Durante anos, repetiu-se uma narrativa tão simples quanto injusta: quem renegoceia dívidas é porque falhou. Como especialista em crédito consolidado digo-o com clareza: essa narrativa está errada.

Para começar é fundamental vermos os dois lados. Por um lado, não podemos ignorar algo essencial: a vida muda, as condições financeiras por vezes também mudam e as soluções financeiras devem acompanhar essas mudanças. Por outro lado, mesmo quem está confortável, com margem financeira e vida estabilizada, pode ganhar (e muito) ao renegociar as suas dívidas.

Renegociar não é sinal de aperto. É um poder que os consumidores têm. Um direito. Uma ferramenta estratégica que permite aumentar a liquidez, poupar milhares de euros ao longo da vida e otimizar decisões financeiras que, de outra forma, ficariam cristalizadas no tempo.

Como administradora numa instituição especializada em crédito consolidado, digo-o sem rodeios: assumir que “quem renegoceia falhou” é perpetuar uma visão distorcida e prejudicial da literacia financeira.

O que observo no meu dia a dia não são famílias descontroladas. Pelo contrário. Vejo trabalhadores responsáveis, pessoas que sempre cumpriram os seus compromissos e até perfis com rendimentos sólidos, mas que percebem que, entretanto, as condições que aceitaram há anos deixaram de ser as melhores disponíveis. Ignorar esta evidência não é prudência, é teimosia financeira.

Renegociar é um ato de lucidez e, muitas vezes, de inteligência estratégica.

O crédito, por si só, não é bom nem mau. É uma ferramenta. O problema surge quando acumulamos vários créditos com taxas diferentes, prazos desalinhados e prestações dispersas, a serem pagas em diferentes dias do mês. Isso consome margem financeira, tempo, energia mental e até qualidade de vida. É aqui que entra o crédito consolidado, não como remendo, mas como estratégia.

E aqui está a parte mais negligenciada da conversa pública: renegociar não serve só para quem está em dificuldade. Renegociar é assumir controlo sobre o fluxo de caixa. É reduzir custo total de financiamento. É proteger património presente e futuro. É reduzir o stress financeiro que potencialmente corrói decisões racionais. É criar espaço para poupar, investir ou simplesmente pagar menos.

Quem olha para a renegociação como último recurso não compreende o conceito de riqueza sustentável. Riqueza não é apenas quanto se ganha. É quanto se consegue gerir com inteligência ao longo do tempo. É quanto se protege e como se faz crescer o nosso dinheiro.

Consolidar ou renegociar crédito não é fugir de responsabilidades. Trata-se de reorganizá-las de forma estratégica, alinhando prazos, taxas e prestações com a realidade de cada fase de vida. Quem faz isso cedo ganha margem. Quem espera, paga mais caro (em juros e em tranquilidade).

A verdadeira maturidade financeira não está em “aguentar tudo”. Está em saber quando parar, analisar e renegociar. Porque disciplina financeira também é saber mudar de estratégia quando o contexto muda.

Renegociar não é fraqueza. Renegociar é poder. É visão. É controlo. É inteligência financeira aplicada.

E sim, é uma estratégia de riqueza.

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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