Aproxima-se uma tempestade? O que fazer?

A tempestade que se aproxima vai obrigar-nos, a todos, a tomar medidas. E todos teremos de ajustar o nível de vida à realidade atual.

Em 2008, com a crise do subprime, o mundo mudou. A ganância desmesurada e a falta de regulação ou de controlo por parte das entidades competentes, acabaram por criar um tsunami económico com centro nos EUA e que se alastrou a todo o mundo.

Passámos por períodos complicados, com uma recessão global que afetou todos sem exceção. O mercado imobiliário sofreu uma queda abrupta, os bancos passaram por dificuldades e tiveram de ser resgatados por fundos estatais, aumentou o desemprego, faliram muitas empresas, entre outros factos relevantes.

Reação

Até então, os principais atores económicos eram os agentes políticos. No pós-2008 tudo mudou. Os bancos centrais assumiram o controlo e começaram a “ditar as regras”. Percebendo o estado que a economia global estava a atravessar, inovaram através de medidas que permitiram a injeção de liquidez no sistema financeiro e na economia real, e da redução de taxas de referência, reduzindo os encargos financeiros das famílias, empresas e Estados.

Como consequência, o nível de endividamento foi aumentando cada vez mais, suportado pelas autoridades monetárias, e a dívida foi-se pagando com a emissão de nova dívida. Em termos reais, estas medidas permitiram ultrapassar, com algumas oscilações, o período de recessão, e inverter o sentimento dos agentes económicos, criando condições para voltarmos a ter crescimento uns anos mais tarde.

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Inflação – o esqueleto no armário

Todo este experimentalismo monetário foi tendo sucesso, na economia global e (sobretudo) nos mercados financeiros, porque a inflação teimou em não surgir. O facto de vivermos num mundo cada vez mais global e tecnológico teve a vantagem de conseguirmos produzir cada vez com custos mais reduzidos, o que permitiu absorver o efeito de aumento de procura sem que os preços tivessem um aumento significante.

O crescimento económico, apesar de não ser elevado, foi permitindo ir empurrando com a barriga para a frente todo o excesso de endividamento que estávamos a atravessar. Como a mensagem foi que sempre correu tudo bem, os investidores estiveram e estão como que anestesiados, e continuam a olhar para a frente desta forma, sem analisar devidamente o risco real do atual cenário macroeconómico.

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Covid-19

O surgimento da Covid-19 veio potenciar todo este fenómeno. Por um lado, o aumento exponencial da massa monetária em circulação (por outras palavras liquidez), sempre patrocinada pelas entidades monetárias, que permitiu que os Estados se financiassem a custo zero ou negativo!! Na economia real, o cenário foi idêntico, com taxas de financiamento muito reduzidas, que foram aproveitadas por muitos para se alavancarem e comprarem imóveis, ou fazerem investimentos sem um racional económico apropriado. Mais uma vez, a realidade é que tudo vai correndo bem e sempre patrocinado pelos bancos centrais.

Contudo, com os confinamentos e com o aumento das tensões entre as grandes potências (EUA vs China), começámos a verificar uma redução do processo de globalização. A estes dois pontos anteriores, juntamos o aumento de procura, porque, apesar de o mundo ter ficado “parado” por algumas semanas ou meses, as populações conseguiram poupar mais do que anteriormente. Com o regresso à normalidade, a procura disparou e a oferta não conseguiu acompanhar este movimento. Como tal, os preços dos bens dispararam e surgiu a inflação de uma forma que nunca tínhamos visto no século XXI.

Tempestade?

Com níveis de inflação em torno dos 8%, as autoridades monetárias têm de tomar medidas. Caso contrário, todos estamos a perder poder de compra a um nível muito elevado. A forma de controlar a inflação é simples, retirar massa monetária em circulação e aumentar os custos de financiamento (taxas) de forma a passar a mensagem de que nesta fase o objetivo é poupar e não investir/consumir.

A grande questão é que, ao aumentarmos as taxas de juro, não só estamos a retirar rendimento às famílias/empresas, como estamos a aumentar os custos de financiamento dos Estados que têm, nesta fase, dívidas enormes em função do experimentalismo monetário iniciado em 2008.

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Como devemos reagir a este cenário?

Iremos ter um período em que as dificuldades irão aumentar. O primeiro passo para ultrapassarmos este momento com calma e tranquilidade é termos a noção do contexto que estamos a atravessar. O segundo passo é ajustarmos o nosso nível de vida à nossa realidade atual e não à realidade passada.

O fundamental é percebermos que pode estar a aproximar-se uma tempestade e que nos devemos abrigar. Se for falso alarme, a prevenção não tem influência na nossa vida. Pelo contrário, agimos como deveríamos. Se se confirmar, então estaremos mais bem preparados para a enfrentar.

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Apaixonado pelo desporto e economia, foi jogador profissional de Futebol, tendo atuado em clubes como S.L. Benfica, Estoril, entre outros. Conciliou a carreira desportiva com a académica, terminando a licenciatura em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA SBE). Continua ligado às suas duas paixões profissionais, desempenhando a função de Financial Advisor e colaborando como analista desportivo na CNN Portugal. Foi comentador residente no programa Jogo Económico do JE e Presidente do Conselho Fiscal da Federação Portuguesa de Footgolf. (FPFG). Participa com regularidade em eventos sobre Literacia Financeira.

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