Bomba de combustível

As tensões geopolíticas internacionais podem fazer subir o preço dos combustíveis. Nem sempre é certo que isso aconteça, até porque há vários fatores com influência nessa possível escalada, desde a duração do conflito até ao local onde acontece.

Quando afeta zonas relevantes para o mercado mundial de petróleo, os riscos são maiores. Foi o que aconteceu em 2022, com a invasão da Ucrânia, em 2025, quando Israel atacou o Irão, e novamente em 2026, após a ofensiva americana e israelita em território iraniano.

Isto acontece porque o mercado do petróleo reage não só ao que está a acontecer no momento atual, mas também ao que pode vir a acontecer nas semanas ou meses seguintes. E sempre que há riscos em zonas críticas os preços tendem a reagir.

Mas se a gasolina e o gasóleo com que estamos a abastecer os veículos já estavam no posto, porque é que o preço sobe?

Preços dos combustíveis reagem ao custo futuro

O mercado dos combustíveis é complexo. Entender a mecânica dos preços pode não ser óbvio à primeira vista.

Afinal, se o combustível que está no posto de abastecimento já foi comprado há algum tempo, a um preço mais baixo, porque é que sobe quase imediatamente quando surge uma crise petrolífera? Não devíamos pagar mais apenas quando o combustível adquirido a um valor mais elevado chegasse ao posto?

A verdade é que o mercado funciona de outra maneira. Os preços dos combustíveis sobem quase ao mesmo tempo que aumenta o preço do barril porque se começa logo a antecipar o custo de reposição do stock.

No fundo, os consumidores pagam hoje aquilo que se espera que venha a ser o custo de restabelecimento do stock no futuro.

Em Portugal, a atualização dos preços dos combustíveis acontece à segunda-feira e vai ser influenciada pelas cotações da semana anterior.

O caso do Estreito de Ormuz, em 2026

Um exemplo do impacto dos conflitos é a tensão no Médio Oriente, que aumentou o risco na travessia do Estreito de Ormuz, um canal por onde passa cerca de 20% do petróleo transportado por via marítima.

O aumento das ameaças e dos ataques na região tornou a passagem mais difícil, levando muitos navios a evitar temporariamente a zona.

Quando existe o risco de perturbações nesta rota, o mercado assume imediatamente que pode haver menos petróleo disponível ou que o transporte será mais caro.

Esses receios mexem com todo o mercado, mesmo em regiões menos dependentes do fornecimento do Médio Oriente, como é o caso da Europa e de Portugal. De forma simples, se falta um produto num ponto do mundo, o mesmo produto noutro ponto passa a valer mais.

E este efeito também se aplica ao Brent, o crude do Norte da Europa, e que é uma das principais referências nos mercados internacionais. Como muitos compradores procuram barris alternativos ao Médio Oriente, aumenta a procura pelo petróleo de outras origens, incluindo o que segue a referência Brent.

Quando a procura sobe, o preço de referência sobe também, e isso acaba por refletir-se no preço dos combustíveis.

No caso português, os principais fornecedores de crude têm sido o Brasil, a Argélia e os Estados Unidos, e no produto refinado destaca-se Espanha, de acordo com o último relatório “Energia em Números” da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), relativo a 2024.

Já na União Europeia, as maiores origens recentes foram a Noruega, os Estados Unidos e o Cazaquistão. Ou seja, apesar de Portugal e da Europa não dependerem diretamente do Médio Oriente, dependem de um mercado global onde o preço reage ao risco.

Preço dos combustíveis vai além do custo do petróleo

Apesar do impacto que os conflitos geopolíticos têm, os preços dos combustíveis não dependem apenas do valor do petróleo. Há várias componentes que influenciam aquilo que se paga.

Todas as semanas, a ERSE publica o relatório de preço eficiente, o valor médio determinado por esta entidade. É útil não apenas para saber se está a pagar um preço justo pelo combustível, mas também para perceber de que forma é que o preço é composto.

Ao analisar várias semanas, é possível perceber que, com mais ou menos oscilações, os impostos representam cerca de 50% daquilo que se paga para abastecer.

Em segundo lugar, com um peso que pode rondar os 30% a 40% está a cotação da gasolina e do gasóleo nos mercados internacionais (média aritmética simples da semana anterior) e o respetivo custo de transporte. Assim, a cotação dos produtos derivados é mais importante do que a cotação do próprio crude, embora haja uma natural relação entre todos.

A completar o preço dos combustíveis estão ainda a logística primária, incluindo as reservas estratégicas e de segurança do Sistema Petrolífero Nacional, os sobrecustos com a incorporação de biocombustíveis e a componente de retalho.

Mas o preço dos combustíveis não afeta apenas o que pagamos quando abastecemos. O impacto estende‑se a muitos aspetos do nosso dia a dia.

Leia ainda: O que influencia o preço dos combustíveis?

Não é só abastecer o carro que fica mais caro

Sempre que o preço dos combustíveis aumenta de forma significativa e prolongada, esse efeito espalha‑se por vários setores e acaba por chegar ao consumidor de diferentes maneiras.

Antes de um produto chegar ao supermercado, há todo um processo que envolve energia e deslocações.
Os legumes precisam de ser colhidos e transportados. A roupa é produzida, embalada e distribuída. Os bens essenciais percorrem quilómetros em camiões.

Se o custo de transporte aumenta devido ao preço dos combustíveis, é natural que parte desse aumento acabe refletido nos preços finais.

E nem as compras online estão livres desta pressão. Quando os custos com combustível sobem, as transportadoras podem ter de ajustar os preços cobrados às empresas. Por sua vez, o vendedor pode ter de refletir esse custo extra no valor da entrega ou até no próprio produto.

No início, alguns negócios conseguem absorver parte destes aumentos, reduzindo temporariamente a margem de lucro. Mas, se o preço dos combustíveis se mantiver elevado durante várias semanas, a pressão acaba por chegar ao consumidor.

Leia ainda: Preço de combustível: Qual o impacto no dia a dia?

Perguntas frequentes

Não. A cotação do petróleo (mais os custos de transporte do crude) ocupa uma fatia de menos de 30% do preço. Os impostos são os que mais pesam no preço final (cerca de 50%).

Principalmente oferta, fraca e eventos geopolíticos temporários.

O barril de petróleo corresponde, aproximadamente, a 159 litros.

Brent e WTI são dois tipos de petróleo usados como referência global:

  • Brent: extraído no Mar do Norte, é o benchmark para Europa, África e parte da Ásia. Tem densidade média e baixo teor de enxofre.
  • WTI (West Texas Intermediate): produzido nos EUA, é mais leve e com teor de enxofre ainda menor, sendo referência para o mercado norte-americano. Historicamente, o WTI costuma negociar com um pequeno desconto em relação ao Brent, devido a questões logísticas e capacidade de exportação.

O preço do petróleo influencia diretamente:

  • Combustíveis: gasolina e diesel ficam mais caros, aumentando custos de transporte.
  • Produtos e alimentos: como dependem de transporte, os preços sobem quando o petróleo encarece.
  • Energia elétrica:em países que usam derivados de petróleo para gerar eletricidade, as contas de luz aumentam. Esse efeito cascata contribui para inflação, reduzindo o poder de compra das famílias e pressionando orçamentos.

O petróleo é uma das matérias-primas mais estratégicas do mundo:

  • Energia: principal fonte para transporte e geração elétrica.
  • Indústria: base para plásticos, fertilizantes, produtos químicos e farmacêuticos.
  • Geopolítica: países produtores têm influência global; oscilações de preço podem desencadear crises económicas.
  • Impacto macroeconómico: preços altos aumentam custos e inflação; preços baixos reduzem receitas de exportadores. Apesar da transição para renováveis, o petróleo continua a ser o “sangue” da economia mundial.

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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