Os dados são do relatório de fevereiro do Observatório Imobiliário em Portugal do Doutor Finanças: em média, um casal precisa de dedicar mais de metade do salário para comprar casa em Portugal. Mais precisamente, necessita de dedicar 53% do ordenado para pagar as prestações do crédito habitação para um apartamento T2 e 55% para uma moradia T3.
Como é calculado o Índice de Acessibilidade Habitacional
Para chegar a este valor, o Observatório Imobiliário em Portugal analisou o Índice de Acessibilidade Habitacional (IAH) a nível nacional e por distrito. Este índice compara:
- O rendimento líquido médio de um casal (dados do Instituto Nacional de Estatística);
- Com a prestação do crédito habitação, segundo os seguintes parâmetros:
- Taxa anual nominal (TAN) média de 2,9%;
- Prazo médio do crédito de 30 anos;
- Loan‑to‑value (LTV) médio de 60,8% para apartamentos e 57,45% para moradias.
Quanto mais alto for o IAH, mais acessível é a habitação. A nível nacional, o IAH médio para um casal é de 1,90 para um apartamento T2 e de 1,83 para uma moradia T3, correspondendo a 53% e 55% do ordenado do casal, respetivamente. Estes valores estão acima da taxa de esforço de 50%, que é o limite máximo acima do qual não deve ser concedido crédito, de acordo com as recomendações do Banco de Portugal.
Na verdade, o cenário é ainda mais preocupante: muitos casais estão ainda mais longe do sonho de comprar casa do que indicam os dados do Observatório, uma vez que os valores de 53% e 55% apenas contemplam o crédito habitação. E a taxa de esforço é a percentagem do rendimento familiar do agregado destinada ao pagamento de todos os empréstimos. Isto para não falar no cenário ideal: habitualmente, é recomendado que a taxa de esforço não seja superior a 30 ou 35% do rendimento mensal.
Diferenças enormes entre distritos
Além de fazer uma análise à média nacional, o Observatório avaliou o IAH por distrito, tendo em conta os salários médios locais e também o preço médio por metro quadrado das casas de cada distrito. Esta leitura mostra diferenças muito grandes entre diferentes geografias.
A região onde a disparidade entre os salários praticados e o preço das casas é maior é a Madeira. Um casal insular com um ordenado médio precisa de dedicar 70% do salário para pagar a prestação de um apartamento T2 (IAH de 1,43). E nem sequer tem possibilidade de comprar uma moradia T3, mesmo que, por hipótese, dedicasse 100% do rendimento mensal a esta finalidade, porque a prestação média equivale a 120% da soma dos ordenados do casal (IAH de 0,83).

Apartamento T2
Olhando para a capacidade de aquisição de um apartamento T2, Faro (IAH de 1,46) e Lisboa (IAH de 1,69) são os dois distritos que se seguem à Região Autónoma da Madeira, sendo necessário dedicar, respetivamente, 68% e 59% dos ordenados do casal ao pagamento do crédito habitação. Estas três regiões não são apenas aquelas que têm menor acessibilidade – são também as que apresentam o preço por metro quadrado mais elevado: 5.788 euros/m² em Lisboa, 4.811 euros/m² em Faro e 4.334 euros/m² vs. 3.685 euros/m² da média nacional.
Os restantes distritos ficam abaixo dos 50% – e alguns até muito distantes deste patamar. É o caso de Portalegre (IAH de 7,36), o distrito com melhor acessibilidade habitacional, onde basta 14% do rendimento do casal para comprar um apartamento T2. Também em Bragança (IAH de 7,01 / 14% do rendimento), Guarda (6,17 / 16%), Beja (4,67 / 21%), Évora (4,47 / 22%), Santarém (4,45 / 22%) e Vila Real (4,46 / 22%) é possível comprar uma casa com estas características dedicando menos de um quarto do ordenado do casal.
Moradia T3
Já quando se aplica o IAH às moradias T3, as disparidades são ainda maiores. Depois da Madeira, os distritos menos acessíveis são Faro (IAH de 1,09 / 92% de rendimento), Lisboa (1,20 / 83%), Setúbal (1,33 / 75%) e Porto (1,79 / 56%).
No outro extremo estão Guarda (8,64 / 12%), Castelo Branco (8,48 / 12%), Portalegre (7,19 / 14%) e Bragança (6,34 /16%).
Apartamento T2 | Moradia T3 | |||
Distrito | IAH | % | IAH | % |
Região A. Açores | 2,30 | 43% | 2,57 | 39% |
Aveiro | 2,60 | 38% | 2,93 | 34% |
Beja | 4,67 | 21% | 4,15 | 24% |
Braga | 3,19 | 31% | 2,34 | 43% |
Bragança | 7,01 | 14% | 6,34 | 16% |
Castelo Branco | 3,95 | 25% | 8,48 | 12% |
Coimbra | 3,11 | 32% | 5,34 | 19% |
Évora | 4,47 | 22% | 2,41 | 41% |
Faro | 1,46 | 68% | 1,09 | 92% |
Guarda | 6,17 | 16% | 8,64 | 12% |
Leiria | 2,69 | 37% | 2,43 | 41% |
Lisboa | 1,69 | 59% | 1,20 | 83% |
Região A. Madeira | 1,43 | 70% | 0,83 | 120% |
Portalegre | 7,36 | 14% | 7,19 | 14% |
Porto | 2,17 | 46% | 1,79 | 56% |
Santarém | 4,45 | 22% | 3,68 | 27% |
Setúbal | 2,37 | 42% | 1,33 | 75% |
Viana do Castelo | 3,28 | 30% | 2,92 | 34% |
Vila Real | 4,46 | 22% | 5,15 | 19% |
Viseu | 3,44 | 29% | 5,20 | 19% |
Média nacional | 1,90 | 53% | 1,83 | 55% |
Preços proibitivos para compra individual
Se, em vez de calcular o IAH para um casal, fizermos as contas com apenas um ordenado, o cenário torna-se bem mais negro para os potenciais compradores.
Em apenas seis das divisões administrativas (18 distritos + regiões autónomas dos Açores e da Madeira) é possível dedicar menos de metade do salário ao pagamento da prestação de um apartamento T2. Na Madeira, em Faro e em Lisboa, nem um ordenado inteiro chega para pagar a prestação:
- Madeira: 139%
- Faro: 137%
- Lisboa: 119%
- Açores: 87%
- Porto: 92%
- Setúbal: 84%
- Aveiro: 77%
- Leiria: 75%
- Coimbra: 64%
- Braga: 63%
- Viana do Castelo: 61%
- Viseu: 58%
- Castelo Branco: 51%
- Santarém: 45%
- Vila Real: 45%
- Évora: 45%
- Beja: 43%
- Guarda: 32%
- Bragança: 29%
- Portalegre: 27%
Fazendo o mesmo exercício para uma moradia T3, verifica-se que há oito distritos abaixo da linha dos 50% e cinco que superam os 100%:
- Madeira: 244%
- Faro: 182%
- Lisboa: 167%
- Setúbal: 152%
- Porto: 112%
- Braga: 85%
- Évora: 83%
- Leiria: 82%
- Açores: 78%
- Aveiro: 68%
- Viana do Castelo: 68%
- Santarém: 54%
- Beja: 48%
- Vila Real: 39%
- Viseu: 38%
- Coimbra: 37%
- Bragança: 32%
- Portalegre: 28%
- Castelo Branco: 24%
- Guarda: 23%
Estes dados demonstram como a compra de habitação se tornou, na prática, inacessível para grande parte dos solteiros e famílias monoparentais, sobretudo nas zonas urbanas e/ou turísticas.
Perguntas frequentes
O Observatório Imobiliário em Portugal é uma ferramenta criada e operacionalizada pelo Doutor Finanças com o objetivo de sistematizar e divulgar dados fiáveis sobre o mercado residencial em Portugal, permitindo uma leitura clara das dinâmicas de preços, oferta e acessibilidade à habitação.
Baseia-se na análise contínua de anúncios imobiliários de venda e arrendamento, cruzados com estatísticas oficiais do INE, cobrindo todo o território nacional, com detalhe por distrito e município.
O Observatório recolhe e trabalha dados sobre:
- Preços de venda por m² (apartamentos e moradias);
- Valores de arrendamento por m²;
- Acessibilidade à habitação, através do Índice de Acessibilidade Habitacional, que relaciona rendimento médio das famílias com prestações de crédito;
- Oferta disponível (número de imóveis em venda/arrendamento);
- Dinâmica do mercado.
Estes indicadores são atualizados regularmente e permitem acompanhar tendências nacionais, distritais e municipais.
É complementada com dados oficiais, sobretudo do INE, para criar uma base de dados “viva”, fiável e representativa do mercado.
O Observatório destaca-se porque:
- Atualiza dados de forma contínua;
- Cobre simultaneamente venda, arrendamento e acessibilidade, oferecendo uma visão integrada;
- Desagrega informação por distrito, município e freguesia, permitindo comparações locais mais rigorosas;
- Foi criado para resolver a fragmentação e dispersão de informação imobiliária existente no mercado, contribuindo para maior transparência.
