Imagem representativa de danos habitacionais causados por chuva e vento fortes de uma tempestade

Se a sua casa ficou danificada pela tempestade Kristin, é normal sentir-se perdido. Há medo, cansaço, despesas inesperadas e burocracia a somar ao choque. Mesmo assim, há um caminho. E pode ser feito por etapas, sem correr o risco de perder direitos.

O Governo ativou um pacote excecional de medidas para responder aos danos provocados pelo temporal. Há ajudas para obras, apoios sociais, moratórias no crédito e soluções de realojamento.

Pode consultar a página criada pelo Governo com a informação sobre os diferentes apoios. Além das condições de acesso a cada medida, o website do Governo indica como fazer o pedido de apoio.

A regra de ouro é simples: trate de três frentes em paralelo. Segurança imediata, seguro (se existir) e registo formal da ocorrência para aceder aos apoios públicos criados para a tempestade Kristin.

Neste artigo descubra, passo a passo, o que fazer se a sua casa ficou danificada por esta calamidade. Saiba onde recorrer, que documentos reunir e como não perder direitos, mesmo que já tenham passado alguns dias.

Comece pelo essencial: A casa é segura para ficar?

Quando a casa ficou danificada pela tempestade Kristin, a primeira decisão não é financeira. É física. Se houver risco de queda de telhado, estruturas instáveis, paredes com fissuras recentes e profundas, cabos elétricos expostos, cheiros a queimado, água junto a tomadas, gás ou árvores a ameaçar cair, saia da zona perigosa.

Se tiver dúvidas sobre a habitabilidade, peça ajuda. A Proteção Civil municipal e os bombeiros podem fazer uma primeira avaliação do risco, sobretudo em situações de perigo imediato, infiltrações graves, queda de árvores ou instabilidade estrutural.

Mesmo que já tenham passado dias, este passo continua a ser prioritário. Há danos que só se revelam com o tempo. Uma fissura que cresce, um teto que cede, uma infiltração que se agrava. Se for preciso, peça um relatório a um técnico qualificado. Pode ser útil para seguradora e apoios públicos.

Antes de mexer, registe tudo: As provas valem dinheiro

Se a sua casa ficou danificada pela tempestade Kristin, a prova dos danos vale tempo e dinheiro. Fotografias e vídeos ajudam a acelerar processos, evitam discussões e reduzem o risco de indeferimentos.

Registe o exterior e o interior: telhado, fachadas, janelas, portas, paredes, tetos, chão, varandas, anexos, muros. Faça planos gerais e de detalhe. Registe também bens danificados: móveis, eletrodomésticos, computadores, roupa, colchões.

Se já limpou e deitou coisas fora, não desista. Ainda pode reconstruir prova com:

  • Fotos e vídeos tirados nos dias da tempestade, mesmo que estejam no telemóvel de familiares ou vizinhos.
  • Imagens atuais que mostrem reparações provisórias, manchas de humidade e materiais novos ao lado de antigos.
  • Faturas e recibos de compras e reparações.
  • Mensagens e emails em que descreveu os estragos ou pediu ajuda.
  • Declarações simples de quem viu os danos, como vizinhos, senhorio, bombeiros ou Proteção Civil.

Este dossiê é o que permite ligar o dano ao evento e justificar apoios.

Faça só reparações de emergência e guarde faturas de tudo

É tentador avançar logo com obras. Mas, quando a casa ficou danificada por uma tempestade, há um risco: fazer intervenções antes de perícias e vistorias pode complicar a avaliação do dano.

O que é aceitável fazer de imediato:

  • Colocar lonas no telhado.
  • Tapar roturas de água.
  • Retirar escombros perigosos.
  • Fazer pequenas ações para evitar agravamento.

Nota: Atenção a estas reparações imediatas para não se colocar em perigo. Sempre que possível, peça ajuda de profissionais ou pessoas com experiência nesse tipo de obras e intervenções.

O que deve evitar, sempre que possível:

  • Obras estruturais profundas antes de perícia do seguro ou vistoria oficial.
  • Substituir totalmente elementos danificados sem registo fotográfico e sem guardar prova.

Guarde todas as faturas de materiais e serviços. Até os gastos “pequenos” contam. Podem ser reembolsados, aceites como despesa elegível ou usados como prova de urgência.

Se tem seguro, não adie: O relógio começa a contar

Para muitas famílias, o seguro é a primeira linha de resposta. Se a sua casa ficou danificada pela tempestade Kristin, confirme se existe seguro multirriscos e quais as coberturas.

Leia ainda: Seguro multirriscos: O que é e o que cobre? 

O que procurar na apólice, em linguagem simples

As coberturas mais relevantes, quando existem, são:

  • Tempestade e fenómenos meteorológicos.
  • Inundações.
  • Queda de árvores ou objetos.
  • Danos por água.
  • Danos estéticos do imóvel.
  • Recheio, que pode incluir mobiliário e eletrodomésticos.

Se não encontrar a apólice, procure no email, na área de cliente do banco/seguradora ou no mediador. Caso tenha contratado um crédito habitação para a compra da sua casa, é comum haver seguro associado, que pode cobrir alguns danos.

Participar o sinistro: Faça por escrito e o quanto antes

Há apólices com prazo típico de participação em poucos dias, frequentemente 8 dias. Mesmo que já esteja próximo da data limite, avance já. E faça por escrito, para ficar com prova.

Na participação, inclua:

  • Data aproximada da ocorrência, na noite de 27 para 28 de janeiro.
  • Referência clara à tempestade Kristin.
  • Descrição dos danos.
  • Fotos e vídeos.
  • Faturas de reparações urgentes.
  • Relatórios de bombeiros ou Proteção Civil, se existirem.
  • Identificação do imóvel e número de apólice.

Se o atraso aconteceu porque esteve a garantir segurança, a limpar água, a procurar alojamento ou a cuidar de familiares, diga isso de forma objetiva. Estas informações ajudam a enquadrar.

Leia ainda: Mau tempo: O que fazer com o seguro da casa e do carro

Não deite fora bens danificados antes da peritagem

Sempre que possível, mantenha os bens danificados disponíveis para inspeção. Se já substituiu algo, guarde as faturas e tenha fotos bem claras do “antes”. A peritagem vive de evidência.

Se a proposta parecer insuficiente, peça fundamentação por escrito

Caso a indemnização proposta não fizer sentido, peça explicação e detalhe por escrito. Registe também por escrito todas as comunicações com a seguradora. Emails, mensagens e relatórios fazem parte do seu histórico.

O acompanhamento do setor segurador está a ser feito também pela Associação Portuguesa de Seguradores, que está a apurar prejuízos. Isto não substitui o seu processo individual, mas mostra que o tema está sob monitorização.

Leia ainda: Seguro multirriscos: O que acontece se a minha casa ficar destruída?

Não tem seguro ou o seguro não chega? Atenção aos apoios públicos

O Governo aprovou um pacote excecional de medidas para responder aos danos da tempestade Kristin. Há apoios para famílias, empresas e autarquias. No caso da habitação, o foco principal está na reconstrução e na resposta social.

Leia ainda: Quais os apoios para as famílias afetadas pela tempestade Kristin?

Apoio até 10.000 euros para habitação própria e permanente

Está previsto um apoio para obras na habitação própria e permanente até 10.000 euros, com regime simplificado. Isto é importante: o critério central é ser a casa onde vive. Não é, em regra, a casa de férias.

Caso não exista seguro aplicável, o apoio pode avançar com menos burocracia, mas depende de vistoria. A validação envolve a articulação entre autarquias e estruturas regionais.

Se existir seguro e este cobrir o dano, a lógica é complementar, não substitutiva. Por isso, mesmo quando espera apoio do Estado, a participação ao seguro continua a ser um passo obrigatório.

Leia ainda: Tempestade Kristin: Que apoios é que os bancos têm em vigor?

Câmara municipal: O seu primeiro balcão, mesmo que pareça “mais um”

Quando uma casa fica danificada por uma tempestade, o primeiro contacto para registar danos na habitação é quase sempre a câmara municipal do concelho onde se situa a casa.

A câmara é o ponto de entrada para:

  • Sinalizar estragos e abrir processo.
  • Saber se existe formulário próprio de reporte de danos.
  • Pedir vistoria e encaminhar para apoios.
  • Identificar soluções locais, como realojamento temporário e ação social.

O que deve levar ou ter preparado:

  • Identificação e NIF.
  • Morada completa do imóvel.
  • Prova de que é habitação própria e permanente, quando aplicável.
  • Fotos e vídeos.
  • Informação sobre existência ou não de seguro.
  • Faturas e orçamentos, se já tiver.

Peça sempre número de processo ou referência do pedido, e anote datas. Em situações de calamidade, o volume de pedidos é enorme. Ter a sua prova organizada evita que fique “perdido” no sistema.

CCDR: A vistoria que valida danos e abre a porta ao apoio

As Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) têm um papel central na vistoria e validação dos danos para efeitos dos apoios à reconstrução até 10.000 euros. Muitas vezes, a marcação dessa vistoria é articulada via autarquia, por isso o cidadão começa na câmara.

Quando receber técnicos para vistoria:

  • Mostre todos os pontos afetados, incluindo os que já foram remendados.
  • Explique o que foi feito como reparação urgente e porquê.
  • Entregue fotos do “antes” e do “depois”, faturas e orçamentos.
  • Mantenha uma lista simples dos danos por divisão e por zona exterior.

Segurança Social e ação social: Apoio rápido quando “o orçamento rebenta”

Há famílias que, além de terem a casa danificada, ficam sem rendimentos, sem bens essenciais e com despesas extra. Para esses casos, existem apoios sociais extraordinários de emergência. De acordo com o Governo, os apoios são de 537 euros individualmente ou até 1.075 euros por agregado familiar, para situações de carência ou perda de rendimentos.

Onde pedir:

  • Serviços locais da Segurança Social.
  • Serviços de ação social da câmara municipal.

O que pode ser analisado:

  • Perda ou quebra de rendimentos.
  • Necessidade de alojamento temporário.
  • Perda de bens essenciais.
  • Aumento de despesas urgentes ligadas à habitação.

O que costuma ser necessário:

  • Identificação e NIF de todos os elementos do agregado.
  • Comprovativos de rendimentos.
  • Prova de residência.
  • Provas dos danos e das despesas já suportadas.

Se estiver desalojado, comunique isso de forma clara. E guarde recibos de hotel, pensão ou arrendamento temporário. Podem ser relevantes para avaliação.

Moratória no crédito habitação: Uma pausa que alivia agora, mas tem impacto depois

Entre as medidas anunciadas está a suspensão temporária do pagamento do crédito habitação durante três meses para famílias afetadas. É um alívio imediato, mas não é “dinheiro grátis”. É uma pausa.

Antes de pedir a moratória, deve confirmar com o banco:

  • Qual o período exato de suspensão;
  • Se a dívida é empurrada para o fim do contrato, aumentando o prazo, ou se haverá ajuste na prestação futura;
  • Que documentos vão exigir para provar que foi afetado.

Se a casa ficou danificada pela tempestade Kristin, tome a iniciativa de contactar o banco e peça resposta por escrito.

Leia ainda: Tempestade Kristin: O que são as moratórias para quem tem crédito e que impacto têm no empréstimo

E se a casa for secundária? Ainda há passos úteis para proteger os seus direitos

Os apoios públicos à reconstrução estão orientados para habitação própria e permanente. Mas se a sua casa danificada for secundária, não significa que não haja nada a fazer.

O caminho continua a ser:

  • Acionar o seguro, se existir.
  • Registar danos na autarquia, sobretudo se houver risco estrutural ou impacto em terceiros.
  • Guardar provas e faturas.

Mesmo sem apoio direto para obras, pode precisar de relatórios e documentação para processos com seguradoras, para responsabilidades ou para evitar agravamento do dano.

Onde pedir ajuda local: Juntas de freguesia, IPSS e redes de emergência

Há respostas que não aparecem em diplomas. Aparecem no terreno. Muitos municípios e instituições locais ativam:

  • Alojamento temporário.
  • Recolhas de bens.
  • Apoio a idosos e famílias vulneráveis.
  • Apoio psicológico em contexto de crise.

Se está fragilizado e sem rede, comece pelo mais próximo:

  • Junta de freguesia.
  • Gabinete de ação social da câmara.
  • Proteção Civil municipal.
  • Associações que estão no terreno: Cáritas, Cruz vermelha, entre muitas outras.

O objetivo é simples: não ficar sozinho no meio do processo.

Crie a “pasta Kristin”: A organização que reduz stress e acelera decisões

Perante o cenário devastador de ver a sua casa danificada, é normal que a sensação predominante seja de caos. Uma pasta física ou digital pode ajudar a “arrumar” a cabeça e poupar energia.

O que deve guardar nesta pasta:

  • Documentos da casa: caderneta predial, certidão do registo predial, contrato de arrendamento, se aplicável.
  • Prova de residência: morada fiscal, faturas de água/luz, recibos de renda.
  • Provas dos danos: fotos, vídeos, relatórios.
  • Relação de bens danificados e valores aproximados.
  • Orçamentos de obras.
  • Faturas de reparações urgentes e alojamento temporário.
  • Comunicações com seguradora, câmara, Segurança Social e banco.

Faça também uma linha temporal simples: dia da tempestade, dias de reparações urgentes, data de participação ao seguro, data de contacto com a câmara, etc. Isto ajuda a explicar o seu caso sem se perder.

Frases úteis para pedir ajuda quando está a viver um período de stress

Em situações de stress, é fácil esquecer detalhes. Leve estas frases como guião. São curtas e funcionam.

Para a câmara municipal

A minha casa ficou danificada pela tempestade Kristin. Moro em [morada]. Preciso de registar os danos e saber que apoios existem para obras e alojamento.

Para a Segurança Social ou ação social da câmara

O meu agregado foi afetado pela tempestade Kristin. Estamos com dificuldades em pagar despesas essenciais e preciso de saber que apoios extraordinários existem e como pedir.

Para a seguradora

Venho participar danos na minha habitação causados pela tempestade Kristin, na noite de 27 para 28 de janeiro, na morada [morada]. Envio fotos, descrição dos danos e faturas de reparações urgentes.

Para o banco

Fui afetado pela tempestade Kristin e preciso de saber se tenho direito à moratória no crédito habitação, por quanto tempo e como será feito o acerto das prestações.

Checklist final: O que fazer hoje para não perder direitos amanhã

Se a sua casa ficou danificada pela tempestade Kristin, use esta lista como “plano de 24 horas”:

  • Confirme se a casa é segura ou se precisa de avaliação técnica.
  • Reúna fotos, vídeos e tudo o que ainda conseguir recuperar.
  • Guarde faturas de materiais, reparações e alojamento temporário.
  • Participe o sinistro ao seguro, mesmo que já tenham passado dias.
  • Contacte a câmara municipal para registar oficialmente os danos.
  • Pergunte pela vistoria e pelos apoios à reconstrução.
  • Avalie apoios sociais na Segurança Social e na ação social do município.
  • Fale com o banco sobre moratória do crédito habitação, se aplicável.
  • Crie uma pasta com todos os documentos e comunicações.

Leia ainda: Tempestades e trabalho: O que prevê a Lei num cenário de Calamidade

Perguntas frequentes

Sim. Mesmo que já tenham passado alguns dias, registar danos na câmara municipal e pedir apoios públicos e sociais. Quanto ao seguro, o prazo legal para o ativar são oito dias, mas vale a pena contactar a sua seguradora. O importante é agir o quanto antes, reunir provas disponíveis e justificar eventuais atrasos com a necessidade de garantir segurança e condições mínimas.

O apoio à reconstrução até 10.000 euros está orientado para habitação própria e permanente, ou seja, a casa onde a família vive habitualmente. As habitações secundárias ficam, em regra, fora deste apoio direto, devendo recorrer sobretudo ao seguro, se existir.

Se não tiver seguro multirriscos, deve registar os danos na câmara municipal. As autarquias articulam vistorias e encaminham os pedidos para os apoios públicos à reconstrução. Também pode pedir apoios sociais de emergência junto da Segurança Social, se tiver dificuldades económicas resultantes da tempestade.

Apenas com reparações urgentes para evitar agravamento dos danos, como tapar telhados ou cortar água. Obras estruturais devem, sempre que possível, esperar pela perícia do seguro ou pela vistoria oficial. Caso contrário, pode dificultar a avaliação e o acesso a apoios.

Em regra, vão pedir identificação, prova de residência, documentos do imóvel, fotografias dos danos, faturas de despesas urgentes e, se aplicável, informação sobre seguro. Para apoios sociais, podem também pedir comprovativos de rendimentos e composição do agregado familiar.

Sim. Famílias desalojadas devido à tempestade Kristin podem ter acesso a soluções de alojamento temporário ou apoios financeiros para esse fim, avaliados caso a caso. O pedido deve ser feito na câmara municipal ou junto da Segurança Social, com prova da situação.

Não. A moratória não é automática. Deve contactar o banco, informar que foi afetado pela tempestade Kristin e perguntar se cumpre as condições. É importante confirmar por escrito a duração da suspensão e como será feito o acerto das prestações no futuro.

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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