Queremos que os nossos filhos cresçam para ser adultos confiantes e independentes. Mas muitas vezes não nos lembramos que esse resultado também está dependente do que fazemos (ou tantas vezes, do que não fazemos!) por eles, hoje.
Quando se diz que ninguém nasce ensinado, é mesmo verdade. Aprender qualquer competência requer tempo, paciência e, principalmente, erro. Sem darmos conta, fazemos demasiado pelas nossas crianças: atar os sapatos, dar a comida à boca, fazer aquele trabalho difícil por elas. Ao mesmo tempo, esperamos que sejam pacientes, flexíveis e que tenham capacidade de resolver problemas de forma eficaz. Mas será que a forma como nos posicionamos face aos seus desafios, mesmo os mais pequenos, está verdadeiramente a ajudá-las a crescer de forma saudável e no caminho da autossuficiência?
Esta crónica surge, não no sentido de sugerir que nunca ajudemos os nossos filhos quando estão em dificuldades, mas apenas para dar uma nova perspetiva sobre a forma como fornecemos essa ajuda. Será que ajudar é o mesmo que fazer por eles?
O que fica por aprender quando interferimos demasiado?
As crianças aprendem tanto por modelagem, ou seja, imitação de uma figura de referência; como por condicionamento – associação de um comportamento a um determinado resultado, como uma consequência. Se não têm esta oportunidade, muito ficará por aprender. Se uma criança está a apertar os sapatos e imediatamente o adulto o faz por ela; se veste a meia ao contrário e imediatamente a corrigimos, vestindo de novo; se fazemos nós o formato das bolachas porque não ficou “bonito”; se corrigimos a conta de matemática mesmo antes de a criança perceber que o resultado não está certo… estamos constantemente a sabotar a aprendizagem e, consequentemente, a autonomia. Estamos, tantas vezes sem querer, a ir contra aquilo que desejamos para os nossos filhos.
Dar tempo
É importante estarmos a par daquilo que é esperado que as crianças e adolescentes consigam fazer sozinhos em determinada fase do desenvolvimento. No entanto, importa relembrar que, para adquirir determinada competência, é preciso tempo. Quantas vezes ainda nem a criança teve tempo de processar o nosso pedido, e já o estamos a fazer por ela? Quando for caso disso, peça, espere alguns segundos e observe. Grande parte das vezes a tarefa será levada a cabo com sucesso, se tivermos paciência. Existe uma frase de Maria Montessori de que gosto muito e que se aplica na perfeição aqui: “Nunca ajude uma criança numa tarefa que ela sente que pode realizar sozinha”. O orgulho que sentirá em si mesma será muito maior se sentir que teve a liberdade, por parte dos adultos, de tentar sozinha. Já nós, podemos surpreender-nos verdadeiramente com o que os jovens têm para mostrar, o que acabará por ser um grande reforçador de que o caminho de ensinar autonomia é o certo.
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Não julguemos, motivemos!
Há muitas tarefas, principalmente no domínio do cuidado pessoal, que parecem bastante simples para os adultos mas que, para as crianças, podem ser verdadeiramente complexas. A maioria das tarefas exigem funções executivas que estão ainda em desenvolvimento: como o planeamento, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva. Muitas exigem também um bom domínio da motricidade fina e grossa e a coordenação olho-mão. Assim sendo, a cada tarefa que ainda não está automatizada, há um rol de engrenagens no cérebro a fazer o seu trabalho para que a tarefa seja concluída com sucesso. Podemos ter tendência a ficar facilmente irritados se uma criança demora muito a fazer algo que nos é simples. Nesse momento, é importante que tenhamos a capacidade de nos colocarmos no lugar dela e compreendermos que a exigência, para si, é muito maior do que para o adulto. Nestes momentos, respiremos fundo e abstenhamo-nos de comentários como “dá cá que eu faço!”; “estás a demorar tanto para quê?!” e outros que possam ser sugestivos de um tom crítico. Se assim for, a criança pode sentir emoções como o medo de falhar e vergonha, o que poderá inibi-la de continuar a tentar.
Questione se quer ajuda, mas ofereça-a com conta, peso e medida
Naturalmente, um adulto responsivo é um adulto disponível a ajudar quando é preciso. Mas quando é verdadeiramente preciso! Por vezes esquecemo-nos que ajudar pode ser apenas fazer companhia, monitorizar ou motivar. Primeiramente, devemos ensinar as crianças e jovens a, de facto, pedirem ajuda quando precisam. Quando vemos que estão aflitas, podemos aguardar, ver se resolvem sozinhas e, se parecer demasiado difícil, podemos perguntar simplesmente se precisam de ajuda. Vamos mais longe: perguntar que ajuda querem, porque nem sempre a ajuda de que precisam é a que pensámos oferecer. Tomemos como exemplo uma criança que está a tentar atar os sapatos, mas cuja cabeça “deu um nó” ao tentar fazer um nó… podemos ter a tendência de achar que quer que lhe atemos por completo os atacadores, quando se calhar fazer as orelhas do laço pode ser suficiente e o resto vem! Muitas vezes, pequenas ajudas são mais do que suficientes. Mostrar como se faz para a criança repetir é, recorrentemente, uma boa aposta: o clássico “agora fazes tu!”.
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Ainda assim, “desconfie” dos pedidos e continue a motivar
Tanto quando uma criança ou jovem pede ajuda, como quando questionamos se precisa da mesma, pode ser importante analisar brevemente se está será mesmo necessária. Isto porque podem existir jovens com menor tolerância à frustração e que (por um lado, ainda bem!) recorrem ao adulto em demasia para colmatar as suas dificuldades, perdendo oportunidades de excelência de aprendizagem e de treinar a tolerância à frustração. Observe, e se perceber que até é dispensável, ofereça ajuda de outras formas: um abraço, um piscar de olho, um “estás a esforçar-te muito, acho que consegues”, um “continua, estás a ir bem” ou um “estou aqui se ficar demasiado difícil”. Ajudar nunca será sinónimo de fazer por eles.
Ajudamos para nos regularmos a nós mesmos?
Muitas vezes, por trás de uma criança ou adolescente que não tem espaço para tentar e falhar (e quem diz falhar, diz errar, magoar-se, fazer estragos, sujar coisas!) está um adulto com dificuldade de regular a sua ansiedade. Por vezes, o ponto nem é acharmos que o nosso filho não é capaz, mas o medo do que pode acontecer se o deixarmos tentar. Se subir sozinho à aranha no parque, pode cair. Se ajudar no jantar, pode queimar-se. Se for ao supermercado sozinho, pode perder-se. Se for ao cinema com os amigos, pode ser abordado por desconhecidos. Todas estas são, de facto, possibilidades. Mas escolher criar um filho é saber que poderemos apenas protegê-lo até certo ponto. Podemos monitorizar, impor regras e limites e tentar ao máximo dar-lhe as ferramentas de que precisa para que consiga proteger-se. A parentalidade será um equilíbrio constante entre agarrar, proteger, e deixar ir e confiar. Umas das necessidades psicológicas básicas humanas é a autonomia e competência: com o desenvolvimento de um senso de identidade, com oportunidade de explorar capacidades, de aprender e de arriscar. Assim sendo, a superproteção pode levar à frustração desta necessidade tão importante para crescer saudável.
Isto tudo significa que não podemos fazer nada pelos nossos filhos?
Claro que podemos, podemos e devemos! Podemos sempre que sentirmos que é verdadeiramente útil e que a nossa ajuda acrescenta. Devemos também fazê-lo quando queremos demonstrar carinho e amor: podemos ter um filho já perfeitamente capaz de se servir de uma chávena de chá. Mas se o queremos mimar, não vamos levar-lhe um chá porquê? Serve para todas as relações!
Por último, sei que o tom da crónica assentaria melhor num mundo ideal onde não há pressa. Sei que muitas manhãs são caóticas, sei que muitas vezes o tempo está a contar… e que demoraríamos 10 segundos a fazer algo que a criança demora 5 minutos a fazer. Compremos as nossas lutas: se é uma competência que é mesmo necessário treinar, acordar 10 minutos mais cedo pode valer a pena. Por vezes pode fazer sentido fazê-lo e, noutros dias, não dará mesmo. É uma questão de equilíbrio! Não procuramos extremos, e muito menos pais exaustos com a tentativa infrutífera de ser os pais perfeitos. Que não existem. Vamos refletir, pensar sobre nós mesmos e adaptar o que fizer sentido à nossa família.
Feliz 2026, com pais corajosos o suficiente para deixar os filhos serem aventureiros!
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