O nome deste jogo de tabuleiro soa de forma esquisita: «Arkwright: The Card Game» (2021). Não pela parte das cartas, claro, mas pela primeira palavra. A explicação necessária, porém, surge logo na primeira página do livro de regras. Estamos, então, em finais do século XVIII e no início da Revolução Industrial. «Numa enorme mudança em relação aos produtos feitos à mão, empresários como Richard Arkwright fundaram as primeiras fábricas que dependiam fortemente da mecanização para a produção dos bens.» E é isso que nos pedem que façamos. Que sejamos empreendedores capazes de construir unidades fabris adequadas aos novos tempos. Tarefa fácil? «Estejam preparados para as crises e para a concorrência…»
Comprar uma máquina, despedir uns quantos
Ao colocar o tabuleiro do mercado no centro da mesa o tom do jogo fica bastante claro. Será ali que se definirão as oscilações na procura e no fator atrativo dos quatro produtos transacionáveis: alimentos, vestuário, talheres e lamparinas. Felizmente, não se começa de mãos a abanar: cada jogador tem direito a duas fábricas iniciais. Desde logo, será essencial organizá-las devidamente. Há localizações específicas para o escritório, para as cartas relativas à qualidade e à distribuição, para os trabalhadores e os armazéns. Tudo disposto, fica-se pronto para abordar as três décadas em que se desenrola a partida, de 1770 a 1790.
Em cada turno, o jogador terá de optar por construir ou melhorar fábricas, empregar mais trabalhadores, automatizar a produção, melhorar a qualidade ou a distribuição dos produtos… Qualquer opção terá as suas consequências. Por exemplo, construir fábricas ou contratar operários acarreta o acréscimo da folha salarial. Da mesma forma, inaugurar uma nova unidade fabril leva à subida dos marcadores da procura. Porquê? Pois se existem mais trabalhadores a receberem salário, isso aumenta o poder de compra e, consequentemente, a procura por todos os produtos existentes no mercado. Mais trabalhadores sob o nosso teto também implica, obviamente, o aumento da produção. Mas convém não esquecer que estamos em plena Revolução Industrial. Por isso, o desenvolvimento do negócio passa em grande medida pela substituição dos operários por maquinaria. Sim, é verdade, as máquinas implicam manutenção; mas esse custo é inferior ao salário pago a um homem. E assim se reduzem os custos operacionais.

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Bem que dava jeito um patrono para a cutelaria…
Feitos os seus investimentos, os jogadores podem efetuar transações na bolsa de valores. «No final, tudo se resume à fé que tiver no seu negócio», diz-se no livro de regras. Qual será a melhor estratégia: comprar ações quando estão baratas e tentar aumentar o valor da empresa, ou focar-se primeiro na tarefa de ganhar dinheiro e deixar para mais tarde a compra das ações?
Arkwright exige que se defina uma estratégia sólida, pois os competidores estarão sempre atentos às nossas movimentações, para depois responderem de forma a gerarem ainda mais-valias para eles próprios. No contexto do jogo, os desenvolvimentos acabam por ter especial impacto nessa estratégia, seja nas melhorias efetuadas na qualidade, na distribuição, na maquinaria ou na capacidade de carga dos navios. As cartas que dão título ao jogo servem precisamente para obter benefícios e vantagens competitivas. Abrir um gabinete de comércio torna possível minimizar o ónus das exportações marítimas. Contratar um corretor permite comprar ações com desconto. Um capataz ajuda a reduzir os salários pagos aos trabalhadores. Encontrar um patrono aumenta a quantidade de mercadoria que se pode vender no mercado interno. E, entre outras hipóteses, ainda podemos contratar um engenheiro para aprimorar a qualidade dos produtos saídos das fábricas, ou adquirir uma patente que aumente a capacidade de distribuição.
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Apostamos na aventura da exportação marítima?
Na fase de produção, os empreendedores podem finalmente vender os produtos saídos das suas fábricas. O mais fácil será escoá-los primeiro no mercado interno. Mas atenção: não conseguiremos vender nada se o nível de atratividade dos nossos produtos for menor do que o nível da procura. Se assim for, as nossas mercadorias terão um preço tão alto que ninguém lhes irá pegar! Caso a concorrência no mercado inglês se revele demasiado feroz, há sempre a hipótese de recorrer ao mercado externo. Porém, como a navegação ainda é uma aventura cheia de perigos, os receios dos acionistas podem bem provocar a descida do preço das ações…
Para os empresários mais gananciosos, talvez a fase menos apetecível seja a de pagar os custos de produção. Lá se vai o dinheiro em custos fixos, em salários, em manutenção da maquinaria. Se não houver suficiente dinheiro em caixa, pode-se recorrer a um fundo de emergência, embora com condições menos vantajosas do que os empréstimos bancários, mais indicados para alavancar investimentos. «Não é fácil gerir um negócio», dizem-nos. «Após a dedução de todos os custos, até um lucro mínimo acaba por ser um sucesso. Nem será inusitado que uma fábrica nova, inicialmente, dê prejuízo.»
Chegados ao final da década de 1790, e já prestes a entrar num novo século, vendem-se a preço tabelado os produtos que ficaram nos armazéns, compra-se o maior número possível de ações, subtraem-se os empréstimos bancários, os fundos de emergência e o número de exportações feitas pelos nossos navios. A multiplicação do valor final das ações pelo número de títulos que se possui determinará a pontuação final e o empreendedor vitorioso. Ou seja, fica eleito o novo Richard Arkwright, pelo menos até à próxima partida.
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