Vivemos tempos em que o salário parece evaporar antes de o mês terminar. E não, não é só quem ganha pouco que sente esta pressão. A ideia de que rendimentos acima da média resolvem automaticamente os problemas financeiros é confortável, mas será mesmo assim?

O salário médio em Portugal ronda os 1.500 a 1.700 euros brutos mensais, segundo dados do INE referentes ao segundo trimestre de 2025. À primeira vista, pode parece razoável. Mas basta viver numa grande cidade para perceber que este valor é rapidamente engolido por rendas, transportes, alimentação e outras despesas fixas. Ou seja, mesmo com rendimentos acima da média, muitas famílias veem-se com margem reduzida para poupança ou imprevistos.

Mesmo quem ganha acima da média vê-se, muitas vezes, sem margem para poupar ou enfrentar imprevistos. O problema não está apenas no valor do salário, mas na forma como o gerimos – e nas pressões sociais que nos empurram para um estilo de vida que nem sempre conseguimos sustentar.

Vivemos numa sociedade onde o sucesso ainda se mede pelo que se vê: carro novo, casa espaçosa, férias anuais, jantares fora. Mas há um custo, e não é só emocional. É financeiro. Para manter esta imagem, muitos recorrem ao crédito: cartões, empréstimos pessoais, crédito automóvel. Cada prestação é menos dinheiro disponível no fim do mês. E assim se instala o paradoxo: mais rendimento, menos segurança financeira.

“Salário gordo, conta magra”: O que está a acontecer?

Quem nunca se perguntou “para onde foi o dinheiro este mês”? Muitas vezes, a resposta está nos pequenos gastos do dia-a-dia: refeições fora, apps de subscrição, gadgets, pequenos luxos. Tudo somado, pesa – e muito!

Este é o fenómeno da chamada “inflação do estilo de vida”: à medida que o rendimento sobe, também sobem (e por vezes disparam) as despesas não-essenciais. Sem controlo, o saldo final não difere muito de quem ganha menos. E o risco é maior: quanto mais alto o padrão, mais difícil é abdicar dele.

Cerca de metade dos portugueses não consegue poupar regularmente, de acordo com o barómetro de hábitos financeiros desenvolvido pelo Doutor Finanças e pela Universidade Católica. E entre os que conseguem poupar, muitos não têm reservas suficientes para suportar três meses de despesas, segundo o Estudo do Bem-Estar Financeiro (Doutor Finanças e Laicos).

Basta uma avaria, uma doença ou uma perda de emprego para entrar num ciclo difícil de quebrar, onde o crédito é a saída mais rápida, mas também a mais cara.

Como quebrar este ciclo?

Não há fórmulas mágicas, mas há escolhas conscientes. Aqui ficam cinco sugestões práticas:

  • Fazer um orçamento realista – Anote todos os rendimentos e despesas – da renda ao café da manhã. Pode usar apps, Excel ou até papel e caneta.
  • Defina prioridades – Precisa mesmo de trocar de carro este ano? Ou a prioridade deve ser criar um fundo de segurança?
  • Evite crédito de consumo para gastos supérfluos – O crédito deve ser uma ferramenta para investir (casa, educação), nunca para manter aparências.
  • Crie um fundo de emergência – Poupe todos os meses, mesmo que pouco. Objetivo mínimo: ter o equivalente a 3 a 6 meses de despesas fixas guardado.
  • Fale abertamente sobre dinheiro – Converse em casa sobre orçamento e objetivos. Muitas vezes, há pressões invisíveis para manter padrões que ninguém consegue realmente sustentar.

Viver com conforto não tem de significar viver no limite. E talvez esteja na hora de redefinir o que entendemos por sucesso, começando pela liberdade de escolher, e não pela obrigação de manter. Mais importante do que o valor do salário é o que fazemos com ele.

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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