Clientes a contratar crédito habitação

Até meados de fevereiro, o mercado antecipava que os juros na Zona Euro se manteriam estáveis pelo menos até ao final de 2026. A inflação parecia controlada num nível desejável por parte do Banco Central Europeu (BCE) – 1,7% em janeiro e 1,9% em fevereiro – e as taxas Euribor seguiam estabilizadas, variando entre cerca de 2% no prazo de três meses e 2,2% a 12 meses.

No entanto, em poucas semanas, o cenário mudou. O conflito no Médio Oriente deu origem a uma crise energética que já está a impulsionar os preços e a trazer de volta a ameaça de uma subida significativa da inflação e de uma desaceleração do crescimento económico da região. Perante isto, a perspetiva agora é a de que o banco central da Zona Euro seja forçado a inverter a marcha e a usar a arma que tem disponível para tentar controlar a possível escalada dos preços: apertar a política monetária, subindo os juros.

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O que esperar do BCE?

A dúvida agora já não parece ser se o BCE vai ou não subir os juros. Mas, sim, quando. Neste momento, as estimativas dos analistas apontam para um ou dois aumentos de 25 pontos base este ano, mas não para já. A próxima reunião de política monetária do banco central está marcada para os próximos dias 18 e 19 de março, com o mercado a apontar para uma possibilidade de mais de 77% de os juros se manterem inalterados.

Uma mudança, contudo, pode não tardar, como sublinhou esta quarta-feira o governador do banco central da Eslováquia e membro do conselho do BCE, Peter Kazimir. “Eu diria que uma reação do BCE está potencialmente mais próxima do que muitas pessoas pensam”, alertou, em declarações citadas pela Bloomberg. “Não quero especular sobre abril ou junho. Mas estaremos prontos para agir, se necessário”.

Embora tenha descartado qualquer alteração na reunião da próxima semana, admitiu que uma subida de juros está, definitivamente, em cima da mesa, até porque a inflação não se manterá em linha com a meta do BCE, que é próxima, mas abaixo de 2%.

“O equilíbrio de riscos em relação à inflação mudou claramente para o lado positivo. Podemos esquecer todas as discussões sobre uma inflação abaixo da meta”, disse à agência de notícias.

Também Christine Lagarde, presidente do BCE, já se havia pronunciado, sublinhando que o BCE garantiria que a guerra com o Irão não causará à Europa os mesmos danos inflacionistas que ocorreram após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Reconheceu que, ainda assim, o ambiente atual é marcado por uma incerteza e volatilidade excecionais, tornando arriscada qualquer decisão precipitada. Nesse sentido, a palavra de ordem é vigilância.

O que pode acontecer às taxas Euribor?

As taxas Euribor, a que estão indexados a maioria dos créditos habitação, mais do que acompanhar, tendem a antecipar os movimentos dos juros de referência, fixados pelo banco central. E é precisamente a isso que temos vindo a assistir. A Euribor a 12 meses, por exemplo, que estava nos 2,222% no final de fevereiro, iniciou uma trajetória de subidas no mês de março, tendo atingido esta semana um máximo de janeiro de 2025 nos 2,552%. Também a Euribor a 6 meses, a que estão atrelados quase 40% dos créditos habitação com taxa variável, em Portugal, chegou próxima dos 2,3%, depois de ter começado o ano pouco acima de 2,1%. A Euribor a 3 meses, por seu lado, superou o patamar dos 2,1%.

E os aumentos não deverão ficar por aqui. Os contratos futuros da Euribor a 3 meses mostram que esta taxa poderá subir de forma consecutiva ao longo do ano, chegando a 2,5% em dezembro. O mesmo acontece com a taxa swap do euro a 1 ano, que já está a rondar os 2,4%.

Qual o impacto nas prestações de crédito?

A confirmar-se a subida gradual das taxas Euribor, as famílias podem esperar um aumento nas prestações dos contratos de crédito com taxa variável.

Olhemos para um exemplo: um crédito habitação de 200 mil euros, indexado à Euribor a 3 meses e com um spread de 1%, a pagar a 30 anos, tem atualmente uma prestação mensal de cerca de 844 euros. Se a Euribor terminar o ano no patamar dos 2,5%, significa que a prestação vai aumentar de forma gradual até atingir cerca de 898 euros no final de 2026. São mais 54 euros por mês. Num cenário mais extremo, em que atingisse os 3%, o agravamento seria de 111 euros, para um total de 955 euros mensais.

Importa ter em conta que o agravamento das prestações acontece com maior ou menor antecedência consoante o prazo do indexante e a data da revisão. Por exemplo, um crédito indexado à Euribor a 12 meses, que foi revisto em janeiro, só refletirá o eventual agravamento das taxas no início do próximo ano.

Ao mesmo tempo, é importante ter presente que o nível de incerteza é elevado, e que os efeitos do conflito na evolução dos preços e, consequentemente, das taxas de juro, estão muito dependentes da sua duração e alcance.

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Abril já pode trazer subida ligeira das prestações de alguns contratos

Independentemente do que aconteça nos próximos meses, as subidas recentes das taxas Euribor já poderão ter efeito nas prestações de alguns contratos que serão revistos em abril. A manter-se o comportamento dos primeiros dias deste mês, as famílias podem esperar uma subida ligeira do valor a pagar ao banco.

Sublinhe-se que a revisão, em abril, será feita com a média da Euribor de março, que ainda vai a meio. No entanto, para efeitos deste exercício, consideremos apenas os dados dos primeiros 12 dias de março. O que aconteceria às prestações se o mês terminasse agora?

No caso de um crédito habitação de 250 mil euros, indexado à Euribor a 3 anos e com spread de 1%, a pagar em 30 anos, a prestação passaria dos atuais 1.060 euros para 1.065 euros. Ou seja, um agravamento de 5 euros.

Num crédito com as mesmas características, mas indexado à Euribor a 6 meses, a prestação subiria 9 euros, passando de 1.068 para 1.077 euros.

Apenas os contratos indexados à Euribor a 12 meses ainda sentiriam um alívio. Neste caso, a prestação cairia 12 euros, dos atuais 1.114 para 1.102 euros.

Para analisar o seu caso, e antecipar os possíveis cenários para a Euribor, pode recorrer ao Simulador da variação da Euribor no Crédito Habitação.

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