Quem abasteceu o automóvel nos últimos dias já sentiu no bolso o impacto da guerra no Irão. A subida agressiva dos preços dos combustíveis é o efeito direto mais visível do conflito no Médio Oriente, mas há choques indiretos que também podem ser substanciais e outros que vão demorar mais tempo a atingir o rendimento disponível das famílias.

A duração da guerra será o fator decisivo para determinar o impacto real do conflito no custo de vida dos consumidores. O presidente dos Estados Unidos começou por mencionar quatro a cinco semanas, afirmou depois que iria terminar em breve, mas os sinais continuam a apontar para um agravamento das tensões numa série de países do Médio Oriente, numa escalada de consequências ainda imprevisíveis e desfecho muito incerto.

No cenário desfavorável de a guerra perdurar por várias semanas, a pressão sobre a generalidade dos preços dos bens e serviços será inevitável, tendo potencial para fazer disparar a inflação a nível global e travar a fundo o crescimento da economia mundial. Num cenário mais favorável de resolução rápida do conflito, a escalada dos preços ficará circunscrita às matérias-primas energéticas e será de curta duração.

Além do impacto nos preços dos bens e serviços, a fatura da guerra no Irão também pode chegar às famílias por outras vias. Através do agravamento das prestações do crédito e ainda com as desvalorizações generalizadas dos preços dos ativos cotados nos mercados financeiros, sobretudo ações e obrigações. Existe ainda a possibilidade de as famílias serem penalizadas por um agravamento do desemprego e outros fatores macroeconómicos que resultem da guerra, mas neste artigo vamos focar-nos no triplo efeito da subida de preços, aumento de juros e instabilidade nos mercados. 

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Combustíveis mexem com tudo

A escalada dos preços do petróleo nos últimos dias está diretamente relacionada com o fecho quase total do Estreito de Ormuz, uma zona estratégica controlada pelo Irão e por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido a nível mundial (em redor de 20 milhões de barris por dia).

Vedada a possibilidade de escoar o crude por esta via e com a capacidade de armazenamento a esgotar-se rapidamente, os países do Golfo do Pérsico estão a realizar cortes drásticos na produção. Na segunda semana de guerra as estimativas apontavam para uma subtração na oferta de 7 milhões de barris de petróleo por dia, o que representa um terço da produção na região e cerca de 6% do consumo a nível mundial.

Uma disrupção desta dimensão, que muitos especialistas já classificam como a maior de sempre, tem impactos óbvios nas cotações da matéria-prima. O Brent (petróleo que serve de referência para a Europa) disparou para perto de 120 dólares, o que representa um máximo desde 2022. Aliviou depois para o patamar dos 90 dólares e já regressou aos três dígitos, o que traduz uma valorização superior a 50% desde início do ano e mais de 30% desde o início da guerra.

Além do impacto evidente da subida das cotações do petróleo nos preços de uma gama alargada de bens e serviços, a guerra e o fecho do Estreito de Ormuz representam um constrangimento significativo nas cadeias de abastecimento globais, com potencial para acentuar a subida da inflação. Basta lembrar o que aconteceu em reação à pandemia e à guerra na Ucrânia, com os atrasos na entrega de mercadorias a provocarem um aumento substancial dos preços.

  • Combustíveis disparam. O aumento de 20 cêntimos no preço do litro do gasóleo em Portugal, após a primeira semana de guerra, mostra como o impacto nos combustíveis é quase imediato e pode ser substancial. Os preços são determinados em função das cotações dos combustíveis nos mercados, que têm uma forte correlação com o petróleo, pelo que é expetável que haja oscilações acentuadas ao longo das próximas semanas.
  • Gás pressiona eletricidade. Os preços do gás natural na Europa registaram valorizações ainda mais acentuadas do que o petróleo, mostrando que quatro anos depois da guerra na Ucrânia, os países europeus continuam fortemente vulneráveis a choques energéticos. A matéria-prima disparou mais de 50% desde o início da guerra no Irão, o que vai traduzir-se num agravamento da fatura dos consumidores com esta fonte energética e também com a eletricidade. Vai demorar mais tempo a chegar ao bolso das famílias, mas os aumentos serão inevitáveis, mesmo que os preços persistam nos níveis atuais.
  • Empresas aumentam preços. Com aumentos desta magnitude nos preços da energia, as empresas não terão capacidade para encaixar este aumento de custos nas margens, pelo que também terão de repercutir nos preços de venda ao consumidor. O impacto é sobretudo mais grave nas companhias industriais e de utilização intensiva de energia, onde a resposta até pode passar por uma redução da produção, o que também terá reflexo nos preços. A subida dos preços dos transportes é outro fator de pressão, sobretudo para os produtos importados, pois o valor dos fretes está a subir de forma acentuada.
  • Fatura do supermercado mais alta. O Estreito de Ormuz serve sobretudo para transportar petróleo, mas também para mercadorias, pelo que o efeito direto vai além das matérias-primas energéticas. O comércio de fertilizantes também está a ser alvo de uma forte disrupção, o que pode ter implicações substanciais na oferta e preços dos produtos agrícolas. A ONU já avisou que o conflito no Médio Oriente vai pressionar em alta os preços dos alimentos e a APED alertou que o impacto deve chegar às prateleiras dos supermercados portugueses dentro de dois meses.    
  • Compras em dólares mais dispendiosas. A guerra no Irão está a ter um impacto substancial no mercado cambial, com o dólar a ganhar terreno às principais divisas mundiais. Para além de encarecer ainda mais o petróleo e derivados (cotados na moeda norte-americana), para os europeus vai ficar mais dispendioso comprar artigos norte-americanos e viajar para os Estados Unidos e outros países que utilizam o dólar. 

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Agravamento das prestações do crédito

A evolução dos preços do petróleo e outras matérias-primas energéticas tem impacto substancial na inflação, o que representa uma dor de cabeça acrescida para os bancos centrais, pois muitos não deram ainda por concluída a luta contra as pressões inflacionistas que iniciaram em 2022 e obrigaram uma subida agressiva das taxas de juro.

De acordo com os cálculos do Fundo Monetário Internacional (FMI), uma subida de 10% nos preços da energia, que persista durante um ano, impulsiona a inflação global em 40 pontos base e reduz o crescimento económico entre 0,1% e 0,2%. Cálculos da Comissão Europeia colocam a inflação da Zona Euro nos 3% com o petróleo a persistir nos 100 dólares. Se há quatro anos as autoridades monetárias demoraram a responder ao surto da inflação, agora não vão querer repetir o mesmo erro.

Os responsáveis do BCE já deixaram claro que vão agir se a subida dos preços do petróleo representar uma ameaça para a inflação, pelo que o mercado já está a estimar que o banco central da Zona Euro pode subir os juros por uma ou duas vezes este ano. Um claro contraste com as perspetivas antes do início da guerra no Irão, pois o consenso apontava para a estabilização da política monetária e era mais alta a probabilidade de um corte de juros.

Mesmo que o BCE mantenha os juros na reunião de março e nos meses seguintes, as famílias podem sofrer com aumentos das prestações dos créditos que estão indexados a taxa variáveis. A Euribor a 6 meses já está nos 2,3%, o nível mais elevado desde abril do ano passado e 30 pontos base acima do mínimo registado em julho. A Euribor a 12 meses, que reflete as perspetivas para os juros do BCE num horizonte temporal mais largo, registou a maior subida diária em 18 anos no dia 10 de março e superou a barreira dos 2,5%.

Um crédito à habitação de 200 mil euros a 30 anos, indexado à Euribor a 12 meses nos 2,1% e com um spread de 1,2%, paga atualmente uma prestação mensal de 876 euros. Se na altura da revisão o indexante estiver nos 2,5%, a prestação sobe para 921 euros. Se o agravamento for mais substancial (Euribor a 12 meses nos 3%), o salto na prestação já será de 100 euros por mês.

Um aumento desta dimensão nas taxas Euribor contempla um cenário desfavorável em que o petróleo negoceie acima dos 100 dólares por um período prolongado, pressionando o BCE a efetuar múltiplas subidas de juros de 25 pontos base. É nesta altura pouco provável, mas o desfecho do conflito no Médio Oriente é ainda muito incerto.   

Instabilidade pressiona ações e obrigações

A desvalorização da maioria dos ativos cotados é a outra via pela qual as famílias podem ser penalizadas com os efeitos indiretos da guerra no Irão. A instabilidade no Médio Oriente está a provocar quedas intensas nas ações e obrigações, com os investidores a temerem o impacto negativo na inflação e na atividade económica a nível global, o que penalizará os resultados das empresas e o retorno dos títulos de dívida.

O Stoxx600, índice que agrupa as maiores cotadas europeias, acumula uma desvalorização de 5% desde o início da guerra, atenuando o saldo positivo de 2026 para menos de 1%. O PSI, que mede o desempenho das empresas portuguesas, recua perto de 3% no mesmo período, enquanto o índice MSCI World (ações mundiais) desvaloriza mais de 3%.

Um arrastamento do conflito por mais tempo, acompanhado pela manutenção dos preços do petróleo em níveis elevados, tem potencial para acentuar o movimento de correção nas ações globais, que negociavam em máximos históricos antes dos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irão.

As obrigações registam habitualmente um desempenho positivo nos momentos de turbulência nas bolsas, mas desta vez não estão a servir de porto de abrigo. As yields estão a registar subidas expressivas (cotações variam em sentido contrário às yields) devido às alterações significativas nas perspetivas para a evolução da política monetária dos bancos centrais globais. Daí que, mesmo os investidores mais avessos aos ativos de risco, estejam a sofrer retornos negativos devido ao impacto da guerra no Irão nos mercados financeiros. O índice que mede o desempenho das obrigações globais já anulou os ganhos superiores a 2% que registava no final de fevereiro.

Se nos preços dos bens e serviços as perdas de rendimento das famílias já estão a ser reais e têm tendência para se agravar, no caso dos investimentos nos mercados as perdas só se materializam se os investidores venderem os ativos. Acresce que as ações e obrigações também serão as primeiras a recuperar assim que o conflito no Médio Oriente chegue ao fim, ou existam perspetivas firmes nesse sentido.

Como se destacou no início deste artigo, vai ser a duração do conflito a determinar se o impacto da guerra no Irão nos bolsos das famílias será passageiro ou ditará uma nova crise. São vários os efeitos diretos e muitos os indiretos. Há custos que já estão a ser assumidos e outros que só serão sentidos dentro de algum tempo, mas o impacto negativo é inevitável.   

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A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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