Cyndi Lauper – “Money Changes Everything” [1983]
Ter ou não dinheiro é algo que pode definir a vida de uma pessoa. Em tempos, trouxemos aqui esta canção de Cyndi Lauper para mostrar como até as juras de amor eterno podem sofrer com a falta de dinheiro. Mas, desta vez, queremos olhar para o videoclip oficial com a letra, que nos parece contar uma história diferente, provavelmente passada na era da revolução industrial.
Para ilustrar que o dinheiro pode mudar muita coisa, vemos uma fileira de chaminés fabris a fumegarem e, logo depois, imagens recortadas de trabalhadores de épocas passadas: uma dúzia de crianças, um mineiro, uma mão cheia de prisioneiros negros, um punhado de mulheres operárias. Eles e elas trabalharam, trabalharam muito nessas fábricas, nas minas, na construção de estradas; mas nenhum deles ganhou, fruto desse trabalho, dinheiro que lhes pudesse mudar a vida. As notas esvoaçantes que várias mãos tentam agarrar, essas, segundo a ilustração, vão parar aos bolsos de homens de fato. Aqueles que a letra caracteriza assim: «Eles apertam-nos a mão e sorriem / Pagam-nos uma bebida / Dizem que vão ser nossos amigos / Que vão ficar ao nosso lado até ao fim».
Pode-se confiar neles? Pela voz de Cyndi, nem por isso. Esses patrões cuidam sobretudo dos seus próprios interesses. «Achamos que sabemos o que estamos a fazer, mas não somos nós que puxamos os cordelinhos». No final, uma fileira de homens faz fila para a sopa dos pobres, enquanto três ou quatro engravatados aparecem sentados em cima de enormes pilhas de notas. «O dinheiro muda tudo», repete a cantora.
Leia ainda: Tudo o que o dinheiro quer é…
Randy Newman – “It’s Money That Matters” [1988]
O teledisco com estética dos anos 80 mostra Randy Newman a sair de um hotel, acompanhado por uma rapariga espampanante. No átrio, é assaltado por uma multidão; pedem-lhe que assine uma petição ambientalista, mas ele não está para perder o seu tempo a inteirar-se do assunto. A indiferença é tão grande que quase nem reconhece um antigo colega de liceu. Ao entrar no carro descapotável, o refrão já nos diz aquilo que realmente lhe interessa: «O que importa é o dinheiro.» Para o ilustrar, sucedem-se imagens de gente rica em jacuzzis, em courts de ténis, à porta de lojas de alta-costura. Carros de luxo, sacos de compras, negociatas empresariais, acompanhantes louras de biquíni… «O que importa é o dinheiro».
Ao conduzir pela denominada “Terra da Contracultura”, Randy encontra uma população de hippies e outra gente desalinhada com o sistema vigente. Se nos guiarmos pela letra, ele não os olha de lado. «Todas estas pessoas são muito mais inteligentes do que eu / Em qualquer sistema justo, elas floresceriam e prosperariam / Mas elas mal conseguem sobreviver / Ganham a vida de forma árdua / Mal conseguem sobreviver.»
Durante muito tempo, o protagonista desta história não sabia bem o que achar da vida. Aos treze anos, olhava em redor e perguntava-se: «Qual é o significado disto tudo?» Repetiu essa pergunta ao pai, ao amigo, ao irmão, a toda a gente que conhecia, mas ninguém lhe soube dar uma resposta. Até que, certo dia, ao lavar um carro para ganhar uns cobres, travou conhecimento com o proprietário da mansão de enormes portões e jardins em que tinha entrado. O miúdo ousou comentar a aparência extravagante do homem. E este, enfiado no seu pijama lustroso, deu-lhe razão. E, então, qual era o problema de ele se vestir assim? Foi então que o jovem Randy escutou a seguinte explicação:
Mas eu tenho uma enormíssima casa na colina
Com uma mulher alta e loura lá dentro
Uma grande piscina no quintal das traseiras
E outra grande piscina ao lado dessa
Miúdo, o que importa é o dinheiro
Ouve o que eu te digo
O que importa é o dinheiro
Nos Estados Unidos da América
O que importa é o dinheiro
E tu sabes que isso é verdade
O que importa é o dinheiro
Faças lá o que fizeres
Leia ainda: A marcha musical da mulher independente
Arnaldo Antunes – “Dinheiro” [1998]
Mas que é isso, afinal, do dinheiro? Segundo a canção de Arnaldo Antunes, não passa de um pedaço de papel. Algo frágil, demasiado frágil. «Pega fogo fácil», avisa o artista brasileiro. E, se queimarmos dinheiro em forma de papel, que acontece? «Vai pro céu, como fumaça». Além disso, «também é fácil rasgar / como as cartas e fotografias». E, nesse caso, não se pode usar mais. Simplesmente foi-se, «porque dinheiro é um pedaço de papel». Ou era, pois estamos a falar de um tema de final do século XX. Agora, neste novo século, o dinheiro também é cartões eletrónicos, transferências wireless… Alguém ainda usa notas?
Seja como for, talvez haja outras frases desta letra que continuem a fazer sentido. Como esta, quando Arnaldo nos diz que «dinheiro não se leva para o céu». Nem em notas de papel, nem em dígitos num ecrã de telemóvel.
Leia ainda: Canções de intervenção: Até quando?
