos, o segredo será a alma do negócio. Os jogadores envolvidos nas transações clandestinas nunca devem revelar ou discutir os valores em causa; é desse modo que o dinheiro escondido atrás dos biombos se vai tornando uma incógnita para todos.

Isto só avança se ninguém for à bancarrota!
Num jogo que simula os tempos de Charles Ponzi não podiam faltar as quedas da bolsa de valores. Tal acontece quando a quantidade de cartas de fundos “bear” (urso) são em número igual ou superior ao número de jogadores. Nesse momento de mercado em baixa, todas as cartas com o símbolo do urso são retiradas. Depois, reabastece-se o mercado de fundos, mas a consequência da queda abrupta não se faz esperar: cada jogador é obrigado a descartar um dos seus títulos de indústria. Num instante, e já estamos no momento da verdade: o turno em que se tem de pagar os juros ao banco. Convém, nesta fase, que todos disponham de fundo de maneio. Quando alguém não puder cumprir as suas obrigações, aqui não há empréstimos de urgência: declara falência e a partida termina imediatamente para todos. Só se todos os vigaristas conseguirem pagar os juros é que se avança para nova ronda, numa bola de neve que vai crescendo, crescendo, crescendo, até não ter mais para onde crescer. Para simular a impossibilidade de um esquema de pirâmide funcionar eternamente, as cartas de fundos que adquirimos nunca saem da nossa vista. «Por outras palavras, cada carta de fundos que tiver irá sempre regressar para o atormentar, após um número fixo de rondas, mas só receberá dinheiro do banco uma única vez!»
Enfim, se alguém foi à bancarrota, então é hora de determinar as pontuações finais. Os vigaristas sobreviventes são avaliados de acordo com os títulos que possuem em cada indústria e pelo dinheiro que têm escondido atrás dos seus biombos. E se todos os participantes declararem bancarrota na mesma ronda? Bem, então ninguém ganha; falharam todos no exame de estarem à altura de ser um Charles Ponzi.
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Psiu… eu conto-te o meu segredo, se me contares o teu
A última página do livro de regras, felizmente, providencia algumas dicas para nos tornarmos um vigarista bem-sucedido. Na fase das transações clandestinas, por exemplo, caso as nossas ofertas sejam sistematicamente alvo de contrapropostas, então será porque estaremos a apreçar os títulos demasiado por baixo. Mas, se obtivermos sempre o que pretendemos, então é provável que estejamos a pagar demasiado pelos falsos investimentos. «Será preciso continuar a fazer transações com os outros jogadores para explorar o tipo de preços que eles têm em mente».
Mas uma das sugestões não deixa de ser intrigante. As regras permitem que se use calculadora e se tirem notas durante o jogo. Mas será benéfico fazê-lo? «É livre de usar a calculadora», determinam os criadores do jogo, «mas isso não será grande ajuda. Estranhamente, os jogadores que usam calculadoras têm maior tendência a entrar em bancarrota e a perderem o jogo.» E quanto aos apontamentos? «Encorajamos a que tire apontamentos durante a partida. Será uma experiência interessante partilhar as suas observações com os restantes jogadores.»
A troca de informações entre vigaristas é até encorajada, pois, quanto mais tempo todos aguentarem, mais o jogo se prolonga. E mais dinheiro se ganha à custa dos bancos, suficientemente crédulos para investir num tabuleiro que evoca o nome de Charles Ponzi. Não estava na cara que éramos uma fraude?!
