No final de fevereiro, as ações europeias estavam a negociar em máximos históricos e com vários índices a marcarem ganhos de dois dígitos desde o início do ano. As praças asiáticas registavam subidas ainda mais expressivas, enquanto as ações norte-americanas voltavam a ficar para trás, à medida que ganhava intensidade a rotação de investimento das gigantes tecnológicas para setores mais tradicionais.

O ouro continuava a brilhar de forma intensa, acumulando recordes consecutivos acima dos 5 mil dólares devido à presença cada vez mais relevante nas carteiras de investimento como ativo de refúgio e cobertura de riscos geopolíticos. As matérias-primas em geral também apresentavam um saldo anual positivo, com o Brent a recuperar 20% após três anos a perder valor. Já o dólar estava a acentuar a tendência descendente depois de ter recuado 10% em 2025 contra as principais divisas mundiais.

Na frente da economia, os sinais até eram animadores. A Europa registou um arranque de ano forte, reforçando a confiança num 2026 de crescimento mais acelerado após vários anos de evolução fraca. Embora distante da pujança do passado, a economia chinesa também dava sinais mais encorajadores. E a economia norte-americana, apesar do abrandamento notório no mercado de trabalho, mostrava uma resiliência notável perante o impacto das tarifas alfandegárias e outras políticas disruptivas implementadas pela administração de Donald Trump.

Com a inflação controlada na Zona Euro e bem encaminhada nos Estados Unidos, a visibilidade para a evolução da política monetária era muito nítida. O Banco Central Europeu (BCE) deveria manter a taxa dos depósitos durante todo o ano e eram esperados pelo menos dois cortes de 25 pontos base por parte da Fed em 2026. Um movimento que também deveria ser acompanhado pelo Banco de Inglaterra, enquanto era esperado que o Banco do Japão prosseguisse com a normalização lenta da política monetária. Um contexto favorável para as obrigações, que geraram retornos positivos nos dois primeiros meses do ano.

Este é o retrato do desempenho dos meses de janeiro e fevereiro nos mercados financeiros mundiais, mas a fotografia do primeiro trimestre é totalmente distinta. A guerra no Irão, que teve início no último fim de semana de fevereiro, veio alterar toda a dinâmica nas Bolsas, gerando uma inversão de expectativas que provocou alterações muito significativas nos preços da generalidade dos ativos cotados.

Sobretudo quando se percebeu que o conflito no Médio Oriente não seria de curta duração e teria impactos substanciais nas infraestruturas de região fundamental para o abastecimento energético global. A ameaça de estagflação (crescimento económico estagnado e inflação elevada) regressou em força aos mercados, condicionando a evolução de todos os ativos.

Petróleo registou subida recorde

A guerra no Irão deu origem àquele que a Agência Internacional de Energia (AIE) classificou como o choque energético mais grave de sempre. O fecho do Estreito de Ormuz provocou uma disrupção significativa no mercado petrolífero, pois é nesta passagem marítima controlada pelo Irão que é transportado cerca de 20% do crude consumido em todo o mundo. Os ataques do Irão a alvos estratégicos nos países vizinhos no Médio Oriente, com destaque para um complexo do Qatar que abastece um quinto do gás natural liquefeito (GNL), evidenciou que o impacto do conflito será sentido por um longo período.

O choque do lado da oferta provocou uma valorização acentuada dos preços do petróleo. O Brent, negociado em Londres e que serve de referência para as importações portuguesas, disparou 63% em março e 94% no primeiro trimestre. Registou a subida mensal mais forte de sempre e o avanço trimestral mais pronunciado desde a Guerra do Golfo em 1990.

Enquanto o trânsito de navios no Estreito de Ormuz permanecer encerrado ou condicionado, é expetável que o petróleo continue a negociar com três dígitos. O fim da guerra trará um alívio nos preços, mas as cotações dificilmente vão regressar aos níveis de fevereiro no curto prazo. Já uma escalada do conflito pode levar a matéria-prima a quebrar o máximo histórico fixado em 2008 perto dos 150 dólares, ou mesmo atingir os 200 dólares, como já estimam alguns analistas.

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Ações corrigiram com força

Nos primeiros dias de guerra foi notória uma complacência no mercado de ações, com os investidores a confiarem nas palavras do presidente dos Estados Unidos, de que esta seria uma “incursão breve” para derrubar o regime iraniano. Um mês de conflito conta uma história diferente e o pessimismo nos mercados foi crescendo semana após semana, embora sem nunca se assistir a situações de pânico.

Os investidores começaram a atribuir probabilidades crescentes aos cenários mais negros de guerra longa e persistência do petróleo acima dos 100 dólares, o que gerou uma venda mais acelerada dos ativos de risco. As ações foram penalizadas de forma substancial e vários índices chegaram a negociar em território de correção técnica (desvalorização superior a 10% face a máximos).

Embora a tendência de queda em março tenha sido generalizada a nível geográfico e setor de atividade, foram mais penalizadas as ações das cotadas mais expostas a uma crise energética e dos países mais vulneráveis aos preços do petróleo. Os índices com desempenhos mais robustos nos dois primeiros meses do ano foram também os que sofreram quedas mais intensas em março.

O Stoxx600 cedeu 7,5% em março, atirando o índice europeu para um saldo anual ligeiramente negativo (-0,8%). O Nikkei afundou 12,7% no mês, mas o índice do Japão conserva ganhos em 2026. Os índices norte-americanos registaram descidas mensais menos intensas, enquanto no acumulado do ano marcam um desempenho bem mais desfavorável. Enquadrando esta evolução numa perspetiva de mais longo prazo, é preciso salientar que a generalidade dos índices acionistas atingiu máximos históricos nos últimos meses e alcançaram em 2025 o terceiro ano seguido de ganhos robustos.

A guerra no Irão e a consequente escalada nos preços do petróleo dominou o rumo dos mercados, mas o trimestre também foi afetado por outros desenvolvimentos relevantes. A época de apresentação de resultados do quarto trimestre de 2025 mostrou que as cotadas mundiais continuam com balanços saudáveis e evolução favorável dos lucros.

A Inteligência Artificial continua no radar, sendo que neste trimestre cresceu a apreensão dos investidores com os elevados volumes de investimento das grandes tecnológicas e os receios de que os avanços da tecnologia provoquem disrupções com implicações negativas em vários setores, com destaque para o software. O stress no mercado de crédito privado (financiamento não bancário a empresas) também contribuiu para acentuar a desvalorização de algumas ações.  

Obrigações não serviram de proteção

As obrigações são um porto de abrigo habitual nos períodos de turbulência nos mercados, em particular nos momentos de tensões geopolíticas, mas desta vez também foram alvo das vendas generalizadas. Os títulos de dívida geraram em março um retorno negativo de 2,7% na Zona Euro e 1,8% nos Estados Unidos, anulando os ganhos acumulados em janeiro e fevereiro. A yield das obrigações alemãs a 10 anos atingiu máximos desde 2011, período marcado pela crise de dívida na Zona Euro.

O petróleo também é o principal responsável por esta evolução, pois elevou fortemente as perspetivas para a inflação, levando os investidores a anteciparem uma resposta agressiva dos bancos centrais. O mercado chegou a descontar três subidas de juros por parte do BCE em 2026 e uma subida por parte da Fed este ano. Estas expectativas aliviaram nos últimos dias de março, refletindo a apreensão crescente de que a escalada dos custos energéticos vai pressionar em baixa a atividade económica, que é um ambiente favorável para as obrigações. 

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Ouro perdeu algum brilho

O ouro também falhou no estatuto de proteger as carteiras de investimento dos períodos de turbulência. O metal precioso cedeu perto de 12% em março, o que representa a queda mensal mais acentuada desde outubro de 2008, período marcado pela grande crise financeira. O ouro chegou a negociar perto de 4.100 dólares, mais de 20% abaixo do máximo histórico superior a 5.600 dólares que atingiu em fevereiro. Apesar desta forte volatilidade pouco habitual para um ativo como ouro, o metal ainda conseguiu um saldo positivo no primeiro trimestre (+8%).

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Dólar inverteu tendência frágil

A valorização do dólar é um dos fatores que ajuda a explicar a evolução débil do ouro, uma vez que os dois ativos apresentam uma forte correlação negativa (variam em sentido contrário). A divisa norte-americana foi dos poucos ativos vencedores desde o início da guerra, com os investidores a voltarem a ver o dólar como ativo de refúgio.

Os receios de que a subida da inflação pressione a Fed a manter as taxas de juro em níveis restritivos contribuiu de forma decisiva para a valorização de 3% que o dólar registou em março, sendo que a menor vulnerabilidade dos Estados Unidos a um choque energético também explica a força da moeda. Pelo contrário, quatro anos depois do início da guerra na Ucrânia, a Zona Euro continua muito dependente do abastecimento de energia do exterior, daí que o euro tenha sofrido uma queda de mais de 2% em março face ao dólar.

Recuperação em abril?

Depois de um mês de março negro, o arranque de abril e do segundo trimestre foi marcado por uma recuperação substancial das ações e obrigações, com os investidores otimistas perante os sinais mais evidentes de que a guerra no Irão vai terminar em breve. O sentimento marcadamente pessimista dos investidores com o impacto do conflito ajuda a explicar estas sessões de recuperações mais acentuadas, muito habituais nas fases negativas nos mercados.

O nível atrativo a que negoceiam muitas ações também atraiu os compradores, embora a incerteza persista em níveis elevados e o mercado já esteja habituado a reviravoltas nas posições de Donald Trump. Só a abertura efetiva do Estreito de Ormuz, que afaste a cotação do petróleo dos 100 dólares, poderá abrir caminho para uma recuperação mais sustentada das ações e das obrigações que retome o curso que estava a ser seguido até ao final de fevereiro. Até lá, a volatilidade deve ser a nota dominante.

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