Fez este sábado passado dez anos desde a queda do banco americano Lehman Brothers. Aquele que era o quarto maior banco de investimento declarou falência e a Reserva Federal Americana não quis resgatar o banco. Foi provavelmente a pior falência de uma instituição em toda a história moderna.

Esta falência está na origem da crise económica vivida nos EUA e na Europa, que para Portugal culminou no pedido de resgate financeiro ao FMI, em 2011. Para muitos foi uma surpresa a queda de um banco que era considerado «demasiado grande para falir» (no original inglês too big to fail).

Era de facto uma instituição demasiado grande, espalhada por mais de 40 países com 7000 empresas associadas às suas operações. Era demasiado grande, mas falhou.

A falência do banco esteve ligada à crise do subprime no imobiliário, em que houve um desmensurado incentivo à compra de casas nos Estados Unidos e a concessão de créditos habitação, sem avaliar corretamente o perfil dos compradores e a sua capacidade de pagar o empréstimo.wall street

Para além disso, esses créditos habitação que começaram a entrar em incumprimento foram “resolvidos” fazendo carências de capital e associando produtos financeiros de alto risco com rentabilidades duvidosas, provocando com o tempo a manutenção da incapacidade das famílias em pagar o crédito e a perda parcial ou muitas vezes total das aplicações financeiras.

Na incapacidade de pagamento dos créditos pelas famílias, adicionado às elevadas desvalorizações do preço do imobiliário, na maioria dos casos o imóvel já valia menos que o valor dos empréstimos, criando uma bola de neve incontrolável.

A estabilidade dos bancos americanos ficou abalada e o problema alastrou-se para a Europa.

Em Portugal, os efeitos desta crise foram elevados: falências de muitas empresas, despedimentos em massa, a taxa de desemprego a aumentar diariamente (principalmente jovem), aumento expressivo da dívida pública chegando a máximos históricos, tudo combinado com uma balança comercial desequilibrada e muito refém das importações num pais com pouco dinheiro, gerando aumento do preço dos produtos e perda de poder de compra das famílias e uma economia real em recessão.

Dez anos depois, e quatro anos após o final do programa de resgate a Portugal, é um excelente momento de reflexão para todos.

A maioria das perguntas que possamos ter é como podemos prevenir este tipo de crises económicas?

De fato, as crises económicas são cíclicas e naturais de um mercado volátil e que tem vários fatores que o influenciam, sofrendo ciclos de crescimento e ciclos de depressão económica.

Desta forma, não poderemos evitar os ciclos económicos. Não podemos também mudar a economia em apenas alguns anos, já que a economia de mercado de cada país e a global tem sérios problemas estruturais que mesmo com as medidas certas podem durar décadas a produzir os efeitos desejáveis, sendo que a globalização dificulta cada vez mais o controlo local por pais.

Atualmente, vivemos um ciclo económico de crescimento. A concessão de créditos às famílias e às empresas está a aumentar; a taxa de desemprego está em mínimos históricos e as contribuições para a Segurança Social aumentaram. O crédito malparado tem diminuído, o que significa que há capacidade para pagar os empréstimos contraídos.

A taxa Euribor a 3, 6 e 12 meses está negativa, baixando o valor das prestações mensais relacionadas com o Crédito Habitação, dando uma folga orçamental às famílias. O salário mínimo subiu e a progressão de carreiras na função pública deixaram de estar congeladas. Além disso, Portugal está na moda, com o aumento do turismo e da onda de empreendedorismo que ferve nas principais cidades.

O clima económico pode ser positivo, no entanto, a história diz-nos que após um ciclo económico de crescimento virá um abrandamento económico, seguido de um ciclo económico de depressão, ou seja, a crise económica vai voltar a acontecer.

Atualmente estamos mais positivos e assistimos à euforia do consumo. O valor que estamos a poupar com a folga da carga fiscal estamos a gastá-lo, em vez de nos preparmos para o futuro. Quando realizamos créditos, estamos a aumentar a nossa dívida e na realidade estamos a construir um auxiliar para uma nova crise.

Uma depressão económica como a de 2010, com a mesma dimensão e alcance será pouco provável, uma vez que foram criados mecanismos de regulamentação da atividade bancária para proteger as instituições e os cidadãos de uma situação idêntica. Ainda assim, uma depressão económica poderá afetar as famílias menos preparadas para a futura crise.

As famílias com uma situação financeira menos equilibrada, com encargos financeiros mais elevados, com um orçamento familiar com uma taxa de esforço perto do limite poderão ter dificuldades em atravessar uma nova depressão financeira.

Assim, para podermos atravessar os vários ciclos económicos temos de seguir uma estratégia eficaz a curto prazo que não irá comprometer o futuro a longo prazo.

Dicas para se precaver para uma próxima crise económica

Antecipar

Para se poder preparar para a crise, é necessário antecipar os eventos que irão ocorrer, como a subida das Taxas Euribor, aumentos de impostos, aumento de preços de produtos essenciais. Assim, ter um orçamento familiar bem feito e controlado, que defina as receitas e as despesas, todos os meses, é essencial. Sabermos como está a nossa vida financeira atual ajuda-nos a programar despesas futuras e a perceber como nos poderemos ajustar às alterações que irão ocorrer no futuro.

Além disso, investir na literacia financeira é fundamental para irmos detetando os sinais que o mercado dá. Acompanhar as subidas e descidas de taxas, a atividade bancária e os relatórios de instituições oficiais poderão ajudar-nos a perceber o ritmo diário da economia mundial e tentar perceber quando entramos na inversão do ciclo económico.

Gerir

Mais importante que fazer um orçamento familiar, é saber geri-lo e adaptá-lo à situação atual de cada família. O orçamento familiar de uma jovem solteira de 20 anos não é o mesmo que o orçamento familiar de uma família com dois adolescentes. Assim, torna-se importante adaptar o orçamento mensal, eliminar o acessório e ter um consumo mais consciente. É preciso atender aos vários créditos que se vão contraindo ao longo da vida e o peso que estes têm no orçamento familiar. A taxa de esforço terá de estar abaixo dos 40% e é necessário estar atento quando a taxa de esforço sobe para não comprometer o futuro financeiro. Gerir a taxa de esforço dos compromissos financeiros ao longo da vida é um primeiro passo para estarmos preparados para momentos de depressão económica.

Poupar

A poupança é a melhor dica que temos para se precaver para as crises do futuro. A poupança tem de ser programada e fazer parte do orçamento familiar mensal.

Mas esta não serve só para fazer compras ou para emergências. Esta serve também para irmos mantendo o estilo de vida atual num futuro em que a inflação irá fazer aumentar os preços e as prestações de crédito ao banco ficarão mais caras com a subida da taxa Euribor.

Poderá poupar dinheiro ao renegociar as suas obrigações financeiras. Pode melhorar as suas condições do Crédito Habitação e ter uma taxa mais baixa ou consolidar os créditos pessoais que possui. Assim, poderá reduzir as suas prestações mensais e ter uma folga orçamental todos os meses.

A poupança irá permitir-nos aproveitar os tempos livres, perspetivar o futuro, manter o estilo de vida, apostar em projetos pessoais, precaver os imprevistos e também investir em soluções para aumentar o rendimento.

Investir

Ao criarmos uma poupança, podemos também utilizá-la para investimentos ou rentabilizar o dinheiro. Soluções de depósitos a prazo e PPR são comuns a várias famílias portuguesas, no entanto é preciso ter uma estratégia a médio e longo prazo.

Atualmente as taxas de juro de um depósito a prazo são inferiores à taxa de inflação, pelo que há que olhar para as várias opções existentes no mercado e escolher uma opção que nos ajude no presente e outras soluções mais rentáveis a longo prazo.

Diversificar

Gerir as suas finanças pessoais implica uma ginástica de conhecimentos. Quanto mais diversificar os seus investimentos, mais conforto terá na sua vida financeira. Estar dependente de um só rendimento, como o salário, pode-se tornar um problema se este trabalho desaparecer com uma nova crise que faça a taxa de desemprego subir. A diversificação de receitas é uma forma de poder precaver-se do futuro e ter a sua liberdade financeira. Estas receitas podem ser de um novo negócio, um hobby partilhado com amigos ou por dar formação a pessoas que ainda não têm os mesmos conhecimentos adquiridos.

Ter liberdade financeira é quando possui rendimentos suficientes que lhe permitam cumprir os seus compromissos financeiros e que, na falha de um, não implique a falha dos seus compromissos atuais.

As suas despesas do orçamento familiar também são diversificadas, mas devem ser pontuais.

Garanta que os seus custos fixos são o mínimo que poderá pagar e recorra o mínimo possível a créditos com taxas de juro. Utilize a poupança por forma a pagar despesas pontuais para não hipotecar o seu futuro financeiro.

As crises económicas irão acontecer ciclicamente e por isso teremos de prepararmo-nos para elas.

Faça um orçamento familiar detalhado com todas as suas receitas e despesas. Reduza as suas despesas ao mínimo. Renegoceie as suas taxas de juro de crédito habitação e encontre seguros de vida mais baratos. Programe o valor das suas poupanças mensalmente e utilize-a para situações imprevistas e para despesas muito pontuais, não recorrendo ao crédito. Invista para poder rentabilizar o seu dinheiro ao longo do tempo e para não perder qualidade do seu estilo de vida.

Diversifique o seu conhecimento, aprenda sobre finanças pessoais e acompanhe o mercado.

No Doutor Finanças, acreditamos que a Prevenção, a Intervenção e a Educação são três ferramentas essenciais para uma vida financeira mais saudável.

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