Imagem de cromos de futebol do Mundial

A febre começa ainda antes de os campeonatos nacionais acabarem e de os selecionares anunciarem os jogadores convocados. Quando há um grande torneio de seleções, o mês de maio é sinónimo do início das coleções de cromos.

O fenómeno é transversal a várias gerações, que tentam completar a coleção trocando cromos com amigos e até com desconhecidos, à boleia da internet e de eventos de troca organizados.

No Youtube, há até vários criadores de conteúdos a fazerem vídeos onde abrem saquetas e colam cromos (alguns são até especialistas no tema, com canais dedicados ao colecionismo de cromos de futebol).

Quer se tratem de colecionadores regulares ou esporádicos, uma coisa é certa: ter todos os cromos exige tempo, paciência… e dinheiro. Afinal, quanto custa completar a caderneta do Mundial 2026?

Nunca houve tantos cromos, e isso tem um custo

A primeira caderneta de mundiais de futebol foi lançada há 56 anos. Na altura, era preciso ter 270 cromos para completar a coleção do Mundial 1970, no México. De lá para cá, o número mais do que triplicou.

Se recuarmos 20 anos, a caderneta do Mundial 2006 teve 597 cromos. Seguiu-se a do Mundial 2010 com 638 cromos, a do Mundial 2014 com 639, a do Mundial 2018 com 682, e a do Mundial 2022 com 670 cromos.

E eis que chegamos a 2026, com um salto de 310 cromos em relação à edição anterior. A coleção do Mundial que se realiza no Canadá, Estados Unidos e México tem 980 cromos, um recorde potenciado pelo aumento do número de seleções participantes de 32 para 48.

São mais 16 equipas e isso, naturalmente, tem um custo. Mesmo que o preço por cromo só tenha aumentado um cêntimo em relação à edição anterior.

Saquetas são mais caras, mas trazem mais cromos

A caderneta do Mundial 2026 é a primeira em que as saquetas custam mais do que um euro. Se voltarmos a tomar como referência a coleção de 2006, o preço subiu 1,10 euros: de 40 cêntimos para 1,50 euros.

Comparativamente ao Mundial 2022, a subida foi de 50 cêntimos. Ainda assim, há uma atenuante: se antes traziam cinco cromos, agora trazem sete. Ou seja, em 2022 cada cromo custava 20 cêntimos, e em 2026 custa 21 cêntimos.

Para calcular o preço de completar a caderneta bastaria multiplicar o número de cromos pelo seu custo, certo? Podia ser… mas não é assim que funcionam estas coleções.

Se não houver repetidos, caderneta custa 210 euros

Se aquela bola não tivesse ido ao poste, se o guarda-redes não tivesse defendido, se o defesa não tivesse falhado o corte. O final de um jogo de futebol é, não raras vezes, vivido no condicional.

E o ato de completar uma caderneta também o pode ser. 210 euros é, neste contexto, um número um tanto ou quanto utópico. Era isto que custaria acabar a caderneta do Mundial 2026 se os cromos saíssem todos à primeira e se nunca calhassem cromos repetidos.

Mas isso seria proeza rara. Por isso, o melhor é mesmo pôr este número de parte e apontar para valores mais altos. Mesmo que, em declarações à Rádio Renascença, o diretor-geral da Panini Espanha diga que, este ano, “não há muitos repetidos”.

Pode a caderneta custar mais de 1.000 euros?

Na altura do Mundial 2018, Paul Harper, professor da Faculdade de Matemática da Universidade de Cardiff, criou uma fórmula para calcular quantos cromos seria preciso comprar para completar a caderneta daquele torneio, tendo em conta que há sempre jogadores repetidos.

Se a usarmos para perceber quantos são precisos em 2026, o resultado é de 7.296 cromos, ou seja, 1.043 saquetas. Tendo em conta o preço de 1,50 euros por saqueta, o custo final seria de 1.574,50 euros.

Este professor diz ainda que se duas pessoas trocarem cromos entre si, o número de saquetas necessário baixa 30%. Se forem cinco pessoas baixa 57%, e se foram 10 pessoas baixa 68%. Neste último caso, de um grupo grande a trocar cromos entre si, o preço baixa para cerca de 500 euros.

Há quem diga ter completado tudo por 600 euros sem trocar cromos

Uma coisa é o que nos dizem as fórmulas, outra é o que nos diz (ou alega dizer) a experiência. Um youtuber do Reino Unido com um canal dedicado à coleção de cromos e cartas desafiou-se a completar a caderneta do Mundial 2026 sem trocar qualquer cromo.

O resultado ficou bem abaixo dos mais de 1.500 euros projetados pela fórmula do professor Paul Harper. O último cromo apareceu ao fim de 402 saquetas. Se acreditarmos nesta versão, a coleção completa custou 603 euros.

É verdade que um exemplo é sempre uma base frágil para retratar a realidade, mas mesmo aqui é possível perceber o efeito que os cromos repetidos têm no aumento do custo total da caderneta (relembramos que num cenário perfeito custaria 210 euros).

Com as primeiras 100 saquetas (700 cromos), este youtuber conseguiu preencher 685 espaços na caderneta. Aqui, o custo estava nos 150 euros. Ou seja, os 295 cromos em falta custaram 453 euros (uma média de 1,54 euros por cromo).

Mas vamos mais a fundo na história. Ao fim de 260 saquetas abertas e de 390 euros gastos, ainda faltavam 30 cromos. Contas feitas, essas três dezenas custaram 213 euros, numa média de 7,10 euros por cromo.

Pode pedir os cromos em falta para acabar a caderneta do Mundial 2026

Além da habitual troca de cromos entre colecionadores, há ainda outra forma de acabar a caderneta do Mundial sem ser necessário abrir saquetas na esperança de que calhem aqueles últimos jogadores em falta.

A Panini, criadora e distribuidora da caderneta, permite pedir os stickers que faltam. Pode encomendar, no máximo, 250 cromos. Se tomarmos como referência o preço de um cromo à la carte do Mundial 2022, o preço unitário é de um euro (com desconto de 10% se usar um código que está na caderneta). É acima do custo normal, mas abaixo daquele que custa abrir saquetas em vão.

Ainda assim, esta opção não está disponível logo de início e é preciso esperar algum tempo até que a compra avulsa seja possível. E isso pode ser um entrave para quem gosta de completar tudo o mais cedo possível.

O colecionismo também pode dar dinheiro

Completar cadernetas obriga a gastar dinheiro, mas, com alguma sorte, também pode ajudar a ganhar. Há sempre colecionadores à procura de cromos raros. E esses podem valer desde algumas dezenas até milhares e milhões de euros.

Esta coleção do Mundial tem 20 cromos extra, que não se colam em lugar nenhum e servem apenas para guardar. E neste lote há uns mais raros do que outros.

É o caso de um do argentino Lionel Messi, que na página portuguesa do OLX está à venda por valores entre os 120 e os 700 euros (os valores no ebay são semelhantes). Se alguém os vai comprar é outra questão. Mas também há quem use estas raridades como moeda de troca para vários cromos que tem em falta.

Subimos para outros patamares apenas para mostrar alguns dos maiores negócios já feito à conta de cromos e cartas de futebol. Em 2021, um cromo de Maradona quando tinha 19 anos foi vendido num leilão por mais de 540 mil euros.

Mas há mais: em 2025, uma carta de Messi relativa à sua primeira época no Barcelona foi vendida por 1,3 milhões de euros, batendo o anterior recorde de 1,1 milhões de euros pago, em 2021, por uma carta de Pelé do Mundial 1958.

Saltando fora do futebol, há valores ainda mais astronómicos. Em 2022, um cromo do ex-jogador de basebol americano Mickey Mantle foi vendido por 10,7 milhões de euros. E, em 2025, uma carta com as figuras dos basquetebolistas Michael Jordan e Kobe Bryant, assinada por ambos, foi leiloada por 11 milhões de euros.

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