Uma das palestras mais provocadoras que assisti recentemente foi num evento que não falho – INMAN Connect em Nova York onde não se falou de leads, nem de CRM, nem de tráfego.

Falou-se de algo muito mais estrutural: visibilidade, ou melhor, da sua silenciosa perda.

Durante anos, formámos profissionais imobiliários para criar visibilidade que lhes permitisse “aparecer no Google”.

A lógica era simples: estar bem posicionado, gerar cliques, levar tráfego para o site. Mas a verdade é que, com a mudança de hábitos de pesquisa originada pela nova tecnologia, onde se procura mais interação, mais referências e mais humanização, este modelo de visibilidade está destinado a morrer. Hoje, as pessoas já não procuram links, procuram respostas.

Quem não perceber isto, está perigosamente próximo de se tornar irrelevante, mesmo sem dar por isso.

Não é só tecnologia. É comportamento

A transição que falo é do SEO (Search Engine Optimization) para o AEO (Answer Engine Optimization) e não é apenas uma mudança tecnológica, é uma verdadeira mudança de comportamento do consumidor.

Hoje, as perguntas são dirigidas a plataformas de Inteligência Artificial como o Chatgpt que sabe como responder de forma natural e direta. E nós confiamos, mesmo que, muitas vezes, nunca se faça a visita ao site, ou a verificação de fontes, ou seja, acredita-se cegamente na informação dada e o resultado é claro: menos tráfego, menos cliques e menos oportunidades de estar visível para quem não está referenciado, por exemplo, no Chatgpt — e uma enorme quantidade de oportunidades invisíveis que são perdidas.

A sensação de mudança é a mesma do BlackBerry para o iPhone, lembram-se?

Durante anos, liderou o mercado e ignorou a mudança para experiências mais visuais, físicas e intuitivas. Quando percebeu, já era tarde de mais.

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Mercado imobiliário: Os impactos

O paralelismo com o imobiliário é desconfortável para alguns, mas ao mesmo tempo real. Não é o mercado que muda por capricho. É o consumidor, entenda-se como comprador e vendedor, que muda. E quem não acompanha… fica para trás.

Há um ponto particularmente crítico para agentes e brokers. Hoje, compradores e vendedores fazem grande parte do processo de decisão antes de falar com qualquer profissional. Provavelmente sempre o fizeram, mas utilizando ferramentas diferentes.

Pesquisam valores, comparam reputações, leem reviews, validam referências. Tudo isto, cada vez mais potenciado e mediado pela IA.

Logo, se não aparece nas respostas geradas por estas plataformas, não é sequer considerado, nem rejeitado, é simplesmente ignorado. E isso é o mais perigoso de tudo.

A forma como estes “answer engines” funcionam, também desmonta vários mitos.

Não basta ter um site, não basta ter centenas de reviews de cinco estrelas. A IA lê contexto, linguagem, coerência e especificidade.

Analisa:

– Conteúdo publicado no site

– Perfis sociais públicos

– Artigos, vídeos e textos

– Linguagem usada em reviews e testemunhos

Um detalhe: reviews genéricos valem cada vez menos.

O que conta são palavras concretas, contexto real, especialização clara. Não é “excelente profissional”. É “especialista em mercado de luxo em Cascais”. A diferença é enorme.

Perante este facto, o que fazer? A resposta passa por uma mudança de mentalidade e de método.

Primeiro: testar a realidade.

Pergunta a uma plataforma de IA quem são os profissionais de referência no teu mercado. Se não apareces, não fiques ofendido. Fica informado.

Segundo: clareza absoluta de posicionamento.

Quem ajudas? Onde? Em quê? A vagueza mata a visibilidade?

Terceiro: criar conteúdo que responde e não conteúdo promocional que apenas venda. Foca-te no conteúdo útil.

Perguntas reais. Respostas diretas. Um blogue com respostas profundas, uma secção de FAQs bem pensada, vídeos que explicam, tudo isto são “migalhas digitais” que a IA usa para te reconhecer como autoridade.

E depois, consistência.

Uma estratégia simples, semanal, funciona melhor do que explosões esporádicas de conteúdo:

– Uma resposta clara. Uma prova social. Um vídeo curto. Repetido com disciplina.

Marcar presença no novo jogo da visibilidade digital, onde não ganha quem grita mais, mas sim, quem responde melhor.

E no imobiliário, quem não responde… desaparece.

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