Os mercados acionistas globais registaram um desempenho muito favorável em 2025, conseguindo o terceiro ano consecutivo de valorizações significativas, mas os analistas mostram uma confiança quase unânime de que vão repetir a tendência em 2026, embora com variações mais contidas.
Os argumentos para o otimismo no novo ano são praticamente os mesmos que justificaram o forte desempenho em 2025. A adoção mais intensa e generalizada da Inteligência Artificial, o alívio da política monetária da Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed), a evolução resiliente da economia global e a aceleração do crescimento dos resultados das empresas são os fatores mais citados nas notas de research com a antevisão para os mercados em 2026.
Do lado negativo, mantêm-se vários dos fatores que já estiveram presentes em 2025 e continuam a representar riscos para a tendência altista que perdura desde o final de 2022. As tarifas de Donald Trump continuam a ser uma ameaça ao crescimento económico e à inflação, a política monetária da Fed pode permanecer em terreno restritivo e os eventos geopolíticos podem agravar a instabilidade global. A possibilidade de rebentar a bolha na Inteligência Artificial é o risco mais temido pelos investidores e o que pode colocar em causa toda a narrativa otimista dos analistas para o próximo ano.
Índices com valorizações de dois dígitos
Apesar da lista de contrariedades, quase todos os índices acionistas fecharam 2025 com valorizações de dois dígitos e a negociar em território de máximos históricos. O MSCI ACWI, que mede o desempenho das ações globais, avançou mais de 22% em 2025, no terceiro ano consecutivo de ganhos em torno de 20%.
O europeu Stoxx600 valorizou perto de 17%, no melhor desempenho desde 2021, sendo que diversos índices europeus conseguiram uma prestação superior. Foi o caso do alemão DAX (23%) e do português PSI, que registou em 2025 (29,5%) o melhor ano desde 2009. A bolsa espanhola foi a que mais brilhou, com o IBEX a disparar perto de 50%. A nível de setores, foram os bancos e as companhias de defesa que mais se destacaram pela positiva.
Apesar de ganhos robustos, as ações norte-americanas ficaram atrás das pares globais, sobretudo quando o desempenho é medido em dólares. O S&P500 ficou acima dos 17% e o Nasdaq superou os 20%, enquanto os índices acionistas do Japão, China e Brasil conseguiram registos mais favoráveis.
A concretizarem-se as previsões de que as ações globais vão ganhar terreno em 2026, será o quarto ano consecutivo, o que representa um ciclo longo pouco visto. O Stoxx600 valorizou todos os anos entre 2012 e 2015, sendo que nesse período ganhou 50%. Acima dos 38% acumulados pelo índice europeu desde o final de 2022.
O S&P500 subiu todos os anos entre 2003 e 2007, sendo que entre 2009 e 2014 só cedeu marginalmente em 2011. Nestes seis anos valorizou 128%, mais do que o ganho registado pelo índice norte-americano desde o final de 2022 (76%).
No que diz respeito aos restantes ativos, 2025 ficou marcado por uma valorização fulgurante dos metais preciosos, queda do petróleo e desvalorização acentuada do dólar. O ouro disparou 65%, no melhor ano desde 1979, enquanto o Brent cedeu quase 20%, no pior ano desde 2020.
O índice do dólar recuou quase 10%, com a moeda norte-americana a perder terreno para quase todas as divisas globais. O euro avançou 13% face ao dólar. As matérias-primas que lideraram os ganhos no ano passado, como o café e o cacau, corrigiram fortemente em 2025.
Previsões de ganhos unânimes
Apesar do fantástico desempenho das ações globais no ano passado, existe nesta altura um consenso muito abrangente sobre as perspetivas favoráveis em 2026. Embora seja a norma os analistas adotarem uma abordagem otimista, desta vez salta à vista o sentimento positivo quase unânime para as diversas geografias.
Na sondagem de final de ano efetuada pela Bloomberg, todos os 21 inqueridos atribuem potencial de valorização ao S&P500. A média das previsões dos especialistas de bancos de investimento e firmas de research coloca o índice norte-americano nos 7.555 pontos no final de 2026, o que pressupõe uma subida em torno de 9%.
Na previsão para as ações europeias também existe unanimidade, com a média das estimativas a colocar o Stoxx600 nos 620 pontos, cerca de 6% acima da cotação do índice paneuropeu no final do ano.
As sondagens efetuadas pela Reuters também são favoráveis, com a média das estimativas a colocar o Stoxx600 nos 623 pontos e S&P500 nos 7.490 pontos. Embora a maioria dos 87 analistas inquiridos por esta agência aguarde um movimento de correção nas bolsas mundiais ao longo dos próximos meses, a média das estimativas para as cotações dos principais índices acionistas globais no final de 2026 dá potencial de valorização a todos.
Estes são os principais argumentos que justificam o otimismo dos analistas para as Bolsas em 2026:
Ainda há potencial na Inteligência Artificial
A euforia em torno da Inteligência Artificial foi a principal força motriz do atual bull market, com o índice tecnológico Nasdaq a disparar 120% desde o lançamento do ChatGPT, no final de 2022, enquanto as Sete Magníficas (grupo das maiores tecnológicas norte-americanas) multiplicaram o seu valor por mais de três vezes.
Embora reconheçam que as empresas ligadas à Inteligência Artificial estão a negociar com avaliações elevadas, os analistas confiam que o potencial de valorização do setor não está esgotado. Assinalam que as empresas estão a acelerar a adoção dos serviços de Inteligência Artificial e que os benefícios da tecnologia serão captados por um maior número de empresas cotadas. As estimativas atuais apontam para que os lucros das Sete Magníficas continuem a crescer de forma muito expressiva em 2026 (23%), embora a abrandar face ao passado (37% em 2024).
As preocupações com os elevados investimentos que as tecnológicas estão a efetuar em infraestruturas para suportar o desenvolvimento da Inteligência Artificial têm alimentado a narrativa de bolha no setor. O agregado das previsões das empresas aponta para mais de 500 mil milhões de dólares em 2026, um aumento de 33% face a 2025 e mais do dobro do registado em 2024.
A capacidade de as empresas transformarem estes investimentos num crescimento robusto dos lucros é fundamental para manter este bull market intacto. Apesar dos riscos, para já a maioria dos analistas continua a recomendar a aposta nas grandes tecnológicas e a afastar comparações com a bolha das “dotcom” do ano 2000.
Fed corta juros
O alívio da política monetária tem sido outro dos pilares do desempenho positivo das bolsas, com a descida das taxas de juro a nível global a reforçar a atratividade das ações face ao retorno oferecido pelas obrigações e a reduzir os custos de financiamento das famílias. O Banco Central Europeu já conclui o ciclo de cortes e a Fed retomou os cortes na reta final de 2025 (três descidas seguidas desde setembro).
Se é expetável que o BCE deixe a taxa dos depósitos nos 2% ao longo do ano, as expetativas do mercado apontam para pelo menos duas descidas de 25 pontos base por parte do banco central norte-americano. As decisões de política monetária vão depender da evolução da inflação e do mercado de trabalho dos Estados Unidos, sendo que os economistas veem uma probabilidade reduzida de ressurgimento de pressões inflacionistas e acreditam que o banco central vai travar sinais de debilidade na economia.
Estas expetativas são reforçadas pela mudança de liderança na Fed a partir de maio, uma vez que Donald Trump vai substituir Jerome Powell por um nome que defenda um corte agressivo das taxas de juro, tal como tem reclamado o presidente dos EUA. Por outro lado, existe o perigo de o mercado colocar em causa a independência da Fed devido à influência da Casa Branca nas decisões de política monetária.
Economia global resiliente
A economia global conseguiu um desempenho acima do que eram as expetativas iniciais, sobretudo porque o dano das tarifas anunciadas em abril por Donald Trump acabou por não ser tão penalizador como se antecipava. Com uma guerra comercial agressiva fora do horizonte, os economistas confiam que a evolução vai ser favorável em 2026, sobretudo devido ao apoio dos estímulos monetários e orçamentais, o que representa um importante suporte para a atratividade das ações.
A economia dos Estados Unidos está a abrandar, com o mercado de trabalho a registar uma evolução mais débil, mas os economistas continuam a afastar o cenário de recessão, devido ao efeito dos cortes de juros da Fed e cortes de impostos às famílias e empresas que foram implementadas pela administração norte-americana.
As perspetivas para a economia europeia são animadoras devido aos estímulos orçamentais do governo alemão, enquanto a economia chinesa também deverá ser suportada pelas medidas fiscais das autoridades em Pequim. O novo governo japonês também vai utilizar o orçamento para impulsionar a economia e as economias emergentes beneficiam com o impacto do dólar fraco.
Resultados aceleram
Os resultados acima do esperado que têm sido anunciados pelas empresas foram um dos alicerces do momento positivo duradouro das ações globais e as previsões dos analistas apontam para que a evolução favorável ganhe ainda mais força em 2026. Se as cotadas continuarem a surpreender pela positiva, vão desvanecer os receios com o elevado nível das avaliações a que negoceiam as ações, que é uma das principais ameaças à continuação do bull market.
Depois de um crescimento sólido de 13% que é esperado para 2025 (ainda faltam os números do quarto trimestre), as previsões dos analistas apontam para uma subida de 15% nos lucros das cotadas do S&P500 em 2026. A confirmar-se esta evolução, será o terceiro ano seguido de subidas de dois dígitos nos lucros das empresas norte-americanas, o que só sucedeu por duas vezes nos últimos 35 anos. Aconteceu em 1993-1995 e em 2003-2005, sendo que nestas ocasiões o S&P500 valorizou mais de 10% no terceiro ano.
Os resultados das empresas europeias também têm sido animadores e os analistas apontam para uma aceleração que levará a taxa de crescimento do acumulado de 2026 a ficar próxima dos 10%, um dos melhores anos dos últimos tempos. As estimativas compiladas pela LSEG apontam para um aumento em crescendo ao longo do ano, passando de um crescimento dos lucros de 2,1% no primeiro trimestre, para 13,9% no quarto trimestre de 2026.
Diversificação e cautela
Identificados os ingredientes que justificam o otimismo dos analistas para a evolução das ações em 2026, é preciso salientar que a lista de riscos que ameaçam o cenário favorável também é extensa e várias das nuvens negras que pairam nos mercados têm potencial para se transformar numa tempestade.
É por isso que, apesar da visão positiva, os analistas recomendam que os investidores adotem uma abordagem cautelosa e reforcem a diversificação das carteiras, preparando-as para prováveis movimentos de correção.