Comprar casa sozinho ou em conjunto pode fazer toda a diferença em relação ao imóvel com que se pode sonhar. Se ambas as pessoas tiverem poupanças e rendimentos, o valor da entrada pode ser maior e a capacidade de endividamento também cresce.
Tudo isto parece óbvio e incontestável, mas não basta saber que se consegue chegar a uma casa mais cara. É preciso perceber até que valor.
Além disso, é importante ter em mente que os capitais próprios têm de dar para mais do que a entrada. É que ainda há gastos com impostos, comissões e registos.
O Simulador de Compra de Casa do Doutor Finanças já contempla tudo isso e foi com ele que simulámos vários cenários que mostram a diferença entre comprar casa a sós ou a dois. Ainda assim, é importante dizer que este simulador serve apenas como uma referência e não substitui a pré-aprovação ou aprovação por parte do banco.
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As regras na hora de pedir um crédito habitação
Os bancos têm de seguir as recomendações do Banco de Portugal, que impõe limites ao montante do empréstimo, à taxa de esforço com créditos e ao prazo do contrato. A conjugação de todas estas regras tem, como é natural, impacto na casa que se pode comprar.
Montante do empréstimo
Não é que haja um limite universal em relação ao montante que os bancos podem emprestar, mas o empréstimo para uma habitação própria permanente não pode ser superior a 90% do menor valor entre a aquisição e a avaliação do imóvel. Ou seja, por cada 100 mil euros, as instituições podem emprestar 90 mil.
Provavelmente, vai ouvir falar desta regra sob a designação rácio LTV (loan-to-value). Há bancos que definem até limites mais baixos, como 80% ou 85%.
A este propósito convém referir que os jovens até aos 35 anos podem ter um empréstimo a 100% através da garantia pública no crédito habitação.
Taxa de esforço com créditos
O rácio DSTI (debt service-to-income) é usado para medir a taxa de esforço com todos os créditos, que não deve ser superior a 50%. Ainda assim, sempre que possível é recomendável apontar abaixo desse limite, para evitar que algum imprevisto abale o orçamento familiar.
Prazo do contrato
O prazo do contrato vai influenciar a taxa de esforço. Quanto maior for, menor vai ser a taxa de esforço, uma vez que o crédito vai ser dividido por mais meses. No entanto, isso encarece o custo total do empréstimo, ao aumentar o montante de juros.
Dependendo da idade dos clientes, os prazos máximos são:
- 40 anos de contrato para clientes até aos 30 anos de idade;
- 37 anos de contrato para clientes entre 31 e 35 anos de idade;
- 35 anos de contrato para clientes com mais de 35 anos de idade.
Comprar casa sozinho ou em conjunto: Diferença pode superar os 100 mil euros
É diferente ter capitais próprios de 10.000 ou de 20.000 euros. Tal como é diferente ter um rendimento de 1.500 euros ou de 3.000 euros mensais.
Como é natural, neste exercício é impossível cobrir todos os cenários possíveis, mas fizemos simulações para vários níveis de rendimento, capitais próprios e apoios, uma vez que os jovens até aos 35 anos podem beneficiar da garantia pública e da isenção de impostos (IMT e imposto do selo sobre a aquisição).
No caso dos impostos, só há isenção total para imóveis até ao quarto escalão do IMT (330.539 euros, em 2026).
Para simplificar, assumimos sempre uma taxa de juro mista, por ser a mais escolhida nas novas operações de crédito habitação desde outubro de 2023, de acordo com o Banco de Portugal.
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1. Rendimentos médios
O primeiro cenário é o de duas pessoas com rendimentos médios: cada uma recebe 1.500 euros líquidos por mês. Os capitais próprios variam entre 10.000 (a sós) e 20.000 euros (a dois).
A. Sem garantia pública nem IMT Jovem
No cenário recomendado, uma pessoa sozinha com estes rendimentos e poupanças deve apontar para 66.093 euros. No fundo, é quase o mesmo que dizer que não consegue comprar casa.
Num cenário limite, pode chegar aos 166.885 euros, mas apenas se conseguir mais capitais próprios, sabendo que vai aumentar a prestação e que a taxa de esforço chegará aos 40%.
No entanto, se houver outro comprador, podem apontar para casa entre 167.585 euros e 333.770 euros. Mais uma vez, o valor máximo está dependente de um aumento dos capitais próprios e da taxa de esforço para 40%.
Uma pessoa (1.500€/mês) | Duas pessoas (3.000€/mês) | |||
Recomendado | Limite | Recomendado | Limite | |
Valor do imóvel | 66.093,06€ | 166.885,06€ | 167.585,16€ | 333.770,12€ |
Capitais próprios | 10.000€ | 21.848,76€ | 20.000€ | 38.375,21€ |
Valor do empréstimo | 59.483,47€ | 150.826,31€ | 150.826,31€ | 300.393,10€ |
Prestação | 237,62€* | 602,52€* | 602,52€* | 1.200€* |
Taxa de esforço | 16% | 40% | 20% | 40% |
B. Com garantia pública e IMT Jovem
Os jovens que usufruam da garantia pública podem ter financiamento acima de 90% do valor do imóvel. Além disso, poupam nos impostos, uma vez que estão isentos de IMT e imposto do selo sobre a aquisição.
No cenário recomendado, a isenção tributária permite reforçar o valor da entrada (uma vez que não tem de usar uma parte dos capitais próprios para o pagamento de impostos) e apontar para casas mais caras. Isto acontece também por via do aumento da taxa de esforço.
No entanto, no cenário limite, a garantia e as isenções fazem baixar o valor atingível. Isto acontece porque já não há muita margem para subir a taxa de esforço. Logo, o valor do empréstimo é semelhante ao valor do imóvel (e ambos são semelhantes ao crédito contraído sem apoio da garantia).
É isso mesmo que percebemos pelas simulações, em que uma pessoa sozinha pode procurar um imóvel entre 138.889 euros e 157.551 euros e duas pessoas podem apontar para casas entre 279.467 euros e 316.791 euros.
Uma pessoa (1.500€/mês) | Duas pessoas (3.000€/mês) | |||
Recomendado | Alternativo | Recomendado | Alternativo | |
Valor do imóvel | 138.888,75€ | 157.551,22€ | 279.467,02€ | 316.790,78€ |
Capitais próprios | 10.000€ | 10.000€ | 20.000€ | 20.000€ |
Valor do empréstimo | 131.422,38€ | 150.196,83€ | 262.843,53€ | 300.392,85€ |
Prestação | 525€* | 600€* | 1.050€* | 1.200€* |
Taxa de esforço | 35% | 40% | 35% | 40% |
2. Rendimento médio + rendimento alto
O segundo cenário é o de uma pessoa com um rendimento mensal de 1.500 euros e outra com um rendimento de 4.000 euros. Os capitais próprios variam entre 10.000 (a sós) e 30.000 euros (a dois)
A. Sem garantia pública nem IMT Jovem
Como já tínhamos visto acima, uma pessoa com um rendimento de 1.500 euros pode procurar casas entre 66.093 euros e 166.885 euros, de acordo com o Simulador de Compra de Casa do Doutor Finanças. Quando a ela se junta outra pessoa com rendimentos mais altos (4.000 euros mensais), as coisas mudam bastante.
No cenário recomendado, podem apontar para casas entre 217.494 euros e 611.912 euros.
Uma pessoa (1.500€/mês) | Duas pessoas (5.500€/mês) | |||
Recomendado | Limite | Recomendado | Limite | |
Valor do imóvel | 66.093,06€ | 166.885,06€ | 217.493,81€ | 611.911,88€ |
Capitais próprios | 10.000€ | 21.848,76€ | 30.000€ | 107.805,52€ |
Valor do empréstimo | 59.483,47€ | 150.826,31€ | 195.744,71€ | 550.720,69€ |
Prestação | 237,62€* | 602,52€* | 781,95€* | 2.200€ |
Taxa de esforço | 16% | 40% | 14% | 40% |
B. Com garantia pública e IMT Jovem
Tal como no exemplo com dois rendimentos médios, aderir à garantia pública e aproveitar a isenção de IMT e imposto do selo sobre a aquisição permite olhar para casas mais caras no cenário recomendado, tanto a sós como a dois.
Uma pessoa (1.500€/mês) | Duas pessoas (5.500€/mês) | |||
Recomendado | Alternativo | Recomendado | Alternativo | |
Valor do imóvel | 138.888,75€ | 157.551,22€ | 491.824,77 | 554.749,83€ |
Capitais próprios | 10.000€ | 10.000€ | 30.000€ | 30.000€ |
Valor do empréstimo | 131.422,38€ | 150.196,83€ | 481.880,70€ | 550.720,70€ |
Prestação | 525€* | 600€* | 1.925€* | 2.200€* |
Taxa de esforço | 35% | 40% | 35% | 40% |
3. Rendimentos altos
Por fim, simulámos situações para pessoas com rendimentos altos (4.000 euros líquidos mensais cada) e capitais próprios entre 20.000 euros e 40.000 euros.
A. Sem garantia pública nem IMT Jovem
No cenário recomendado, a diferença entre comprar casa sozinho ou em conjunto é de cerca de 113.000 euros, mas não podemos deixar de destacar o que acontece no cenário limite. É que a entrada de outra pessoa na compra faz duplicar o valor da casa que se pode procurar: de 445.000 euros para 890.000 euros.
Uma pessoa (4.000€/mês) | Duas pessoas (8.000€/mês) | |||
Valor do imóvel | Recomendado | Limite | Recomendado | Limite |
Valor do imóvel | 156.804,41€ | 445.026,82€ | 269.200,64€ | 890.053,64€ |
Capitais próprios | 20.000€ | 78.867,65€ | 40.000€ | 169.386,10€ |
Valor do empréstimo | 141.123,62€ | 400.524,14€ | 242.280,95€ | 801.048,28€ |
Prestação | 563,76€ | 1.600€ | 967,86€ | 3.200€ |
Taxa de esforço | 14% | 40% | 12% | 40% |
B. Com garantia pública e IMT Jovem
A última simulação volta a pôr em cima da mesa os apoios à compra de casa para jovens até aos 35 anos e o comportamento é semelhante aos anteriores: aumento do preço da casa no cenário recomendado (via aumento da taxa de esforço) e diminuição no cenário limite (por já não haver margem para pedir mais dinheiro e aumentar a taxa de esforço).
Uma pessoa (4.000€/mês) | Duas pessoas (8.000€/mês) | |||
Recomendado | Alternativo | Recomendado | Limite | |
Valor do imóvel | 362.554,72€ | 408.318,07€ | 663.453,13€ | 801.048,28€ |
Capitais próprios | 20.000€ | 20.000€ | 40.000€ | 72.993,30€ |
Valor do empréstimo | 350.459,26€ | 400.524,36€ | 659.641,47€ | 801.048,28€ |
Prestação | 1.400€ | 1.600€ | 2.635,11€ | 3.200€ |
Taxa de esforço | 35% | 40% | 33% | 40% |
Leia ainda: Que casa posso comprar em 2026?
Perguntas frequentes
A casa que pode comprar depende dos seus rendimentos líquidos, encargos mensais e poupança disponível para entrada. A taxa de esforço não deve ultrapassar os 30-35% para garantir uma aprovação de crédito mais fácil e para correr menor risco de incumprimento.
A taxa de esforço calcula-se dividindo o total das suas prestações mensais com créditos pelo seu rendimento líquido mensal, e multiplicando por 100.
Fórmula: (Encargos mensais com créditos / Rendimento mensal líquido) × 100
Exemplo: Se ganha 1.500 euros líquidos e tem prestações no total de 500 euros, a sua taxa de esforço é de 33%.
Pode usar o Simulador de Taxa de Esforço.
Além da entrada, deve contar com:
- Imposto Municipal sobre Transações onerosas de impostos (IMT) e imposto do selo;
- Escritura e registos;
- Comissões bancárias;
- Seguros obrigatórios (vida e multirriscos) associados ao crédito habitação.
Este simulador permite perceber qual o valor máximo de imóvel que pode comprar com base no rendimento mensal, poupança disponível para entrada e condições habituais dos bancos. É um ponto de partida importante para quem está a planear comprar casa.
Sim. Para comprar casa com recurso a crédito habitação, é necessário ter pelo menos 10% do valor do imóvel para entrada. O simulador integra este requisito ao calcular o valor máximo de compra possível.
No papel, é possível, em casos específicos, como imóveis de bancos ou com garantias adicionais. No entanto, na prática, é muito difícil. A maioria dos bancos financia até 90% do menor valor entre o preço de compra e a avaliação.
O apoio à compra de habitação jovem é uma garantia dada pelo Estado de forma a cobrir a percentagem do valor do imóvel não financiada pelo banco. Desta forma, os jovens podem conseguir 100% de financiamento, não necessitando, assim, de capitais próprios para a entrada. Além disso, há isenção de IMT, emolumentos e imposto do selo.
Podem pedir os jovens com idades entre 18 e 35 anos e domicílio fiscal em Portugal. Os rendimentos não podem ultrapassar o 8.º escalão do IRS, e não podem ser proprietários de prédio urbano ou de fração autónoma de prédio urbano habitacional. Além disso, não podem ter dívidas às Finanças e à Segurança Social nem ter usufruído já da garantia pessoal do Estado. O valor da transação não pode exceder os 450 mil euros.
