O burnout consiste num estado de exaustão física e emocional que deriva da dedicação a uma causa, estilo de vida ou relação que, de alguma forma, não corresponde às expectativas. Acaba por poder ser considerado uma forma de fadiga generalizada em relação a um contexto específico e que pode também, ao contrário do que é a crença popular, ser aplicado à parentalidade.

É diferente de stress no sentido em que este é uma resposta imediata a uma situação desafiante: o burnout é antes resultado de exposição a stress prolongado.

O burnout parental não é, infelizmente, incomum. Também não é o mesmo do que uma depressão, apesar de os sintomas poderem ser semelhantes (falaremos sobre eles de seguida). Não significa que não se ama os filhos nem que se é um pai ou mãe falhado ou sem capacidades! Pela nossa saúde mental, não é algo de que devamos ter vergonha e é importante procurar ajuda o quanto antes, de modo a que o quadro não se agrave.

Esta situação vem muitas vezes carregada de culpa, de expectativas falhadas e de uma sensação constante de já não conseguir chegar a todo o lado, pelo menos de uma forma saudável. É importante sabermos que não estamos sozinhos e que se não cuidarmos de nós, não vamos, com certeza, conseguir cuidar dos nossos filhos.

Quando um pai ou mãe se encontram em burnout, existe uma sensação de exaustão emocional que teima em não passar, uma sensação de distanciamento emocional e perda de eficiência no papel parental, o que acaba muitas vezes por evidenciar um grande contraste com o self parental anterior.

Quais os sintomas a que devo estar atento?

Alguém que está a entrar ou a vivenciar um burnout parental sente frequentemente culpa e vergonha pelo sofrimento por que está a passar, o que pode atrasar o pedido de ajuda. Existe uma constante sensação de incapacidade em relação à expectativa que o próprio tem em relação ao seu papel como cuidador, assim como um cansaço e exaustão que não passam e que são agravados em situações de elevado stress.

Este sofrimento é ligado ao papel de pai e mãe, mas, se não tratado, pode alargar-se a outras áreas da vida e, eventualmente, levar a quadros de depressão e ansiedade. Outros sinais a que devemos estar atentos (e que podem ser indicadores não só desta, mas de outros quadros de saúde mental) são:

  • Alterações do apetite;
  • Perturbação do sono;
  • Comportamentos aditivos;
  • Maior ansiedade, irritabilidade e reduzida tolerância à frustração;
  • Mais conflitos conjugais;
  • Necessidade recorrente de fugir e ideação suicida.

Quando um cuidador se encontra em burnout parental e não é ajudado, a situação pode evoluir para negligência parental e, em casos extremos, violência para com a criança ou jovem, colocando-a em risco. Assim sendo, cuidar o burnout parental não é apenas sobre ajudar o adulto, mas também sobre proteção dos mais novos.

O que fazer se nos sentirmos assim?

Eu até voltava atrás. Pensemos primeiro: o que é que podemos fazer para NÃO chegar a esta situação?

  • Baixar as expectativas demasiado elevadas: nenhum pai, nenhuma mãe consegue chegar a todo o lado todos os dias. Ter um filho é quase como escolher onde vamos falhar. Porque vamos falhar, provavelmente todos os dias. Quanto mais cedo aceitarmos isso, mais rapidamente poderemos fazer mudanças efetivas para chegarmos mais perto dos pais que queremos ser. Quando fizermos/dissermos algo de que não nos orgulhamos, digamos a nós mesmos: “Foi tudo o que consegui dar agora. O que posso fazer diferente da próxima vez?”
  • Pedir apoio e delegar: o que é que pode ser o/a companheiro/a a fazer? O que podem ser os avós? O que pode ser feito online em vez de presencialmente? Tudo o que lhe possa facilitar a vida é bem-vindo.
  • Tirar tempo para nós mesmos: é um ensinamento muito valioso para os nossos filhos – merecem cuidar de si antes de cuidar dos outros. Podemos dizer-lhes que precisamos de uma pausa e devemos ser bastante assertivos em relação a isso. Uma vez mais, utilizemos quem temos à nossa disposição: parceiro/a, avós, amigos, babysitters. Voltaremos com baterias recarregadas, ou quase…
  • Tirar tempo para o casal (se for o caso): sejam o pai e mãe ou um parceiro com quem refez a vida. Todos os pais e cuidadores merecem ser felizes no amor (e amizades!) e há que reservar momentos especiais para isso, o que ajuda até a alinhar a parentalidade!
  • Tentar(o mais possível!) manter padrões saudáveis de sono, alimentação e exercício físico.
  • Pedir a alguém específico para estar atento: podemos pedir a um amigo ou familiar que esteja atento a sinais de exaustão, tristeza, desinteresse e desregulação emocional, combinando que nos dirão, de forma empática, se virem que apresentamos algum destes sinais de forma persistente.

E se já estamos tão embrenhados que temos a certeza que não há volta a dar?

Se o sofrimento psicológico está a tornar-se muito impactante, é hora de procurar ajuda médica e psicológica. Para além de ser importante tentar cumprir todos os pontos expostos atrás, é importante aconselhar-se sobre tirar um tempo de pausa mais longo (por exemplo, um período de férias longe dos filhos), pois curtas pausas já não serão suficientes para colmatar o burnout. Quando existe um quadro arrastado, este pode já ter muito impacto na forma como olhamos para nós mesmos enquanto pessoas, pais e, recorrentemente, na forma como olhamos e sentimos os nossos filhos.

É importante sermos avaliados para quadros psicológicos mais graves, considerando a necessidade de intervenção farmacológica. Pessoas que se encontram com esta sensação de poço sem fundo, não vão muitas vezes conseguir ultrapassar as suas dificuldades sozinhas, nem é suposto que isso aconteça. Intervenção psicológica pode ser fulcral para adaptar estratégias específicas às idiossincrasias de cada um. E há, sim, volta a dar!

Para o fim desta crónica, deixo como sugestão o seguinte exercício: pense em três coisas que gostaria de melhorar enquanto pai ou mãe. Agora pense num pequeno (pequeno mesmo!) passo que poderia tomar em cada um desses aspetos.

Agora, e mais importante: diga em voz alta cinco coisas que aprecia em si enquanto pai ou mãe. Aposto que este último é mais difícil… e repare como sugeri mais coisas boas do que coisas a melhorar.

Precisamente porque é mais difícil, é mais importante treinar. Estamos programados para pensar mais rapidamente no negativo, é um mecanismo de sobrevivência. Mas se vivermos sempre assim, vamos acabar cansados e, quem sabe, doentes…

“No início da maternidade achava que a minha principal tarefa era educar os meus filhos. Depois percebi que é educar-me a mim mesma.” Mikaela Oven

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A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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