Saber quanto ter investido em cada fase da vida é um dos aspetos mais importantes para quem pretende garantir estabilidade financeira no futuro. Muitas pessoas adiam esta reflexão por sentirem que não têm margem para poupar ou porque a reforma parece ainda distante. No entanto, mesmo pequenas quantias, aplicadas de forma consistente, podem gerar resultados muito relevantes ao longo do tempo.
Neste artigo, vamos apresentar três cenários práticos que mostram como evolui o património de alguém que começa a poupar e investir aos 30, aos 40 ou aos 50 anos.
Pressupostos das simulações
Salário
Em todos os casos práticos apresentados, é considerado um ordenado líquido de 1.200 euros por mês e duas taxas de poupança: 10% e 20%. Este vencimento é relativamente próximo ao salário médio nacional, embora, para simplificar este exercício, não consideremos a tendência para que as pessoas vão aumentando a sua remuneração ao longo da carreira.
Aplicação da poupança
Para cada situação, compara‑se o valor acumulado até à atual idade legal da reforma (aproximadamente 67 anos) sem investimento versus o valor obtido caso investisse mensalmente a poupança, sem levantar o capital investido nem os juros entretanto acumulados. Deste modo, é possível pôr frente a frente um caso em que a pessoa mantém o dinheiro numa conta à ordem não remunerada e um cenário em que aproveita o efeito de capitalização ou de juros compostos.
Rentabilidade anual
Os exemplos de investimento são calculados com uma rentabilidade anual de 5%. Na conjuntura atual, só é possível obter este tipo de rentabilidade com investimentos de rendimento variável, em que, como o nome indica, o investidor pode ganhar 10% num ano, 5% noutro e até perder dinheiro no seguinte. De qualquer modo – e lembrando sempre que as rentabilidades passadas não garantem resultados idênticos no futuro – 5% é uma rentabilidade considerada realista para uma combinação de ativos mais voláteis (como ações) e menos sujeitos a oscilações (como obrigações).
Resgate
Finalmente, analisamos, para cada cenário, quanto poderá a pessoa retirar do capital poupado ou investido para gastar a cada mês. Para este cálculo assumimos como horizonte temporal a esperança média de vida em Portugal: 81 anos.
Importa ainda deixar outro alerta: todos os valores apresentados são nominais, ou seja, não têm em conta o efeito da inflação. Para efeitos ilustrativos, se considerássemos uma inflação média de 2%, o poder de compra futuro seria inferior. Por exemplo, um rendimento anual de 5% equivaleria a cerca de 3% em termos reais.
Embora os exemplos utilizem cenários lineares e simplificados, estes exercícios ajudam a perceber o impacto que a disciplina financeira e o investimento podem ter ao longo de várias décadas. A vida não é linear, mas a consistência tende a ser um dos fatores mais determinantes na construção de património.
Três casos práticos
Aos 30 anos: A Sofia começa cedo
A Sofia inicia o hábito de poupança aos 30 anos e mantém‑no até aos 67, perfazendo 37 anos de contribuições. O longo período disponível permite observar de forma clara o efeito dos juros compostos.
Cenário 1 – Poupança de 10% (120 euros/mês)
- Sem investimento, acumula até aos 67 anos cerca de 53.280 euros.
- Investindo a 5%, o montante atinge aproximadamente 149.668 euros.
- Entre os 67 e os 81 anos, estes valores permitem retiradas mensais de cerca de 317 euros (sem investimento) ou 890 euros (com investimento).
Cenário 2 – Poupança de 20% (240 euros/mês)
- Sem investimento, acumula aproximadamente 106.560 euros.
- Com investimento a 5%, o valor final aproxima‑se de 299.337 euros.
- Na reforma, isto corresponde a retiradas mensais de cerca de 634 euros (sem investimento) ou 1.781 euros (com investimento).
O que esta história evidencia
A Sofia beneficia plenamente do tempo. O longo horizonte de investimento gera um complemento de reforma muito expressivo: 890 euros, investindo 120 euros por mês, ou 1.781 euros, se investir 240. É verdade que estas contas não contemplam o efeito da inflação, mas também não têm em conta a pensão de velhice – mesmo que, devido à evolução da estrutura etária da população portuguesa, se preveja que os valores das reformas em função da percentagem do último salário continuem a cair significativamente nas próximas décadas.
Repare-se, no entanto, na diferença que faz investir a poupança, em vez de apenas guardá-la: o montante acumulado ao longo dos 37 anos quase triplica quando investido (149 mil euros versus 53 mil euros, com contribuição de 10% do salário).
No cenário em que consegue poupar 20% do salário, o capital obtido com o investimento já é de tal monta que pode abrir outras perspetivas à Sofia. Pode, por exemplo, utilizar o dinheiro para pagar uma residência assistida na velhice ou para construir algum património para os filhos. Mas poderia também ter utilizado antes uma parte do montante acumulado para se reformar mais cedo ou trocar um emprego stressante por uma ocupação a tempo parcial ou pela abertura do negócio dos seus sonhos.
Aos 40 anos: O Miguel decide avançar
O Miguel começa o seu plano aos 40 anos, com 27 anos até à reforma. Os resultados continuam significativos, sobretudo quando existe investimento e regularidade nas contribuições.
Cenário 1 – Poupança de 10% (120 euros/mês)
- Sem investimento, acumula cerca de 38.880 euros.
- Com investimento a 5%, o valor final é próximo de 80.512 euros.
- Na fase de reforma, estes montantes permitem retiradas mensais de cerca de 231 euros (sem investimento) ou cerca de 479 euros (com investimento).
Cenário 2 – Poupança de 20% (240 euros/mês)
- Sem investimento, termina com cerca de 77.760 euros.
- Investindo a 5%, o acumulado atinge cerca de 161.023 euros.
- As retiradas mensais possíveis passam a cerca de 463 euros (sem investimento) ou 958 euros (com investimento).
O que esta história evidencia
Embora tenha começado 10 anos mais tarde do que a Sofia, o Miguel ainda consegue alcançar montantes relevantes, especialmente quando combina uma taxa de poupança mais elevada com investimento. Repare-se como, ao investir os 10% de poupança, o Miguel consegue amealhar mais do que se poupar 20% por mês, sem investir.
Aos 50 anos: a Ana quer recuperar o atraso
A Ana inicia o plano aos 50 anos, com apenas 17 anos até à reforma. O período mais curto torna cada euro poupado mais importante e reforça o papel do investimento.
Cenário 1 – Poupança de 10% (120 euros/mês)
- Sem investimento, acumula aproximadamente 24.480 euros.
- Com investimento a 5%, o montante final aproxima‑se de 38.055 euros.
- Estes valores permitem retiradas mensais de cerca de 146 euros (sem investimento) ou 227 euros (com investimento).
Cenário 2 – Poupança de 20% (240 euros/mês)
- Sem investimento, alcança cerca de 48.960 euros.
- Investindo a 5%, o valor ascende a 76.111 euros.
- Na reforma, isto corresponde a retiradas mensais de cerca de 291 euros (sem investimento) ou 453 euros (com investimento).
O que esta história evidencia
Neste caso, é visível como houve menos tempo para os juros compostos fazerem a sua “magia”. Se, no caso da Sofia, o investimento fazia as poupanças triplicarem, aqui limita-se a multiplicá-las por pouco mais de 1,5.
Para se ter uma noção, a Ana precisaria de poupar quase 40% do seu salário para obter um montante acumulado semelhante àquele que a Sofia consegue investindo 10% do ordenado. Ou seja, teria de investir 475 euros todos os meses para juntar cerca de 150 mil euros – algo que a Sofia consegue com apenas 120 euros mensais.
Ainda assim, fica claro que, mesmo com pouco tempo disponível, iniciar um plano de poupança e investimento permite melhorar substancialmente o rendimento futuro. Embora os seus valores não alcancem os de quem começou mais cedo, a Ana demonstra que começar mais tarde continua a ser melhor do que não começar.
O que mostram estes exemplos?
Estes três casos permitem concluir que:
- O investimento é o principal fator diferenciador, muito mais do que a taxa de poupança isolada.
- O tempo é determinante: quanto mais cedo se inicia, maior o impacto dos juros compostos.
- Mesmo quem começa tarde beneficia de uma estratégia disciplinada e adequada ao seu perfil.
- Guardar sem investir faz perder poder de compra (por causa da inflação), enquanto investir cria a possibilidade de o multiplicar ao longo das décadas.
Dicas práticas essenciais
1. Elaborar um orçamento mensal
Se não sabe por onde começar a poupar, a resposta é simples: fazer um orçamento mensal. Um orçamento permite identificar onde é possível reduzir despesas e quanto se pode dedicar à poupança sem comprometer a estabilidade financeira.
2. Construir um fundo de emergência
Antes de investir, é essencial garantir uma reserva equivalente a três a seis meses de despesas. Esta proteção evita a necessidade de resgatar investimentos em momentos de mercado desfavoráveis e dá-lhe tranquilidade para manter o rumo.
3. Selecionar produtos adequados ao perfil de investidor
Os investimentos devem estar alinhados com o seu grau de tolerância ao risco e com o horizonte temporal. Para objetivos de longo prazo, como a reforma, é possível considerar produtos com maior potencial de valorização.
4. Automatizar a poupança e o investimento
A automatização facilita a disciplina, reduz esquecimentos e contribui para a regularidade das contribuições. No início do mês, tal como paga a prestação da casa ou a fatura da eletricidade, aplique logo a percentagem que definiu para investir.
5. Rever a estratégia periodicamente
Alterações no rendimento, despesas ou objetivos pessoais justificam uma revisão da estratégia financeira pelo menos uma vez por ano.
6. Focar na consistência
Os resultados demonstram que, independentemente da idade de início, a consistência é um dos elementos mais determinantes para a construção de património.
