As ações globais registaram desvalorizações acentuadas no mês de março, em reação ao início da guerra no Irão no último dia de fevereiro, com os investidores a fugirem dos ativos de risco devido aos receios com o impacto da escalada dos preços do petróleo na inflação e na atividade económica. O índice europeu Stoxx600 desvalorizou 8% no terceiro mês do ano, pior do que o norte-americano S&P500 (-5,1%), refletindo a maior vulnerabilidade da economia europeia a um choque energético.
A viragem para o mês de abril trouxe uma inflexão pronunciada da trajetória das bolsas mundiais, com a generalidade dos índices acionistas a conseguirem apagar todas as perdas motivadas pela guerra. Muitos conseguiram mesmo avançar para máximos históricos, apesar do conflito no Médio Oriente estar a provocar aquela que a Agência Internacional de Energia (AIE) já classificou como crise petrolífera mais grave de sempre.
O Estreito de Ormuz permanece bloqueado, impedindo o trânsito de cerca de 20% das matérias-primas energéticas (petróleo e gás natural) consumidas a nível mundial. A duração do conflito já vai muito além das estimativas iniciais de quatro semanas e não existem perspetivas firmes de término no curto prazo, o que mantém a cotação do petróleo acima dos 100 dólares de forma consolidada.
Então o que justifica este desempenho excecional das Bolsas mundiais desde o final de março? A resposta está no regresso em força da euforia com a Inteligência Artificial (IA), que está a ser alimentada pelos resultados do primeiro trimestre das empresas ligadas a esta indústria.
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Tecnológicas impulsionam índices
O boom das gigantes tecnológicas é a principal marca do movimento de alta das bolsas que teve início precisamente com um evento marcante para a Inteligência Artificial: o lançamento do ChatGPT por parte da OpenAI.
Desde esse evento no final de 2022, o índice tecnológico Nasdaq acumula uma valorização de 132%, bem superior ao desempenho do também norte-americano S&P500 (84%), que foi igualmente contagiado pelas tecnológicas. No índice europeu Stoxx600, onde este setor tem um peso bem menos expressivo, os ganhos desde o lançamento do ChatGPT são mais contidos (40%).
Embora nestes mais de três anos se tenha assistido a uma tendência de alta generalizada nas bolsas, a fase atual é bem distinta da que se verificou até ao final do ano passado e na correção que se seguiu até aos últimos dias de março.
- Até aos máximos que os índices atingiram em outubro, o setor tecnológico avançou como um todo, beneficiando de forma abrangente da euforia relacionada com a Inteligência Artificial. O Nasdaq mais do que duplicou nos três anos seguintes ao lançamento do ChatGPT, com as empresas de chips a dispararem 155% neste período, enquanto as empresas de software também marcaram ganhos muito expressivos (82%).
- Na correção que se seguiu, desde os máximos de outubro até ao final do primeiro mês de guerra no Irão, as ações norte-americanas do setor tecnológico lideraram o movimento negativo. O Nasdaq desvalorizou mais de 10%, pressionado sobretudo pelas empresas de software, enquanto as companhias de chips resistiram (-1%). O europeu Stoxx600 conseguiu um saldo positivo neste período, enquanto o índice generalista norte-americano (S&P500) cedeu 7%.
- A entrada em abril desencadeou um impressionante rally nas ações norte-americanas, muito concentrado nas empresas de chips. O Nasdaq já acumula uma valorização superior a 28% desde o final de março, impulsionado pelo disparo de 69% do índice Philadelphia Semiconductor (agrupa as empresas de chips). O S&P500 avança 18% neste período, triplicando a subida do Stoxx600.
- Contas feitas desde o evento que marca o início da euforia com a Inteligência Artificial, as empresas de chips disparam mais de 300% desde o final de 2022, enquanto as companhias de software não chegam a subir 50%.
Brilho no hardware
Se, no início do atual bull market, que já vai no quarto ano, as ações tecnológicas subiam de forma quase indiscriminada devido às elevadas expetativas com a Inteligência Artificial, agora os investidores estão muito mais seletivos, “colocando as fichas” nas empresas e setores que mais têm a ganhar com os progressos tecnológicos.
Neste contexto, as empresas de hardware estão a ser vistas com as grandes vencedoras da corrida pela liderança na Inteligência Artificial, numa tendência que ganhou escala após os resultados do primeiro trimestre deste ano. Os números apresentados deixam evidente o impacto da forte procura relacionada com o avanço da tecnologia.
As cinco maiores tecnológicas norte-americanas, conhecidas por hyperscalers (Amazon, Microsoft, Alphabet, Meta e Oracle), pretendem investir 750 mil milhões de dólares este ano para reforçar a sua capacidade de computação e ofertas na cloud. A construção de data centers gigantes é fundamental para disponibilizar as melhores ofertas de Inteligência Artificial e as companhias que fornecem produtos e serviços para estas infraestruturas estão a beneficiar de um boom da procura.
Na linha da frente estão as fabricantes dos mais variados tipos de chips e semicondutores, com as empresas que produzem servidores, redes e outros produtos essenciais para os data centers a surgirem em segundo plano, mas também com um desempenho fantástico. Nos resultados apresentados e na evolução em Bolsa.
Segundo cálculos do Deutsche Bank, os lucros da generalidade das empresas ligadas à indústria da Inteligência Artificial aumentaram 50% no primeiro trimestre. Isolando as empresas de chips, os resultados líquidos quase duplicaram. Alargando a todo o mercado, os lucros das cotadas norte-americanas do S&P500 subiram menos de 30% no mesmo período, o que não deixa de ser um desempenho notável e explica porque as ações em Wall Street regressaram a máximos apesar do impasse na guerra no Irão.
O índice Philadelphia Semiconductor valoriza quatro vezes mais do que o S&P500 desde os mínimos de março, sendo que várias fabricantes de chips conseguem o feito de duplicar de valor (Advanced Micro Devices e Micron Technology) e até triplicar (Intel).
A euforia neste segmento não se restringe às empresas norte-americanas, destacando-se as valorizações fulgurantes da Samsung Electronics (130% em 2026) e SK Hynix (190% em 2026). As duas fabricantes de chips sul-coreanas são as grandes responsáveis pela fantástica subida do índice do país (Kospi dispara 74% em 2026).
Pressão no software
Se os chips estão na ribalta, as empresas de software estão a ser alvo de uma forte pressão, tudo porque o progresso dos modelos de Inteligência Artificial está a ser tão significativo que muitos dos serviços oferecidos por estas companhias podem tornar-se obsoletos. O medo com o efeito disruptivo da Inteligência Artificial nesta indústria tem vindo a acentuar-se, à medida que as companhias estão a lançar modelos cada vez mais poderosos.
A Anthropic (modelo Claude), que está a ganhar terreno à OpenAI (modelo ChatGPT), tem estado em destaque neste capítulo, com o lançamento de soluções que substituem os serviços das empresas de software por um valor mais reduzido e recorrendo a um volume muito inferior de tempo e trabalho humano. Os exemplos vão desde as simples apresentações de PowerPoint, aos trabalhos mais complexos.
O último modelo do Claude é tão poderoso que a Anthropic lançou uma versão com acesso controlado junto apenas de um número reduzido de empresas. O Claude Mythos é capaz de identificar falhas de segurança e vulnerabilidades em vários programas informáticos importantes de forma tão eficaz e célere que, se cair nas mãos erradas, pode abrir caminho a ataques cibernéticos contra estas empresas. Daí que esteja a ser disponibilizado com muita cautela.
Perante esta ameaça disruptiva, o índice S&P Software & Services deslizou perto de 30% entre os máximos de outubro e os mínimos atingidos no final de março deste ano. Recuperaram 13% desde então, num desempenho muito aquém do resto do setor. Embora a tendência negativa na indústria seja generalizada, há empresas mais afetadas do que outras. A alemã SAP desliza perto de 50% desde máximos, enquanto a norte-americana Microsoft limitou as quedas a 25%.
À procura dos vencedores
Além do escrutínio para identificar quem são os setores vencedores e perdedores com a revolução da Inteligência Artificial, os investidores também estão a intensificar a busca pelas empresas que estão posicionadas na linha da frente para obter os maiores benefícios.
A correção substancial que as tecnológicas registaram entre outubro e o final de março esteve sobretudo relacionada com os avultados investimentos que as hyperscalers estão a efetuar para reforçarem a capacidade de computação. Os investidores temem que estes gastos não gerem retornos proporcionais ao investimento.
Os resultados e estimativas das empresas são o teste do algodão e várias companhias estão a passar no exame, enquanto outras levaram nota negativa. As cotadas que apresentam números e perspetivas que mostram que o investimento está a compensar estão a ser premiadas em bolsa, enquanto as outras ficam para trás.
A Alphabet está a emergir como a grande vencedora da Inteligência Artificial, beneficiando com a posição dominante em praticamente todas as áreas desta tecnologia. Desde o sucesso do modelo Gemini à oferta de cloud, a dona do Google também apostou no fabrico de chips próprios. Os lucros muito fortes referentes ao primeiro trimestre levaram as ações a dispararem 34% em abril, no melhor mês desde 2004.
As ações da Alphabet valorizaram 45% desde mínimos do final de março, levando a capitalização bolsista para perto dos 5 biliões de dólares, cada vez mais próxima de destronar a Nvidia como maior cotada do mundo. Em contraste, a Meta valorizou três vezes menos neste período e acumula um saldo negativo em 2026 (-5%) devido às dúvidas crescentes sobre a capacidade da dona do Facebook e Instagram em monetizar os investimentos na Inteligência Artificial.
Apesar da evolução fulgurante das tecnológicas em geral e das empresas de chips em particular, o setor ainda enfrenta uma série de ameaças que podem motivar uma correção nas cotações das ações, o que terá implicações significativas nas bolsas globais:
- A adoção da Inteligência Artificial está a ser substancial a nível global, mas persistem as dúvidas sobre a sustentabilidade do crescimento dos resultados das empresas desta indústria, que já negoceiam com múltiplos de avaliação muito acima da média histórica.
- Também existe o receio de que os investimentos na construção de data centers criem uma capacidade de computação desproporcional para as necessidades efetivas relacionadas com a tecnologia. Acresce que estes projetos exigem avultados financiamentos que vão pesar nos resultados das empresas e deteriorar os seus balanços.
- Um agravamento do conflito no Médio Oriente tornará mais real o cenário de estagflação na economia global (crescimento fraco e inflação elevada), que vai pressionar os bancos centrais a subir as taxas de juro.
- A elevada concentração dos ganhos no setor tecnológico representa um risco real para as bolsas globais, exacerbando os movimentos negativos quando os investidores reduzirem a exposição a estas cotadas.
Apesar das ameaças, as empresas de chips estão no centro da euforia e a gerar retornos espetaculares aos investidores. E, pelo menos no curto prazo, não se perspetiva no horizonte nuvens negras que possam colocar em causa aquele que pode ficar para a história como um dos rallies setoriais mais poderosos de sempre nas Bolsas.
A Inteligência Artificial está a definir as forças e fraquezas dos mercados acionistas, o hardware está a ganhar ao software e os investidores aprenderam a ser mais seletivos. Como é demonstrado pelo passado, a euforia nas bolsas tem limites e a corrida pela liderança desta tecnologia ainda tem um caminho longo pela frente, que pode ter momentos tortuosos, fazer vítimas e ainda não tem vencedores garantidos.
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