Durante anos, explicámos o desconforto financeiro das famílias com uma palavra: inflação. Era uma explicação lógica – os preços subiam, o poder de compra caía e o dinheiro parecia encolher. Hoje, porém, a inflação está mais controlada, os salários reais começam a recuperar e os níveis médios de poupança começam a ser mais expressivos. Ainda assim, a sensação persiste: o dinheiro não chega. Isto não é um paradoxo económico. É um erro de diagnóstico.
O verdadeiro problema não está apenas nos preços ou nos salários, mas no desaparecimento da margem financeira – o espaço entre o que entra e o que é inevitavelmente absorvido por despesas fixas e essenciais. Durante décadas, essa margem funcionou como um amortecedor: acolhia imprevistos, permitia corrigir erros e dava tempo às decisões. O que mudou não foi apenas o custo de vida, mas a rapidez com que essa folga encolheu e a dificuldade em recuperá-la.
Quando dizemos que a inflação está controlada, esquecemo-nos de um ponto essencial: a inflação mede variações, não níveis. Quando abranda, os preços deixam de subir depressa, mas não regressam ao ponto de partida. Habitação, energia, alimentação e serviços estabilizaram num patamar estruturalmente mais alto. A pressão desapareceu dos gráficos, mas continua nos orçamentos – e estas são despesas difíceis de cortar sem impacto direto na vida diária.
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É verdade que os salários reais, em média, estão a crescer. Mas essa recuperação é parcial, desigual e rapidamente absorvida por custos fixos. Em termos práticos, não estamos a criar margem nova; estamos apenas a tapar buracos antigos. Para muitas famílias, o salário sobe, mas a folga continua a zero. Uma parte crescente do rendimento mensal está agora comprometida com despesas pouco flexíveis e de longo prazo: rendas, prestações, transportes e contratos essenciais. Quando o peso destas despesas aumenta, o orçamento perde elasticidade. Pequenos choques – uma fatura inesperada, uma taxa nova ou uma avaria – deixam de ser absorvidos e passam a gerar stress imediato. O risco financeiro não cresce apenas com o nível da despesa, mas com a sua rigidez.
Os dados agregados escondem esta realidade. A poupança total parece elevada, mas está concentrada em certos grupos e gerações. Coexistem, na mesma economia, famílias com almofadas confortáveis e milhões de outras sem qualquer margem mensal. Confundir estas realidades leva a diagnósticos errados sobre o “estado financeiro” do país.
O resultado é que continuamos a decidir com regras de outro tempo – um tempo em que a margem era maior, o erro recuperável e o tempo um aliado. Hoje, decisões no limite tornaram-se normais, não porque sejam seguras, mas porque todos as tomam. E o que é comum, num sistema com pouca margem, já não é neutro: é arriscado.
Talvez a pergunta certa já não seja “isto é normal?”, mas “isto aguenta se tudo ficar igual por mais tempo?”. Porque, hoje, resiliência vale mais do que otimização. Margem vale mais do que rendimento.
O desconforto financeiro atual não é uma falha pessoal nem um desvio temporário. É o reflexo de um ajustamento estrutural ainda incompleto entre rendimentos, custos e expectativas. Enquanto continuarmos a avaliar as nossas escolhas com métricas antigas, o aperto parecerá sempre misterioso. Mas não é. É a margem que desapareceu. E percebê-lo é o primeiro passo para voltar a decidir com critério – não por imitação, mas por compreensão.
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