Proteger a saúde mental dos trabalhadores pode representar uma poupança de 3,98 mil milhões de euros por ano para as empresas portuguesas. O valor pressupõe uma redução de 30% das perdas de produtividade associadas ao stress e aos problemas de saúde psicológica.
A estimativa consta do relatório Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações – Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho, em Portugal, divulgado em outubro de 2026 pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP).
O estudo estima que estas perdas possam custar até 13,3 mil milhões de euros anuais às empresas portuguesas, sendo que cerca de dois terços acontecem quando os trabalhadores continuam ao serviço, mas com menor produtividade. Nas pequenas e médias empresas (PME), o impacto estimado equivale a 16,5% das despesas anuais com pessoal.
Quanto podem as empresas poupar ao investir na saúde mental?
As empresas portuguesas poderiam poupar aproximadamente 3,98 mil milhões de euros por ano se conseguissem reduzir em 30% as perdas de produtividade associadas ao stress e aos problemas de saúde psicológica. Segundo a OPP, cerca de 3,06 mil milhões corresponderiam às PME e 923 milhões às grandes empresas. Em termos médios, a poupança potencial equivale a quase 10,9 milhões de euros por dia, embora o resultado efetivo dependa das medidas adotadas e da sua eficácia.
Stress e problemas psicológicos podem custar 36 milhões por dia
Os 13,3 mil milhões de euros de perdas anuais estimadas pela OPP representam cerca de 2,1% do volume de negócios das empresas portuguesas não financeiras em 2024.
Para perceber a dimensão deste valor, basta distribuí-lo pelos 365 dias do ano. O resultado equivale a 36,4 milhões de euros por dia ou 1,5 milhões de euros por hora. São valores ilustrativos, obtidos através da divisão da estimativa anual pelos dias e horas de calendário, e não perdas efetivamente registadas pelas empresas em cada período.
Dois terços das perdas acontecem sem faltas ao trabalho
Uma das conclusões mais relevantes do relatório é que a maior parte das perdas estimadas não resulta das ausências dos trabalhadores.
Cerca de 8,9 mil milhões de euros estão associados ao chamado presentismo, que acontece quando uma pessoa continua a trabalhar, mas apresenta um desempenho inferior ao habitual devido a problemas de saúde. Já o absentismo, correspondente às faltas ao trabalho, representa aproximadamente 4,4 mil milhões de euros.
Assim, por cada euro de produtividade perdido devido às faltas, a OPP estima uma perda de dois euros entre os trabalhadores que continuam ao serviço, mas com menor rendimento. A diferença mostra que uma empresa pode registar poucas ausências e, ainda assim, enfrentar perdas significativas relacionadas com a saúde psicológica.
Quantos dias de trabalho se perdem devido ao stress?
Segundo os cálculos da OPP, em 2024, cada trabalhador perdeu, em média, o equivalente a 40,5 dias de produtividade devido ao stress e a problemas de saúde psicológica. Deste total, 13,5 dias correspondem a ausências ao trabalho e 27 dias à perda de produtividade de quem continua ao serviço, mas apresenta um desempenho inferior ao habitual.
Os dias associados ao presentismo representam o tempo equivalente de produtividade perdida durante o trabalho. Apenas os restantes 13,5 dias correspondem a ausências efetivas.
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Nas PME, as perdas representam 16,5% dos gastos com pessoal
O relatório abrange cerca de 1,59 milhões de empresas não financeiras, que empregavam pouco mais de cinco milhões de trabalhadores em 2024. Destes, aproximadamente 3,87 milhões trabalhavam em PME e 1,17 milhões em grandes empresas.
Segundo a OPP, as PME concentram cerca de 10,2 mil milhões de euros das perdas de produtividade estimadas, enquanto nas grandes empresas o valor ronda os 3,1 mil milhões.
A diferença torna-se mais relevante quando se compara este custo com as despesas anuais com salários e encargos sociais. Nas PME, as perdas equivalem a 16,5% dos gastos com pessoal, contra 8,5% nas grandes empresas. Considerando todas as empresas analisadas, representam aproximadamente 13,5% destas despesas.
Esta comparação revela o peso proporcionalmente superior das perdas de produtividade nos gastos com pessoal das PME, sem permitir concluir que os seus trabalhadores apresentam mais problemas de saúde psicológica.
Perdas de produtividade mais do que duplicaram entre 2022 e 2024
A comparação com os relatórios anteriores da OPP revela um aumento expressivo dos custos estimados. Entre 2022 e 2024, a perda económica calculada aumentou cerca de 151%. Também os dias de trabalho perdidos devido ao stress e a problemas de saúde psicológica registaram uma subida significativa.
Indicador | 2020 | 2022 | 2024 |
Perda de produtividade estimada | 3,2 mil milhões euros | 5,3 mil milhões euros | 13,3 mil milhões euros |
Absentismo (dias por trabalhador) | 6,2 | 8 | 13,5 |
Presentismo (dias equivalentes por trabalhador) | 12,4 | 15,8 | 27 |
Total de dias equivalentes por trabalhador | 18,6 | 23,8 | 40,5 |
Fonte: OPP, relatórios de 2020, 2023 e 2026. Os valores monetários são estimativas arredondadas. A última linha resulta da soma dos dias atribuídos ao absentismo e ao presentismo.
Entre 2022 e 2024, os dias equivalentes de produtividade perdida aumentaram cerca de 70%, abaixo da subida de 151% no custo económico estimado. O cálculo monetário considera também o número de trabalhadores e o valor atribuído a cada dia de trabalho perdido, pelo que a evolução dos custos não corresponde necessariamente a uma subida equivalente da prevalência dos problemas de saúde psicológica.
Portugal supera a média europeia nos problemas psicológicos no trabalho
Além das perdas económicas, os indicadores europeus ajudam a compreender a dimensão dos problemas de saúde psicológica entre os trabalhadores portugueses.
Segundo os resultados do OSH Pulse 2025, da Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (EU-OSHA), 34% dos trabalhadores portugueses referiram ter sentido stress, depressão ou ansiedade provocados ou agravados pelo trabalho nos 12 meses anteriores, acima dos 29% registados na média da União Europeia.
Os resultados mostram também uma maior exposição dos trabalhadores portugueses a determinados fatores de risco, nomeadamente à pressão dos prazos e à sobrecarga laboral.
Excesso de trabalho e falta de reconhecimento entre os principais riscos
De acordo com o mesmo inquérito, realizado em 2025, destacam-se três fatores de risco psicossocial entre os trabalhadores portugueses:
- Pressão dos prazos ou sobrecarga de trabalho (49%), acima dos 44% da média europeia;
- Falta de recompensas adequadas ao esforço (37%), incluindo salários, oportunidades de progressão e reconhecimento, contra 34% na União Europeia;
- Problemas de comunicação e cooperação dentro das organizações (28%), ligeiramente abaixo da média europeia de 29%.
O relatório da OPP identifica ainda a insegurança laboral, a falta de autonomia, os conflitos, a discriminação, o assédio e o trabalho por turnos como fatores que podem prejudicar a saúde psicológica.
Apesar destes riscos, apenas 27% dos trabalhadores portugueses afirmam ter acesso a aconselhamento ou apoio psicológico no local de trabalho, contra 40% na média europeia, segundo o OSH Pulse 2025. Além disso, só 30% referem que as empresas consultam os trabalhadores sobre os aspetos do trabalho que provocam stress, face a 45% na União Europeia.
Investir na saúde psicológica pode trazer retornos financeiros
A OPP cita vários estudos internacionais que ajudam a enquadrar os benefícios económicos da prevenção dos problemas de saúde psicológica.
Uma investigação de 2022 aponta para um retorno de cinco euros por cada euro investido em saúde psicológica. Outro estudo identificou benefícios económicos entre 0,81 e 13,62 euros por cada euro aplicado em programas de promoção da saúde psicológica no trabalho.
Estes retornos resultam de investigações realizadas em contextos diferentes, pelo que os benefícios financeiros para cada empresa portuguesa dependerão das intervenções adotadas e dos resultados alcançados.
O que recomenda a Ordem dos Psicólogos às empresas?
A OPP defende que a saúde psicológica deve fazer parte das decisões de gestão, em vez de ser tratada apenas quando surgem baixas médicas ou situações de exaustão.
Entre as principais recomendações dirigidas aos empregadores estão:
- Avaliar regularmente os riscos psicossociais, identificando situações de sobrecarga, conflitos, violência, discriminação ou assédio;
- Ouvir os trabalhadores e partilhar os resultados das avaliações, envolvendo as equipas na identificação de soluções;
- Melhorar as práticas de liderança e comunicação, promovendo maior autonomia, reconhecimento e apoio;
- Facilitar a conciliação entre a vida profissional e pessoal, incluindo medidas de apoio à parentalidade e modalidades de trabalho ajustadas;
- Criar planos de prevenção e acompanhar os resultados, integrando indicadores de saúde psicológica nos objetivos da empresa.
A Ordem recomenda também o envolvimento de psicólogos do trabalho na avaliação dos riscos e no desenvolvimento de estratégias de intervenção.
Semana de quatro dias entre as propostas aos decisores
O relatório apresenta ainda recomendações dirigidas aos decisores políticos, incluindo o incentivo a experiências de reorganização do tempo de trabalho.
Uma das propostas passa por alargar os testes à semana de quatro dias, sem redução salarial, quando o modelo seja compatível com a atividade da empresa. A OPP defende que estas experiências devem acompanhar indicadores como produtividade, absentismo, presentismo, burnout e conciliação entre trabalho e família.
O documento recorda que o projeto-piloto português envolveu 41 empresas privadas e mais de mil trabalhadores.
A Ordem propõe também alterações à legislação de segurança e saúde no trabalho, para tornar expressamente obrigatória a avaliação dos riscos psicossociais e a implementação de planos de prevenção.
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O custo real pode ser superior ao estimado?
Os 13,3 mil milhões de euros apresentados pela OPP não abrangem todos os custos dos problemas de saúde psicológica no trabalho. A estimativa considera apenas empresas não financeiras, excluindo a Administração Pública, e contabiliza exclusivamente as perdas de produtividade associadas ao absentismo e ao presentismo.
Ficam de fora outras consequências económicas, como despesas com tratamentos, rotatividade, substituição de trabalhadores, acidentes e problemas legais.
O cálculo tem ainda limitações metodológicas. A Ordem partiu de uma estimativa de 27 dias anuais de trabalho perdidos por motivos de saúde em geral e considerou que metade poderia estar relacionada com stress e problemas psicológicos. Para o presentismo, assumiu uma perda duas vezes superior à do absentismo. A conversão em valor económico foi feita com uma remuneração diária média aproximada de 65 euros.
A OPP reconhece que o recurso a valores médios e a exclusão de diferentes custos limitam a precisão dos resultados. Por isso, os montantes apresentados devem ser interpretados como estimativas da dimensão económica do problema, e não como despesas diretamente apuradas nas contas das empresas.
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