Imagem de investimentos, calculadora sobre notas

As obrigações são frequentemente apresentadas como uma alternativa mais estável a produtos como os depósitos a prazo e menos volátil do que as ações. Funcionam como um empréstimo ao Estado ou a empresas, com promessa de juros e devolução do capital no fim do prazo. Mas nem todas são iguais, e nem todas têm o mesmo risco.

Para quem está a começar a investir, este é um dos produtos que mais dúvidas levanta. O prazo, o tipo de juro, o emitente, os custos e a possibilidade de vender antes da maturidade fazem toda a diferença no resultado final. Ignorar estes fatores pode transformar um investimento aparentemente seguro numa má decisão.

Neste guia, descubra o que são obrigações, como funcionam, que riscos existem e como investir com mais critério, para que possa tomar decisões informadas do início ao fim.

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O que são obrigações e como funcionam na prática

As obrigações são títulos de dívida. Na prática, representam um empréstimo feito por investidores a uma entidade emitente. Pode ser um Estado, uma empresa ou uma instituição financeira. Quem compra uma obrigação passa a ser credor. Quem emite passa a ter uma dívida para pagar.

Ao investir, fica definido à partida o essencial: quanto empresta, por quanto tempo e como será remunerado. A remuneração costuma surgir sob a forma de juros, pagos de forma periódica (os chamados cupões) ou, em alguns casos, apenas no final, no reembolso.

Durante a vida da obrigação, o investidor recebe esses cupões e, na maturidade (o fim do prazo), recebe de volta o capital investido, salvo incumprimento do emitente. É por isso que, para um iniciante, este produto pode parecer “mais simples” do que ações. Mas há detalhes que fazem toda a diferença.

Valor nominal: O valor das obrigações

Cada obrigação tem um valor nominal. É o valor que, em regra, será reembolsado no fim do prazo. Mesmo que a obrigação suba ou desça de preço no mercado, o valor nominal mantém-se como referência para o reembolso na maturidade.

O ponto crítico é este: o preço a que compra hoje pode ser diferente do valor nominal. E isso afeta o retorno final, sobretudo se vender antes do fim.

Cupão: Os juros das obrigações

As obrigações pagam um juro, chamado de cupão (que pode também ser 0%), calculado sobre o valor nominal da obrigação. Tomando como exemplo uma obrigação de 1.000 euros com cupão anual de 4%, o cupão será 40 euros por ano, antes de impostos e comissões.

É importante não confundir a taxa de juro com a rendibilidade do título, já que esta depende de uma série de fatores: evolução da cotação, valor nominal, taxa de juro, periodicidade do pagamento e maturidade do título.

Quem emite obrigações? Estado, empresas e instituições financeiras

Os principais emissores de obrigações são os Estados, que recorrem a este instrumento para financiar despesas públicas, e as empresas, que o usam como forma de financiamento fora do crédito bancário. Instituições financeiras também emitem obrigações, por razões de financiamento e gestão de balanço.

Em Portugal, a emissão de dívida pública é feita através do Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público (IGCP), responsável, entre outros instrumentos, pelas obrigações do Tesouro.

Nas empresas, o risco depende da capacidade de gerar receitas, cumprir obrigações e suportar períodos difíceis. Em termos simples: quando empresta a uma empresa, está a avaliar se ela terá dinheiro para lhe pagar.

Tipos de obrigações: Soberanas, corporativas, de curto e longo prazo

As obrigações podem ser classificadas de várias formas. A distinção mais direta separa obrigações soberanas (dívida pública emitida por Estados) e obrigações corporativas (emitidas por empresas e instituições financeiras). Mas, para um investidor iniciante, vale a pena ir um pouco mais longe. É aqui que se evitam muitos erros.

Obrigações soberanas: Quando o devedor é o Estado

As obrigações soberanas são títulos de dívida pública. No caso português, falamos sobretudo de obrigações do Tesouro. Em geral, são vistas como menos arriscadas do que obrigações empresariais, porque um Estado tem, à partida, maior capacidade de se financiar e de gerir pagamentos.

Mas há um detalhe que muitos ignoram: também neste caso, o nível de risco varia consoante o emitente. Um país que atravessa uma crise financeira terá um risco de incumprimento superior do que uma economia sólida como, por exemplo, a Alemanha.

Obrigações corporativas: Quando o devedor é uma empresa

As obrigações corporativas pagam muitas vezes juros mais elevados. A lógica é simples: mais risco, mais retorno esperado. Só que esse retorno não é garantido. Se a empresa entrar em dificuldades, pode falhar pagamentos. E, em cenários extremos, pode haver perda parcial ou total do capital.

Dentro das obrigações empresariais, há também “degraus” de risco. Grandes empresas com receitas diversificadas e histórico sólido não são comparáveis a empresas pequenas, muito endividadas ou dependentes de um único negócio.

Curto, médio e longo prazo

Outra distinção relevante é o prazo. Existem obrigações de curto prazo, e obrigações de médio ou longo prazo, que podem ir além dos dez anos. Existem até as chamadas obrigações perpétuas, que não têm maturidade, ou seja, só serão reembolsadas quando o emitente o entender.

Taxa fixa, taxa variável e cupão zero

O tipo de juro muda o comportamento da obrigação:

  • Taxa fixa: sabe, à partida, qual é o juro que vai receber.
  • Taxa variável (indexada): o juro muda com um indexante, como a Euribor, seguindo uma fórmula definida desde o início.
  • Cupão zero: não há pagamento de juros periódicos. A obrigação é comprada com desconto e o investidor recebe um valor maior no final

Obrigações mais complexas: Quando “o nome” já é um alerta

Existem obrigações subordinadas, convertíveis, perpétuas e estruturadas. Para investidores principiantes, a regra é clara: se não consegue explicar o produto em duas frases simples, não invista.

Estas obrigações podem trazer riscos adicionais, como prioridade mais baixa em caso de falência, mecanismos de conversão, ausência de maturidade clara ou dependência de outros ativos. São produtos para quem já domina a base.

Conceitos essenciais para entender: Yield, juro, rating e liquidez

A teoria é simples. A prática é mais exigente. Há quatro conceitos que aparecem sempre e que, bem entendidos, evitam surpresas.

Yield: O retorno real não é só o cupão

A yield mede a rendibilidade de uma obrigação, tendo em conta os juros recebidos e o preço pago. Ao contrário do cupão, a yield varia com o preço no mercado.

Uma obrigação pode ter um cupão “atrativo” e, mesmo assim, ser pouco interessante se for comprada muito acima do valor nominal ou se tiver custos elevados. É por isso que olhar só para o cupão pode ser um erro típico de principiante.

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Rating: Uma nota que ajuda, mas não substitui o bom senso

O rating é uma avaliação de risco de crédito. Em linguagem direta: é uma tentativa de medir a probabilidade de o emitente falhar pagamentos.

Ratings mais baixos significam risco maior. E, muitas vezes, juros mais altos. Mas atenção: rating não é garantia. É apenas um indicador. O investidor deve cruzar essa informação com o prospeto, com o modelo de negócio e com sinais de fragilidade financeira.

Liquidez: A diferença entre “posso vender” e “consigo vender bem”

A liquidez indica a facilidade de vender antes da maturidade sem grandes perdas de preço. Títulos muito negociados tendem a ser mais líquidos. Emissões pequenas, de emitentes pouco conhecidos, podem ter pouca procura e obrigar o investidor a aceitar descontos.

Para quem está a começar, este ponto é crítico: um investimento não é só retorno. É também a capacidade de sair quando precisa.

Imagem de uma calculadora e notas sobre uma folha de calculo

Como comprar obrigações: Passos para principiantes

Em Portugal, a compra de obrigações é feita sempre através de um intermediário financeiro, como um banco ou corretora. Pode investir na emissão inicial, no mercado primário, ou comprar títulos já existentes no mercado secundário.

O mais importante é perceber que “comprar” é fácil. O difícil é comprar bem.

1) Defina o objetivo antes de escolher o produto

Antes de olhar para taxas, responda a três perguntas:

  • Preciso deste dinheiro antes da maturidade?
  • Quero rendimento regular ou posso esperar pelo fim?
  • Estou a tentar preservar capital ou aceitar oscilações?

Sem isto, o investidor escolhe um produto ao acaso. E depois culpa o mercado.

2) Primário vs. secundário: Não é a mesma coisa

No mercado primário, subscreve na emissão. As condições são definidas no arranque: prazo, cupão, datas de pagamento, valor nominal e regras de reembolso.

No mercado secundário, compra a alguém que está a vender. O preço pode estar acima ou abaixo do valor nominal, o que muda a yield. Aqui, os movimentos do mercado pesam mais. É também aqui que as comissões e a liquidez se tornam ainda mais importantes.

Leia ainda: Obrigações: o que são e o mercado primário

3) Leia o prospeto como se fosse um contrato

Antes de investir, é essencial consultar o prospeto da emissão, disponível no site da CMVM. Não é um detalhe burocrático. É onde estão as condições e, sobretudo, os riscos.

Procure, pelo menos:

  • Quem é o emitente e para que quer o dinheiro
  • Taxa de juro, periodicidade do cupão e maturidade
  • Regras de reembolso antecipado, se existirem
  • Riscos específicos do emitente e do setor

4) Compare custos: Uma boa taxa pode desaparecer em comissões

Os custos típicos podem incluir comissões de subscrição/compra, guarda de títulos e venda. Em investimentos pequenos, estas comissões podem “comer” uma parte relevante do retorno.

Um princípio simples: antes de investir, pergunte quanto vai pagar em custos por ano e no total até à maturidade. O retorno deve ser analisado já com esta realidade em cima da mesa.

5) Alternativa para iniciantes: Fundos e ETF de obrigações

Para quem não quer escolher títulos individuais, existem fundos e ETF de obrigações, que diversificam por vários emitentes e maturidades. É uma forma de reduzir o risco de “apostar” numa única empresa ou num único título.

Atenção: fundos e ETF também oscilam e têm custos. Mas, para iniciantes, podem oferecer uma entrada mais controlada no mercado obrigacionista.

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Riscos das obrigações: O que deve ter atenção antes de investir

As obrigações podem ser mais estáveis do que ações, mas não estão livres de risco. O erro mais comum é achar que, por serem dívida, o capital está garantido. Nem sempre está.

Risco de crédito

É o risco de o emitente não pagar juros ou capital. Pode acontecer em empresas e, em casos raros e extremos, também em Estados. É por isso que o emitente é a primeira análise a fazer.

Sinais de alerta para principiantes: juros muito acima do mercado, falta de transparência, modelo de negócio frágil e histórico de dificuldades financeiras.

Risco de taxa de juro

Quando as taxas de juro sobem, o preço das obrigações existentes tende a cair. Se precisar de vender antes da maturidade, pode fazê-lo com perdas.

Quanto maior o prazo, maior costuma ser este impacto. Por isso, uma obrigação longa pode ser desconfortável para quem quer estabilidade.

Risco de liquidez

Se a obrigação tiver pouca procura no mercado, pode ser difícil vendê-la. E, quando consegue vender, pode ter de aceitar um preço pior do que esperava.

Para um iniciante, isto é simples de traduzir: uma obrigação pouco líquida pode obrigá-lo a esperar pela maturidade, mesmo que não lhe seja conveniente.

Imagem de várias notas sobre um tampo branco

Vantagens: Quando podem ser uma boa opção

As obrigações são usadas por muitos investidores para dar estabilidade e previsibilidade a uma carteira. Não substituem todas as soluções de poupança, mas têm um papel claro quando são bem escolhidas.

Rendimento mais previsível e disciplina de prazo

Quando a taxa é fixa e o emitente é sólido, o investidor consegue antecipar os fluxos de rendimento e o reembolso. Isto ajuda a planear objetivos e a manter disciplina de prazo.

Menos volatilidade do que ações, em muitos cenários

Por regra, as obrigações tendem a oscilar menos do que ações. Isto não elimina risco, mas pode reduzir a ansiedade de quem está a começar e ainda não lida bem com grandes variações.

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Diversificação: uma carteira não vive só de um tipo de ativo

Obrigações podem funcionar como contrapeso, ajudando a equilibrar risco. O objetivo não é “ter obrigações porque sim”. É usá-las como parte de uma estratégia, alinhada com perfil e objetivos.

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Como evitar cair em obrigações demasiado arriscadas

A melhor proteção de um investidor principiante é a combinação de bom senso com método. E há regras práticas que funcionam.

Desconfie de juros muito elevados

Se uma obrigação promete uma taxa muito acima do mercado, normalmente há uma razão. E essa razão costuma ser risco de crédito elevado. O retorno aparece como “prémio” por um risco que pode ser real.

Diversifique: Não coloque demasiado num único emitente

Vários especialistas defendem que o investidor não deve concentrar mais de 5% a 10% do património num único emitente. É uma forma simples de evitar que um problema numa empresa penalize a carteira inteira.

Não invista sem perceber o cenário de saída

Pergunte sempre: se eu precisar de vender, consigo? E a que preço?
Se a resposta for incerta, esse risco tem de ser compensado por um retorno realmente atrativo e por uma pequena exposição. Para iniciantes, a prudência aqui evita perdas desnecessárias.

Prefira transparência e informação completa

Prospeto claro, emitente conhecido, custos transparentes e regras simples são bons sinais para quem está a começar. O mercado tem produtos para todos os perfis. O que não tem é garantias para quem investe no que não compreende.

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Perguntas frequentes

As obrigações são títulos de dívida através dos quais um investidor empresta dinheiro a um Estado, empresa ou instituição financeira. Em troca, recebe juros e o reembolso do capital numa data futura previamente definida, chamada maturidade. Ao comprar uma obrigação, o investidor passa a ser credor do emitente, e não proprietário, como acontece com as ações. Este instrumento é usado para financiar Estados e empresas e é comum em carteiras que procuram rendimentos mais previsíveis do que os das ações.

As obrigações tendem a ser vistas como mais estáveis do que as ações, mas não são livres de risco. O risco depende sobretudo de quem emite a dívida, do prazo e das condições da obrigação. Obrigações do Estado costumam ter risco mais baixo do que obrigações empresariais, mas continuam expostas a oscilações de preço, inflação e, em casos extremos, incumprimento. Segurança não significa ausência de risco, mas sim risco diferente e, em muitos casos, mais previsível.

As obrigações soberanas são emitidas pelo Estado para financiar despesas públicas e, em regra, apresentam menor risco de crédito. As obrigações corporativas são emitidas por empresas e dependem da sua saúde financeira. Por esse motivo, costumam pagar juros mais elevados para compensar o risco adicional. Para o investidor, a escolha passa por equilibrar segurança e rendimento, avaliando sempre o emitente, o prazo e as condições da emissão.

A yield é um indicador de rendibilidade de uma obrigação. Mede o retorno efetivo do investimento, tendo em conta os juros recebidos e o preço a que a obrigação é comprada. É um conceito essencial para comparar diferentes obrigações e perceber se um investimento é realmente atrativo face às alternativas disponíveis.

Em Portugal, as obrigações são compradas através de um intermediário financeiro, como um banco ou corretora. O investidor pode subscrever obrigações na emissão inicial, no mercado primário, ou comprar títulos já existentes no mercado secundário. Antes de investir, é fundamental consultar o prospeto da emissão, analisar custos e perceber se o produto se adequa ao perfil de risco e ao horizonte temporal definido.

Não. As obrigações não pagam dividendos, pagam juros, também chamados cupões. Os dividendos são rendimentos associados às ações e dependem dos lucros das empresas. Nas obrigações, o juro é definido à partida ou calculado segundo uma fórmula conhecida, o que torna o rendimento mais previsível. Confundir dividendos com cupões é um erro comum entre investidores iniciantes, mas trata-se de conceitos diferentes.

Depende do perfil de risco, dos objetivos e do prazo de investimento. As obrigações tendem a oferecer rendimentos mais previsíveis e menor volatilidade, enquanto as ações têm maior potencial de valorização, mas também mais oscilações. Para muitos principiantes, uma combinação das duas faz mais sentido, permitindo equilibrar risco e retorno. O mais importante é compreender cada produto antes de investir e evitar decisões baseadas apenas em promessas de rendimento.

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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