As famílias portuguesas estão a contrair mais créditos. Neste artigo fique a saber quais a oportunidades e os perigos que esta euforia do consumo pode trazer.

O otimismo em relação à economia voltou e as famílias estão a contrair mais crédito.  Segundo dados recentes, a Banca já emprestou mais de cinco mil milhões de euros às famílias portuguesas desde o início do ano. Este valor contempla bancos e financeiras e refere-se ao crédito habitação e ao crédito de consumo. Em relação a 2017, no mesmo período, observamos um aumento de mais de 20% na concessão de crédito às famílias.

Estaremos a assistir a mais uma euforia do crédito? Será que estamos a assistir à inversão do ciclo económico que irá gerar crise no futuro?

De 2012 a 2016, assistimos a um desaceleramento do crédito às famílias. Com a depressão económica e a intervenção externa, os bancos deixaram de conceder crédito às famílias, aproveitando esse tempo para recuperar os seus incumprimentos financeiros. Após um período de equilíbrio das contas, a banca ficou com mais liquidez e começou lentamente a emprestar dinheiro aos consumidores, de forma a promover o consumo, o desenvolvimento da economia e a obter mais financiamento.

Com o otimismo gerado pela descida do desemprego e o aumento do poder de compra, as famílias estão a recorrer aos bancos para financiarem as suas necessidades e também alguns desejos de consumo que anteriormente não poderiam satisfazer, a chamada “euforia do consumo”. Assim, sobe a concessão de crédito dado às famílias e começa mais um ciclo económico de endividamento. Com os spreads baixos, a propensão para contrair créditos é maior, sem haver uma real análise se as famílias poderão cumprir as prestações mensais a longo prazo.

As taxas do crédito habitação têm vindo a baixar, muito condicionadas pela descida da Euribor, que está em valores negativos, mas a Euribor irá subir e isso implicará que as prestações do crédito habitação ficarão mais caras, ou seja, mesmo que não faça mais nenhum crédito irá ter de pagar mais pelas prestações que já tem.

“Mas se a sua prestação mensal subir nos próximos anos, conseguirá cumprir com essa mesma prestação?”

“Quando as taxas subirem um ponto percentual, conseguirá continuar a assumir o pagamento das prestações?”, “Se a sua prestação mensal aumentar 100€ ou 200€ conseguirá cumprir o pagamento da mesma?” são algumas perguntas que devem ser feitas antes de adquirir um crédito.

As famílias terão mais dificuldade em cumprir os seus compromissos e poderão faltar com esses pagamentos ou ter de renegociar os seus créditos com as entidades bancárias, proporcionando um alívio financeiro temporário. Há uma forte probabilidade de muitas famílias deixarem de conseguir pagar as suas prestações, os bancos deixarão de receber as receitas dos créditos e também terão dificuldade em cumprir os seus compromissos de empréstimo com outras grandes entidades de crédito. Os bancos deixam de financiar as empresas e a consequência será o aumento do desemprego por necessidade de redução de custos, os bancos poderão entram em default deixando de conceder créditos, as famílias perdem poder de compra e deixam de consumir e a economia entra em depressão de novo, ou seja, inversão do ciclo económico e estaremos novamente em crise.

Este é o ciclo económico que irá ocorrer repetidamente e que se comprova analisando o passado. Quando os bancos deixarem de conceder créditos, quando as taxas do crédito estiverem mais altas, quando o seu poder de compra for menor, será que consegue manter o seu nível de vida após pagar os seus custos fixos?

“Como podem as famílias portuguesas prepararem-se para este cenário inevitável?”

Nesta fase positiva do ciclo económico, as famílias deverão construir uma poupança e monitorizar o seu orçamento familiar, este deve ser um ponto de partida para assegurar um futuro mais estável. A realização de um orçamento familiar permite-lhe gerir as suas receitas e despesas, percebendo a sua taxa de esforço. Se a sua taxa de esforço for superior a 50%, poderá ter de rever o seu orçamento e encontrar formas de arranjar rendimento extra ou diminuir as despesas mensais, como telecomunicações ou créditos.  Um orçamento familiar também deverá ser visto de forma a poder rever os hábitos de consumo, fazendo a distinção entre necessidades e desejos. Um ajustamento em que se diminui os desejos irá permitir uma maior poupança mensal e uma maior segurança no futuro.

A poupança é o principal instrumento de saúde financeira. Com uma boa poupança pode-se preparar para eventuais emergências e também manter a qualidade de vida durante os vários ciclos económicos. Se a sua prestação mensal aumentar, uma poupança ajudar-lhe-á a continuar a cumprir os seus compromissos sem que comprometa o seu atual orçamento, a sua qualidade de vida e o seu futuro financeiro. Comece já a fazer a construir o seu fundo de emergência, aproveite e leia o nosso artigo “7 erros que podem estar a travar a sua poupança” vai ajudá-lo a estar preparado para situações que possam ser obstáculos à sua poupança.

Com a melhoria da situação laboral a dar sinais de recuperação, as famílias sentem-se mais confiantes e mostram-se mais disponíveis para assumir compromissos financeiros. Contudo, aconselhamos que estes compromissos sejam geridos e monitorizados a curto e a longo prazo, para que esteja preparado para viver as diversas fases dos ciclos económicos.

Se aprendermos com o passado, se soubermos viver o presente, teremos um melhor futuro.