A dificuldade de atuar eficazmente no mercado de ações transparece logo no título deste filme de 2023. Na tradução do original «Dumb Money», países como o Brasil optaram por “Dinheiro Fácil”, enquanto alguns países de língua castelhana fugiram da expressão inglesa, optando por “El poder de los centavos”. Em Espanha, o título “Golpe a Wall Street” acaba por ser bastante explícito, mas continuamos distantes da expressão original que nos remete para “dinheiro burro” ou “dinheiro inexperiente”, de que alguns se aproveitam. A certa altura, num telefonema entre dois milionários, as apostas dos pequenos investidores são caraterizadas como “dumb money”. Do outro lado da linha, vem uma resposta pronta: «Fico com ele». Ou seja, os mais sabidos, os mais experientes, não têm problemas de consciência em ficar com o dinheiro dos menos espertos. É, segundo eles, “dinheiro fácil” que lhes vem parar às mãos.
Um tipo normal com uma aposta de alto risco
O filme relata, precisamente, a rebelião desses investidores inexperientes contra os poderosos de Wall Street. «Um tipo normal investe as suas poupanças em ações da loja de videojogos GameStop e faz uns vídeos sobre isso», diz a sinopse oficial. «Quando as suas publicações nas redes sociais se tornam virais, e a sua dica sobre investimentos em ações se transforma num movimento, todos ficam ricos. Até que os bilionários decidem retaliar.»
Relembre-se que já aqui trouxemos esta história, então em formato de documentário. Mas este filme vale a pena, ao fazer-nos acompanhar as dúvidas e as certezas dos pequenos e dos grandes investidores. A diferenciação de extratos começa logo na apresentação das personagens, que aparecerem no ecrã com o seu valor estimado. Se uns têm milhões de dólares na conta, outros têm apenas um saldo positivo na ordem das centenas de dólares, quando não estão endividados até ao pescoço. Quanto a Keith Gill (Paul Dano), pois que é o tal tipo normal, que achou boa ideia apostar todas as economias familiares em ações da GameStop.

Calma, o Stephen Colbert explica tudo!
De inicialmente gozado, por aparecer nos vídeos rodeado de imagens de gatos e por anunciar publicamente a sua “aposta burra” numa cadeia de lojas físicas de videojogos, GatoFeroz acaba por tornar-se, involuntariamente, líder de um movimento. A sua dica de investimento soa como um grito de revolta contra o sistema. Comprar ações da empresa que Wall Street deseja ver na falência passa a ser encarado como a hipótese de os pobres se unirem para combater os ricos, aqueles que gostam de apostar na especulação, que não se importam de lucrar com a desgraça alheia, que prosperam até nos tempos economicamente turbulentos para a maioria das pessoas. Quanto mais gente comprasse ações da GameStop, mais o valor da ação subiria. E mais aflitos ficariam os fundos que tinham apostado numa estratégia de vendas a descoberto.
É aqui que, para um texto com pretensões de literacia financeira, dá muito jeito a aparição de Stephen Colbert, apresentador do The Late Show, a explicar o que se estava então a passar:
«No final do ano passado, os fundos de cobertura começaram a vender ações a descoberto da GameStop. Ou seja, apostaram contra essa empresa e precisavam que o preço das ações caísse para que o investimento deles fosse bem-sucedido. Infelizmente para eles, os pequenos investidores começaram a comprar ações, guiados por algo chamado WallStreetBets, uma página desbocada do Reddit, bastante popular entre os jovens. Quando essa comunidade notou que os fundos de cobertura tinham tomado uma grande posição de vendas a descoberto na GameSpot, decidiu punir os grandalhões de Wall Street, lançando uma onda de compras coordenadas. Os revolucionários do Reddit estão a dar uma coça a Wall Street!»
Leia ainda: Sexo, drogas e a bolsa de Wall Street
Princípios, vícios, ganância e frenesim mediático
A trama de «Dumb Money» abrange todas as dimensões do caso real, naqueles anos assolados por confinamentos. Apostar na bolsa equivalia tanto a uma distração das mortes provocadas pelo coronavírus, como a um modo de, quem sabe, fazer algum dinheiro numa altura em que parte da economia estava estagnada. E, de facto, vamos assistindo com excitação à forma prodigiosa como pequenos investimentos atingem somas capazes de mudar uma vida. Porém, se o valor das ações subia dia após dia, quando seria a altura certa para parar, para dizer “isto já me chega”? No meio da «coisa mais maluca que o mercado já viu», os ganhos só seriam reais quando se desse a ordem de venda das ações exponencialmente valorizadas. Alguns pais aconselhavam os filhos a saírem daquela roda enquanto era tempo. A não serem gananciosos. A terem cuidado para não ficarem viciados naquela gamificação da bolsa, como se fosse uma droga.
O contexto, porém, era ainda mais complexo. O discurso no grupo do Reddit comparava os pequenos investidores a um bando de hienas que se juntara para tentar abater o leão nascido em berço de ouro. Vender ações da GameSpot seria uma traição aos pares; uma cedência aos tubarões de Wall Street. “Aguentar a posição” tornara-se uma questão de princípio.
Durante meses, milhões de utilizadores olharam constantemente para os seus ecrãs de telemóvel, hipnotizados pelo valor crescente dos títulos da GameSpot. A aplicação RobinHood, que não cobrava comissões aos utilizadores pelas transações na bolsa de valores, acabaria por desempenhar um papel crucial neste movimento revolucionário e, igualmente, uma ação determinante no desfecho do caso. Seriam os criadores da aplicação capazes de resistir às pressões dos poderosos fundos? Num passo, instalava-se o frenesim mediático em volta do assunto, que culminaria com a criação de uma comissão de inquérito por parte do Congresso norte-americano.
O “dinheiro burro” que se fez inteligente
No seu depoimento aos deputados, Keith Gill considerou alarmante que se soubesse tão pouco sobre o funcionamento interno do mercado de ações. O modelo existente, a seu ver, talvez já estivesse fraturado o na raiz. «O conceito inerente ao mercado de ações é o de ser um campo de jogo justo onde, se formos espertos e tivermos um pouco de sorte, se pode fazer fortuna. Mas, se algum dia foi assim, deixou de o ser. As grandes empresas têm tantas vantagens em termos de tecnologia, informação e riqueza que não existe qualquer esperança para os pequenos. Ou não havia. Talvez agora haja.»
O final do filme atualiza o valor estimado das personagens. Afinal, GatoFeroz vendeu ou não a sua posição na GameStop? Seja como for, as frases do epílogo dizem que o mercado de ações nunca mais foi o mesmo. Com medo de sofrerem novos apertos, os fundos diminuíram de forma drástica as suas posições de vendas a descoberto. E passaram a vasculhar a Internet, na tentativa de descobrir os títulos em que os pequenos investidores estão a apostar.
Ou seja, desde a saga GameSpot que Wall Street deixou de poder ignorar o que anda a fazer o tal “dinheiro burro”…
Leia ainda: A ganância é boa, segundo Gordon Gekko
