Construir carteiras de investimento multiativos através de uma alocação específica a ações e obrigações é uma das estratégias clássicas nos mercados financeiros que tem sido seguida de forma generalizada por um conjunto de investidores, desde os institucionais aos particulares.

Os objetivos desta estratégia são óbvios. Equilibrar com os dois ativos permite cumprir a regra fundamental da diversificação e baixar o risco das carteiras, sobretudo porque as ações e obrigações têm um histórico de evoluir em caminhos opostos. As obrigações oferecem proteção nos momentos de turbulência que penalizam as ações, servindo como um escudo para as carteiras de investimento nos períodos de maior volatilidade.

Esta estratégia remonta ao século passado e tem sido uma das bases da indústria da gestão de ativos. Ficou conhecida nos mercados pelas carteiras 60/40, em que é atribuída uma ponderação de 60% às ações no portefólio de investimentos, com os restantes 40% a serem aplicados em obrigações. Estes pesos são sobretudo indicativos e podem ser alterados em função da conjuntura, perfil de risco do investidor e outros fatores.

Também existem variações, que contemplam uma diversificação mais ampla, com a inclusão de outros ativos nas carteiras, como dinheiro e equiparáveis (“cash”), matérias-primas, criptomoedas e outros ativos não cotados. Mas a estratégia base passa pelo equilíbrio no investimento entre ações e obrigações, tirando partido da histórica correlação negativa entre os dois ativos.

Ações e obrigações em sintonia

Os últimos anos têm abalado este que é um dos alicerces da alocação de ativos nos mercados financeiros. Desde 2020 que as ações e as obrigações têm evoluído no mesmo sentido, o que coloca em causa a eficácia desta estratégia 60/40. São vários os analistas a argumentar que já não faz sentido equilibrar as carteiras com estes dois ativos, enquanto outros consideram que a estratégia permanece válida e continuará a dominar a gestão de carteiras.

Se os dois ativos têm seguido o mesmo caminho, que sentido faz um investidor com perfil de risco mais agressivo continuar a apostar em obrigações? Se a correlação tem sido positiva, fará sentido um investidor mais conservador estar exposto às ações, que contemplam um nível de risco mais alto?

Estas questões são pertinentes e foram validadas por um estudo publicado recentemente pelo Fundo Monetário Internacional, com conclusões similares a uma série de análises publicadas nos últimos tempos. 

“As obrigações tornaram-se menos eficazes a amortecer a volatilidade das ações. Em vez de compensarem o risco, as obrigações têm passado a movimentar-se cada vez mais em sintonia com o mercado acionista”, constatou o FMI, assinalando que “esta mudança é particularmente evidente durante quedas acentuadas dos mercados, com implicações profundas tanto para investidores como para decisores de política económica”.

O FMI acrescenta que até os investidores institucionais mais conservadores, como os fundos de pensões e seguradoras, poderão estar expostos a maior volatilidade das carteiras durante correções de mercado. O facto de os movimentos descendentes nos mercados tenderem a ser abruptos e acompanhados por um aumento acentuado da volatilidade nas ações, “intensifica as vulnerabilidades sistémicas, uma vez que a volatilidade pode alimentar a dinâmica de vendas, ao agravar as restrições de financiamento dos investidores e forçar processos de desalavancagem”.

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Viragem na pandemia

O FMI identifica a pandemia como o ponto de inflexão na tendência de correlação negativa entre ações e obrigações, com esta mudança estrutural a contrariar a norma que se verificou, de forma mais ou menos acentuada, nas duas décadas anteriores. Uma dinâmica que fica bem explícita no gráfico elaborado pelo FMI:

gráfico FMI

Nos primeiros 20 anos deste século, as obrigações globais geraram sempre retornos positivos nos anos em que as ações acumularam saldos negativos. Aconteceu em 2001 e 2002 (ressaca da bolha das “dotcom”), 2008 (grande crise financeira), 2011 (crise da dívida europeia) e 2018. Nos restantes anos em que as ações valorizaram, as obrigações marcaram ganhos mais ou menos expressivos. O benefício da estratégia da carteira 60/40 foi evidente.

Foi em 2022 que foi quebrada a tendência de forma mais marcada, com as ações e obrigações a registarem quedas expressivas. Uma tendência que tem persistido em diversos períodos desde a pandemia, com várias sessões de “sell off” acentuado nos dois ativos.

Este desempenho alinhado das ações e obrigações está sobretudo relacionado com as pressões inflacionistas que se viveram nos últimos anos devido à pandemia, guerra na Ucrânia e outros fatores, mas há mais argumentos para justificar a correlação positiva entre os dois ativos.

  • A inflação elevada penaliza as ações pois induz um agravamento da política monetária, reduz o poder de compra das famílias e agrava os custos financeiros das empresas. A subida de juros também é desfavorável para as obrigações, pois implica um agravamento das yields dos títulos, que varia em sentido contrário à cotação das obrigações.
  • Para responder à pandemia, os governos por todo mundo adotaram políticas orçamentais expansionistas que deterioraram as já débeis contas públicas na maioria das economias. Em reação, os investidores estão a exigir juros mais elevados para financiar países e empresas, encarando as obrigações como ativos menos seguros.
  • As obrigações serviram de porto de abrigo nos períodos de maior turbulência nos mercados acionistas, mas os investidores estão agora a olhar para o ouro como o ativo de refúgio predileto. O metal precioso triplicou de valor nos últimos cinco anos, deixando claro que ocupou parte do espaço que as obrigações têm em muitas carteiras de investimento.   

Nova inversão à vista?

A tendência observada nos últimos anos sugere então que os investidores com perfil de risco mais agressivo devem focar-se apenas nas ações e os mais conservadores restringirem as carteiras às obrigações? A conclusão é precipitada, uma vez que as dinâmicas nos mercados mudam frequentemente e a diversificação entre ativos é uma estratégia fundamental para mitigar o risco dos investimentos.

Acresce que vários analistas estão já a apontar para 2026 como o ano em que se vai inverter a tendência de correlação positiva entre ações e obrigações. A inflação está a aliviar a nível global, favorecendo o alívio da política monetária por parte dos bancos centrais. O Banco Central Europeu já reduziu os juros para 2%, metade do registado no pico, sendo expetável que a Reserva Federal dos Estados Unidos reduza a taxa de juro pelo menos duas vezes este ano.

A unidade de research do BlackRock nota que a correlação aproximou-se de 0% nos últimos dois anos e regressou a terreno negativo nos meses mais recentes, refletindo a descida da inflação, mas também as expetativas de menor volatilidade na evolução dos preços dos bens e serviços.

correlação ações obrigações

No atual contexto em que as ações negoceiam em máximos históricos e é expetável um incremento da volatilidade nos mercados acionistas em 2026, a maior gestora de ativos do mundo recomenda que os investidores apostem nos dois ativos. “Encontrar formas eficazes de diversificar uma carteira multiativos permite aos investidores manter a sua alocação estratégica a ações enquanto gerem o risco”, refere a BlackRock, perspetivando que “poderemos estar a entrar num período em que as obrigações possam, pelo menos em parte, voltar a desempenhar essa função”.

O FMI também deixa pistas sobre qual deve ser o comportamento dos investidores. “Com a redução dos benefícios de diversificação, os investidores precisam de construir carteiras que tenham em conta a alteração nas correlações entre ativos”. A adoção de estratégias alternativas, “como a incorporação de matérias-primas ou ativos não cotados, podem oferecer soluções parciais”, mas o FMI também alerta que “trazem consigo as suas próprias complexidades e riscos”.

O FMI também deixa recados para os decisores de política monetária (governos e bancos centrais), que enfrentam “desafios ainda maiores”. Avisa que “manter a estabilidade financeira num contexto de elevada correlação entre ativos exige enquadramentos credíveis de política orçamental e monetária, testes de stress robustos e uma comunicação clara para ancorar expetativas”.

Alerta ainda que “se a diversificação falhar, a volatilidade pode propagar-se e transformar-se em instabilidade financeira mais ampla”, pelo que os “investidores e decisores políticos terão de repensar a gestão de risco numa nova era em que os mecanismos tradicionais de cobertura deixam de funcionar”.  

Várias alternativas

Para os investidores que continuam a ver na diversificação entre ações e obrigações uma estratégia acertada, existem várias opções disponíveis, como as três destacadas de seguida:

  • A mais óbvia passa por comprar ações e obrigações (emitidas por países e/ou empresas) de forma direta. Exige uma gestão mais ativa, potencia risco mais alto e o pagamento de comissões mais elevadas, pelo que não é a melhor solução para investidores particulares. 
  • Para os investidores que preferem apostar diretamente em ações, fazer o mesmo com obrigações (sobretudo soberanas) é mais complicado. Mas existe uma variedade de produtos financeiros disponibilizados pelos bancos que permitem uma exposição às diferentes tipologias de títulos de dívida. Os ETF são uma boa opção para ações e obrigações, bem como para outros ativos que o investidor queira integrar na sua carteira. 
  • A diversificação de ativos através dos fundos de investimento é uma solução adequada para os pequenos investidores. Pode aplicar num fundo de ações e selecionar outro de obrigações. Também há a alternativa mais simples de investir apenas num fundo que já faça esta diversificação entre ações e obrigações. Com a vantagem de existirem fundos multiativos desenhados para os variados perfis de risco (defensivo, moderado, agressivo).

Falta responder diretamente ao título deste artigo. Sim, equilibrar carteiras com ações e obrigações pode não ser infalível, mas continua a fazer sentido e é bastante provável que perdure no tempo como uma estratégia fundamental da gestão de ativos. Além de que as obrigações garantem um rendimento regular ao investidor através do pagamento de juros (cupões), algo que só as ações das empresas que pagam dividendos também fazem.

Haverá períodos em que as obrigações vão acelerar o risco das ações, mas continuam a funcionar como um fator essencial para reduzir o risco das carteiras. A chave estará sempre na ponderação atribuída a cada ativo, que deve oscilar em função do perfil do investidor, conjuntura e perspetivas futuras.

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