Pessoa a ser atendida no balcão de um banco

Em 2025, os bancos emprestaram 78 euros por cada 100 euros que receberam por via dos depósitos de particulares e empresas.

Este valor representa um ligeiro aumento em relação a 2024 (76 euros emprestados por cada 100 euros recebidos), mas é, ainda assim, o segundo valor mais baixo do século, de acordo com o relatório do Banco de Portugal que faz um retrato do mercado de crédito em Portugal, entre 2000 e 2025.

Este indicador é conhecido como rácio de transformação. Valores mais baixos significam uma maior cobertura dos empréstimos pelos depósitos captados junto das famílias e das empresas, e uma menor dependência de outras formas de financiamento, como o financiamento externo.

Só durante 10 anos é que os bancos financiaram os clientes particulares

O relatório do Banco de Portugal acompanha a evolução do setor bancário nos primeiros 25 anos deste século. Nesse período, houve expansão e contratação do crédito, bem como inversão de financiados e financiadores.

Entre 2000 e 2007, os empréstimos concedidos pelos bancos a particulares aumentaram 58,5 mil milhões de euros, atingindo 127,3 mil milhões de euros no final de 2007. Foi neste período, a partir de 2003, que o montante total de empréstimos concedidos a particulares passou a exceder o valor dos respetivos depósitos, situação que se prolongou até 2013.

Ou seja, durante 10 anos, o rácio de transformação entre empréstimos e depósitos de particulares foi superior a 100%. O Banco de Portugal destaca que este foi o único momento “da série histórica (iniciada em dezembro de 1979) em que os particulares, no seu conjunto, foram financiados pelos bancos e não o contrário”.

Ainda assim, o rácio de transformação que junta as contas de particulares e empresas já era superior a 100% em 2000 (123%) e e foi de 163%, em 2007.

“Entre 2000 e 2007, o montante de financiamento obtido junto de bancos não residentes mais do que duplicou, ascendendo a 138,9 mil milhões de euros no final do período”, aponta o Banco de Portugal.

Os depósitos de particulares deixaram de ser a principal fonte de financiamento dos bancos e foram substituídos pelo financiamento interbancário internacional.

Esta estratégia “permitiu aos bancos portugueses sustentarem o ritmo de concessão de crédito”, mas “tornou o sistema bancário mais suscetível a choques externos”, explica o regulador.

Rácio de transformação atingiu o pico em 2009

Em 2009, o rácio de transformação foi de 169%, já num contexto de crise internacional desencadeada pelo colapso do mercado de crédito subprime nos Estados Unidos da América e agravada pela falência do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008.

Este desequilíbrio entre o montante concedido em empréstimo e o recebido através de depósitos evidenciou “a maior exposição do setor bancário português a choques adversos, num contexto de forte dependência de financiamento que não depósitos”.

Neste período, os bancos portugueses perderam o acesso ao financiamento no mercado interbancário internacional e tiveram de se virar para outras fontes de financiamento, como a emissão de dívida (passou de 8% para 15% do ativo, entre 2007 e 2010) e o recurso a liquidez do BCE (passou de 1% para 7% do ativo).

Entre 2009 e 2010, os depósitos de particulares aumentaram ligeiramente, o financiamento interbancário desceu e o rácio de transformação baixou para 160%, um valor, ainda assim, elevado. No entanto, este foi o início de um caminho de queda deste indicador que se prolongou até 2024.

Em 15 anos, rácio de transformação caiu 90 pontos percentuais

Entre 2010 e 2024, o rácio de transformação caiu 90 pontos percentuais, de 169% para 79%. Ou seja, o setor bancário equilibrou novamente a balança para conseguir que fossem os depósitos a financiar os empréstimos.

A trajetória começou no período marcado pela crise das dívidas soberanas, uma altura em que “a recessão, o aumento do desemprego e a maior incerteza económica levaram as famílias e empresas a reduzirem a procura de crédito”.

Ao mesmo tempo, “o financiamento obtido junto de outros bancos não residentes diminuiu 58,3 mil milhões de euros relativamente a 2010”.

A alternativa foi novamente a captação de depósitos de particulares. “Entre 2011 e 2014, a taxa de juro dos depósitos a prazo de particulares manteve-se consistentemente acima da média da área do euro”, aponta o relatório.

Em 2011, por exemplo, a taxa de juro média dos depósitos de particulares foi de 3,36% em Portugal e de 2,76% na Zona Euro.

“Entre 2010 e 2014, os depósitos de particulares aumentaram 13,8 mil milhões de euros (cerca de 3,5 mil milhões de euros ao ano), passando a representar 28% do ativo”.

Este crescimento aliou-se à forte contração do crédito e isso “fez com que os depósitos de particulares voltassem a exceder o montante de empréstimos a particulares, restabelecendo estes últimos como financiadores do setor bancário português”, explica o Banco de Portugal.

Particulares e empresas só voltaram a financiar os bancos a partir de 2018

Entre 2015 e 2021, os depósitos de particulares aumentaram 40,1 mil milhões de euros e “voltaram a ser a principal fonte de financiamento dos bancos portugueses”. No final de 2021, representavam 37% do total do ativo do setor.

Foi em 2018 que o rácio de transformação desceu abaixo dos 100% pela primeira vez, fixando-se em 96%.

Em dezembro de 2025, os depósitos de particulares atingiram “um máximo histórico de 200,7 mil milhões de euros” e “consolidaram-se como a principal fonte de financiamento do setor bancário”.

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