Tempestades, faltas ao trabalho e encerramento de empresas: o que diz a lei em situações de calamidade.

Fenómenos meteorológicos extremos, como as recentes tempestades que afetaram várias regiões do país, colocam trabalhadores e empresas perante dúvidas imediatas e urgentes.

Posso faltar ao trabalho? A falta é justificada? Tenho direito a receber o salário? A empresa pode encerrar temporariamente? O que acontece aos contratos de trabalho?

Apesar da gravidade da situação, não estamos perante um regime excecional automático, como aconteceu durante a pandemia. Em contexto de estado de calamidade, continuam a aplicar-se, como regra, as normas gerais do Código do Trabalho, salvo se forem aprovadas medidas especiais expressas.

Isso não significa, porém, que a lei fique indiferente à realidade. Pelo contrário: existem mecanismos legais que permitem responder a muitas destas situações, desde que corretamente enquadrados.

É isso que importa esclarecer neste artigo.

Estado de calamidade: O que muda (e o que não muda) no trabalho

O primeiro ponto essencial é este: o estado de calamidade não suspende o Código do Trabalho.

Ao contrário do que sucedeu durante a COVID-19, não existe, por si só:

  • suspensão automática de contratos;
  • regimes simplificados de apoio ao emprego;
  • flexibilização generalizada das regras laborais.

Enquanto não forem aprovadas medidas específicas, valem as regras normais.

Isto obriga a uma análise cuidadosa das situações concretas, tanto do lado dos trabalhadores como das empresas.

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Trabalhadores: Quando é que a falta ao trabalho pode ser justificada?

O Código do Trabalho prevê que a falta é justificada quando o trabalhador se encontra numa impossibilidade objetiva de prestar trabalho, isto é, quando não consegue comparecer por motivos alheios à sua vontade e não imputáveis ao próprio.

Em contexto de tempestades, esta impossibilidade pode verificar-se, por exemplo, quando:

  • a habitação do trabalhador sofreu danos relevantes;
  • as vias de acesso estão cortadas, inundadas ou perigosas;
  • existe uma ordem ou recomendação das autoridades para não circular;
  • o trabalhador tem de prestar assistência urgente à família.

Nestes casos, a falta pode ser considerada justificada, desde que o trabalhador comunique a ausência ao empregador com a maior brevidade possível, indique o motivo concreto da falta, e apresente prova sempre que exista ou seja razoável apresentá-la.

Atenção: a lei não funciona em “piloto automático”. Cada situação exige sempre análise caso a caso. No caso de tempestade, o facto é público e notório.

A falta justificada é sempre remunerada?

Esta é uma das dúvidas mais frequentes – e mais importantes. É fundamental distinguir:

  • falta justificada
  • falta remunerada

Nem todas as faltas justificadas dão, automaticamente, direito à retribuição, o que resulta expressamente do artigo 255.º do Código do Trabalho. Regra geral:

  • o Código do Trabalho não garante o pagamento do salário em todas as faltas justificadas;
  • o direito à remuneração depende da causa da falta e do enquadramento legal aplicável.

Em situações de impossibilidade objetiva de trabalhar causada por fenómenos naturais, a falta pode ser justificada, mas a manutenção da retribuição não é automática. Em regra, o salário só se mantém quando a situação é temporária, devidamente comunicada e existe base legal, contratual ou coletiva que o permita. Quando a impossibilidade se prolonga ou não há previsão que assegure o pagamento, a falta pode ser justificada, mas não remunerada.

Por isso, não existe uma resposta única: tudo depende da duração da situação e do enquadramento legal concreto.

E se o trabalhador não conseguir sequer sair de casa?

Quando há inundações, quedas de árvores, estradas cortadas, transportes públicos suspensos, falha de energia, o trabalhador pode estar fisicamente impedido de chegar ao local de trabalho.

Nestes casos, estamos perante uma situação típica de impossibilidade objetiva. Ainda assim, é essencial comunicar a situação ao empregador, explicar claramente o motivo, e manter contacto sempre que possível. A boa-fé e a comunicação são determinantes.

Escolas e creches encerradas: Que direitos têm os pais trabalhadores?

Este é um dos temas mais sensíveis – e mais frequentes – em situações de calamidade.

Quando escolas e creches encerram por motivos de segurança, muitos pais ficam sem alternativa imediata para deixar os filhos. A ausência ao trabalho, nestes casos, não resulta de uma escolha pessoal, mas de uma necessidade.

É importante sublinhar:

  • crianças pequenas não podem ficar sozinhas em casa;
  • mesmo crianças mais velhas podem não ter maturidade suficiente ou sofrerem de doença crónica ou deficiência;
  • deixar um menor desacompanhado pode, consoante a idade e as circunstâncias, configurar responsabilidade legal ou até criminal.

Assim, quando o trabalhador tem de permanecer em casa para assegurar o cuidado dos filhos, devido ao encerramento de escolas ou creches causado pela tempestade, essa situação pode enquadrar-se como impossibilidade objetiva de prestar trabalho.

Na prática, o trabalhador deve: informar o empregador o mais cedo possível, explicar a situação concreta, apresentar prova sempre que exista (por exemplo, comunicado da escola, da autarquia ou da proteção civil). Mais uma vez: não há automatismos, mas há proteção legal.

Estas situações enquadram-se no regime das faltas justificadas por motivo não imputável ao trabalhador, previsto no artigo 249.º, n.º 2, alínea d), do Código do Trabalho, devendo a falta ser comunicada ao empregador nos termos do artigo 253.º (comunicação da ausência).

E se o trabalho puder ser feito remotamente?

Sempre que as funções o permitam, o teletrabalho pode ser uma solução. Não existe uma obrigação automática de trabalhar remotamente, mas pode haver acordo entre as partes, pode ser uma forma equilibrada de manter a atividade, e evita faltas e perda de rendimento. Nestes contextos, a flexibilidade é muitas vezes a melhor resposta prática.

Empresas podem encerrar temporariamente por causa da tempestade?

Do lado das empresas, a realidade pode ser igualmente dramática. Há casos de instalações danificadas ou destruídas, equipamentos inutilizados, falta de condições mínimas de segurança, impossibilidade de acesso ao local de trabalho, etc. Nestas situações, a empresa pode ver-se impossibilitada de laborar, total ou parcialmente.

Contudo, sem medidas excecionais aprovadas pelo Governo, não existe um regime automático de suspensão dos contratos de trabalho. Isso significa que os contratos mantêm-se em vigor, as obrigações legais continuam a existir, e as soluções têm de ser encontradas dentro do quadro legal existente.

Que opções têm as empresas?

Dependendo do caso concreto, podem estar em causa soluções como:

  • redução ou suspensão temporária da prestação de trabalho – lay-off;
  • recurso a férias, se houver acordo;
  • adaptação de horários;
  • teletrabalho sempre que possível.

Cada opção tem implicações legais diferentes e deve ser analisada com cuidado.

Quando a empresa não consegue funcionar: O lay-off pode ser uma solução

Quando a empresa fica temporariamente impedida de funcionar – por exemplo, devido a danos nas instalações, falta de condições de segurança ou impossibilidade objetiva de laboração causada por fenómenos naturais – a lei prevê mecanismos para evitar despedimentos imediatos. Um desses mecanismos é o chamado lay-off, que consiste na redução ou suspensão temporária da prestação de trabalho.

O lay-off – redução ou suspensão da prestação de trabalho – está regulado nos artigos 298.º a 308.º do Código do Trabalho e pode ser aplicado quando a empresa enfrenta dificuldades graves e temporárias, nomeadamente por motivos de mercado, estruturais ou tecnológicos, incluindo situações resultantes de catástrofes naturais.

Na prática, esta redução ou suspensão da prestação de trabalho pode assumir duas formas:

  • redução do período normal de trabalho;
  • suspensão temporária do contrato de trabalho.

Durante este período, o trabalhador não perde o vínculo laboral e mantém direitos essenciais.

O trabalhador continua a receber durante o lay-off?

Sim. Mesmo em lay-off, o trabalhador não fica sem rendimento. A lei garante o pagamento de uma compensação retributiva mínima, correspondente a dois terços da remuneração normal ilíquida, com limites mínimo e máximo definidos por referência ao salário mínimo nacional (artigo 305.º do Código do Trabalho).

Além disso, mantêm-se os descontos para a Segurança Social, o tempo conta para efeitos de antiguidade, e o trabalhador continua protegido em matéria de Segurança Social.

O objetivo do lay-off é simples: ganhar tempo, proteger o emprego e permitir que a empresa recupere sem recorrer a despedimentos definitivos.

O lay-off é automático?

Não. A redução ou suspensão da prestação de trabalho não se aplica automaticamente.

A empresa tem de fundamentar a situação, comunicar aos trabalhadores, e cumprir os deveres legais previstos no Código do Trabalho. Sem estes passos, a aplicação do lay-off pode ser considerada irregular.

Leia ainda: Tempestade Kristin: O que se sabe sobre o lay-off simplificado

Apoios públicos: Ajudam, mas não resolvem tudo

As linhas de crédito e apoios anunciados podem ser úteis no curto prazo, mas não resolvem estruturalmente os problemas, podem agravar a solvabilidade das empresas no médio e longo prazo, e não substituem mecanismos de proteção do emprego.

A inexistência de regimes excecionais semelhantes aos que existiram durante a pandemia aumenta a incerteza jurídica e o risco de perda definitiva de postos de trabalho.

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O que é essencial reter

Para trabalhadores e empregadores, importa guardar estas ideias-chave:

  • O Estado de Calamidade não suspende automaticamente o Código do Trabalho
  • As faltas podem ser justificadas quando exista impossibilidade objetiva de trabalhar
  • O encerramento de escolas e creches pode justificar a ausência dos pais
  • A remuneração depende sempre do enquadramento legal concreto
  • As empresas continuam sujeitas às regras gerais, salvo medidas excecionais

Proteger trabalhadores e apoiar empresas não são objetivos opostos. São complementares.
Sem empresas viáveis, não há emprego sustentável. E sem proteção dos trabalhadores, não há coesão social.

Momentos como estes exigem clareza jurídica, equilíbrio e respostas ajustadas à realidade, para evitar que uma crise conjuntural se transforme num problema estrutural.

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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